Romance de Lucrecia Zappi entrelaça crise conjugal e decadência urbana

Capa 'Acre'A aparente estabilidade do casamento de Oscar e Marcela, dois comerciantes paulistanos de classe média – é ameaçada pela chegada de Nelson. Os três se conheceram em Santos e viveram uma espécie de triângulo amoroso na juventude, até que Nelson foi viver no remoto Acre. Sua mudança para o apartamentio vizinho ao do casal, na Vila Buarque, revela o equilíbrio precário que sustentava a relação amorosa e dispara um movimento de tensão crescente e desenlace imprevisível. A crise conjugal, por sua vez, espelha outro proceso de deterioração: o da decadente paisagem urbana onde vivem os personagens, em um bairro cada vez mais inseguro, povoado por moradores de rua, prostitutas, travestis e cracudos.

É este o enredo de “Acre”(editora Todavia, 208 pgs. R$ 44,90), segundo romance de Lucrecia Zappi. Nascida em Buenos Aires, ainda menina Lucrecia se mudou para São Paulo com a família. Passou a adolescência no México e estudou Artes em Amsterdam. Hoje mora em Nova York, onde fez uma pós-graduação em Escrita Criativa comandada pelo romancista E.L.Doctorow.

A cidade de São Paulo é uma personagem importante no seu romance…

LUCRECIA ZAPPI: Em “Acre”, a cidade tem uma beleza fragmentada, carcomida, com as paredes grafitadas até os ossos, e ao mesmo tempo é um beco sem saída. Acho que, no romance, São Paulo tem esses dois aspectos. Eu queria um palco mais austero, com uma luz emocional crua interferindo na ação, para que justamente essa construção ajudasse na busca de Oscar. E gosto de imaginar que essa luz é um céu nublado paulistano mesmo. Daí a relação do narrador com o lugar, que me faz pensar no W.G.Sebald, olhando para o chão, imaginando os rios subterrâneos. Oscar faz um mapa sentimental de um mundo desconstruído, para depois reconstruí-lo por meio de suas lembranças.

A percepção da cidade vai aos poucos se sedimentando com as próprias memórias. É também um lugar extraordinrário, que o arranca da experiência cotidiana. Oscar é o tipo de cara que gosta de parar numa esquina e imaginar quem foi o sujeito que leva o nome da rua. Ele gosta de circular por um universo mais pessoal do que da grande cidade. Dentro disso, tento relatar o lado solitário da vida urbana, das vidas mais ou menos meio fracassadas. “Acre” tem um pouco esse viés existencialista de noir urbano, e a cidade é importante nisso, mesmo que o romance traga elementos de um romance clássico de fronteira. A figura do forasteiro é crescente no livro, como uma sombra comprida de fim de tarde.

Como foi o processo de criação de “Acre”. Como surgiram os personagens, o enredo, a estrutura? Quais foram suas fontes de inspiração? O prédio onde a ação se desenrola, por exemplo, é real…

LUCRECIA: Nos Estados Unidos se você diz “acre” todos mais ou menos relacionam a palavra ao tamanho de um território. O olhar escapa da conversa, como se calculasse por um segundo. Eu não cresci no país das polegadas, a unidade de medida agrária não me diz nada. Acre para mim é um gosto pungente de ruim, ou o estado brasileiro, que me remete às fronteiras, ao encontro de águas do português com o espanhol. Nessa linha de pensamento, considerei fazer um romance de fronteiras, algo que sempre admirei, pelo seu caráter existencial talvez, em uma terra de ninguém, mas algo me arrastava para São Paulo.

O prédio onde cresci é o da capa, mas não é o prédio do romance. O apartamento do Oscar fica mais para outra ponta da praça, de frente para os ipês. E isso é importante porque os ipês forçam o olhar do Oscar para o Acre, e consequentemente para seu inimigo de adolescência que acabou de chegar, mudando-se para o mesmo prédio, aliás para o apartamento vizinho.

O livro acabou se tornando, como gosto de brincar, um bang-bang à paulistana, com alguns elementos reconhecíveis de um western. Um forasteiro volta para casa, revivendo um duelo. E isso se passa em um tempo que avança e retrocede como a maré. Há as lembranças de Santos nos anos 80, onde Oscar, Marcela e Nelson se conheceram, e uma São Paulo de agora. Não tem xerife, mas tem um síndico justiceiro que sai por aí. Em “Acre” sonha-se buscando uma fuga. E as lembranças da juventude fazem parte dessa busca, além das fronteiras não só físicas, mas sociais também, e sem querer, o gosto acre volta.

A narrativa entrelaça conflitos de classe e conflitos conjugais. Você é entende que é um papel do escritor fazer uma crítica social e política de seu tempo?

LUCRECIA: Não acho que seja o dever do escritor fazer denúncia social nem política, mesmo que toda boa literatura, como qualquer outra forma de arte, transcenda o próprio texto, podendo ser interpretado em muitas esferas, até porque dialoga com o mundo. Tudo acontece a partir da perspectiva dos personagens, e não da “grande história”, como diria o escritor chileno Jorge Edwards: o propósito narrativo se impõe ao crítico. De volta ao “Acre”, só para dar um exemplo disso, dizem que toda figura fascista age em nome de uma causa justa. Pois é. Adriano, o síndico do prédio onde se passa a história, parece ser a única pessoa preocupada em limpar a cidade, mas a seu modo. Faz justiça com as próprias mãos, transforma São Paulo em um “faroeste urbano” com regras próprias. Diante de tensões como essa, que não deixam de ser um reflexo em torno das nossas fronteiras sociais, o narrador avança em uma realidade que ele já não reconhece, mesmo que esteja em contato com as ruas, repletas de moradores de rua e gente alucinada pelo crack. Penetra em um mundo labiríntico, e o relato fica mais seco, talvez até mais violento, e há quase uma inadequação entre o dizível e o excesso do que se vê, que não deixa de causar estranhamento.

A ordem amorosa na qual se insere a situação vivida pelos personagens parece convencional, em tempos de “amores líquidos”: um casamento ameaçado pela chegada de um antigo namorado da mulher. Sua intenção era retratar a crise desse modelo?

LUCRECIA: Buscando uma trama simples assim, com os estereótipos de um modelo simples de casamento tradicional, antes de retratar a crise do modelo tradicional de casamento, eu quis meditar sobre a solidão, sobre as pessoas profundamente sozinhas, e sobre sua incapacidade de comunicação, mesmo aparentemente tão próximas. Oscar quer uma vida feliz e tranquila com Marcela. O que se torna impossível com a chegada de Nelson. Oscar é um cara que não entende a própria mulher, aliás duvido que entenda as mulheres. Marcela, pelo seu lado, é um enigma. Se é adúltera ou não, pouco importa na cartilha moral de Oscar. Ele só quer a maldita vida feliz e tranquila ao seu lado, tão acomodada e sem graça quanto comer o feijão a colheradas direto da panela fria. Ele acha que é amor o que sente por Marcela, e deve ser, mas ela não suporta sua presença porque é um cara chato. Do tipo que idealiza o passado com ela.

A violência, o ciúme e a paranoia, bem como a evocação do passado pelo personagem Oscar, aproximam a narrativa de uma temática psicanalítica. Existe alguma relação entre sua ficção e a psicanálise?

LUCRECIA: Não quero dar nenhuma uma dimensão psicanalítica nem moral ao meu texto. “Acre” está cheio de figuras meio fracassadas, ou que não encontram seu lugar no mundo, que dão voltas ao redor de si mesmas. E a violência, o ciúme e a paranoia brotam de um mundo cheio de buracos, imperfeito, onde as pessoas não conseguem se comunicar umas com as outras, até porque não sabem o que dizer. Desconfiam do que pensam, mas não têm certeza. E essas vozes quase se ouvem no silêncio que perpetua ao longo do romance, tão incômodas quanto ver fantasmas. Ou imaginar o que faz o vizinho do outro lado da parede.

Você fez mestrado em criação literária na New York University. De que maneira isso afetou a sua atividade como escritora?

LUCRECIA: Não esqueço um professor que tive na NYU que estudou com o William Burroughs, em um dos primeiros cursos de criação literária nos Estados Unidos. UA. O Burroughs não era lá tão diplomático. Xingava quem achava que tinha que xingar, rasgava manuscritos e vociferava coisas como “Dane-se como você vai resolver isso. Se vira.” Acho que essa anedota expressa bem o que representa um mestrado desses: o contato com um grande escritor, se você tiver sorte, e muita troca de texto entre os alunos. Você pode aprender técnica e formatar belamente a tua história, mas na hora da criação, o problema é teu. Você está sozinho. Desde Burroughs, o grau de gentileza e de civilidade aumentou nas salas de aula, mas no fundo, no fundo, você sabe. Ninguém vai te ensinar a ser um artista.

Com que obras e autores sua ficção mais dialoga? Quais foram as leituras e escritores que influenciaram a narrativa de “Acre”?

LUCRECIA: “Os Sertões” de Euclides da Cunha, “Grande Sertão: Veredas” de Guimarões Rosa e “Vidas Secas” de Graciliano Ramos forma a minha trinca de clássicos brasileiros. Já não vivo sem, fazem parte de mim. A linguagem é pulsante e original, cada uma a seu modo. Gosto muito de literatura noir clássica também. Acho que Acre também tem algo das minahs leituras favoritas do gênero: “O assassino dentro de mim”, do Jim Thompson, “Piscina Mortal” de Ross MacDonald, para citar alguns. E Dashiell Hammet, Raymond Chandler, Patricia Highsmith.

Para citar algo bem específico relacionado a “Acre”, diria que meu narrador Oscar brotou inicialmente do narrador de “Los Adioses”, de Juan Carlos Onetti. Não conseguia largar esse relato, contado por um dono de um armazém que observa com uma ponta de inveja o vai-e-vem de um sujeito misterioso que recebe cartas de duas mulheres, instalado em um hospital de tuberculosos em um vilarejo montanhoso inspirado em Córdoba. Assim como no relato de Onetti, eu queria criar uma cumplicidade com o leitor, mesmo a partir do olhar de um cara mesquinho e especulador. Queria que o leitor se sentisse traído por essa distorsão, mas que, ao mesmo tempo se rendesse totalmente a ela.

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