Ao desviar dos tons folhetinescos, Zé Renato sobressai em tributo a Dalva


O repertório de Dalva de Oliveira (5 de maio de 1917 – 30 de agosto de 1972) tinha voltagem emocional tão alta quanto os agudos e as paixões da centenária cantora paulista, cuja cristalina voz de soprano é um dos símbolos mais perenes da era do rádio e da música brasileira da fase pré-Bossa Nova. Curiosamente, foram dois cantores sem a carga dramática da estrela que fizeram os números mais bem acabados da edição carioca do show 100 anos de Dalva de Oliveira.


Ao se desviar do tom folhetinesco deste repertório, Zé Renato (foto) e João Cavalcanti sobressaíram no elenco do show coletivo dirigido por Thiago Marques Luiz, roteirizado por Ricardo Cravo Albin e gravado ao vivo para edição de CD duplo a ser lançado pela gravadora Biscoito Fino com a reunião dos registros do show do Rio de Janeiro (RJ) e de São Paulo (SP), cidade onde o centenário de nascimento de Dalva foi celebrado em 8 de julho com outro elenco e outros músicos.


Com toque do próprio violão eletroacústico, Zé Renato solou Palhaço (Nelson Cavaquinho, Oswaldo Martins e Washington Fernandes), samba lançado por Dalva em disco de 1952. Destoante da escola do canto exacerbado da maioria do elenco (formado por Agnaldo Timóteo, Amelinha, Áurea Martins, Doris Monteiro, Eliana Pittman, Ellen de Lima, Gottsha, João Cavalcanti, Júlia Vargas, Leny Andrade, Luciene Franco, Márcio Gomes, Rosa Marya Colin, Simone Mazzer, Thiago Sagi, Valéria e Zezé Motta, além do próprio Zé Renato), o cantor capixaba de alma musical carioca apresentou versão sóbria deste samba tão sentido quanto elegante.


Com a mesma elegância, João Cavalcanti – vocalista do grupo carioca Casuarina – caiu no suingue ao cantar outro samba, Copacabana beach (Armando Cavalcanti e Klécius Caldas, 1958), joia escondida no baú de Dalva.


Em que pese o êxito artístico dos dois cantores, o público idoso que lotou a casa Imperator na tarde da última quinta-feira, 24 de agosto de 2017, se identificou mais com o tom passional de vozes de outras eras. Esse público nem notou que, em alguns números, cantores e músicos andaram em tempos diferentes, em desencontro que prejudicou as interpretações de Eliana Pittman, escalada para cantar o samba Olhos verdes (Vicente Paiva, 1950), e Rosa Marya Colin, a cuja voz foi confiado o bolero Fracassamos (Herivelto Martins, 1972), título folhetinesco do cancioneiro do compositor fluminense Herivelto Martins (1912 – 1992), com quem Dalva trocou juras de amor e farpas. Heroica, Rosa se manteve firme ao longo do número musical.


Entre altos e baixos, salvaram-se o rigor estilístico de cantoras como Áurea Martins e Leny Andrade, intérpretes de Bom dia (Herivelto Martins e Aldo Cabral, 1972) e Há um Deus (Lupicínio Rodrigues, 1957), respectivamente. Se Doris Monteiro ficou sem fôlego para puxar o cordão carnavalesco de Zum zum (Paulo Soledade e Fernando Lobo, 1951), Ellen de Lima mostrou força suficiente para encarar A grande verdade (Luis Bittencourt e Marlene, 1951) – assim como Luciene Franco encontrou o tom expansivo da resignada E a vida continua (Jair Amorim e Evaldo Gouveia, 1961), fazendo jus aos aplausos do público.


Dentro do salão carnavalesco, a marcha-rancho Máscara negra (Zé Kétti e Pereira Matos, 1966) se ajustou mal ao canto de Zezé Motta e Bandeira branca (Max Nunes e Laércio Alves, 1970) foi hasteada sem força por Amelinha (vestida com figurino tão casual quanto inadequado). Com teatralidade exibicionista, Valéria teve presença vivaz ao cantar o samba-exaltação A Bahia te espera (Herivelto Martins e Chianca de Garcia, 1950) enquanto Agnaldo Timóteo procurou ecoar a grandiloquência de outrora ao reviver o bolero Lembrança (Un recuerdo) (Carlos Martinez em versão de Serafim Costa Almeida, 1962).

Representantes da nova geração de cantoras, Júlia Vargas e Simone Mazzer também marcaram presença. Júlia tem tanta segurança vocal em cena que driblou até esquecimento de trecho da letra de Que será (Marino Pinto e Mário Rossi, 1950). Já Mazzer reiterou a potência dramática da voz no passo do tango Lencinho Querido (El Pañuelito), versão em português feita por Maugeri Neto – lançada em 1954, mas popularizada por Dalva em 1956 – a partir da letra original do tango argentino composto por Juan de Dios Filiberto e Gabino Coria Peñaloza.


Já Gottsha soube emocionar o público no tom exato do Hino ao amor (Hymne a l’amour) (Edith Piaf e Marguerite Monnot, 1950, em versão em português de Odair Marsano, 1956). Mesmo soando irregular como quase todo projeto coletivo, a edição carioca do show 100 anos de Dalva de Oliveira foi exacerbado hino de amor ao cancioneiro emocional de Dalva de Oliveira. (Cotação: * * *)


(Créditos das imagens: Zé Renato, Gottsha e elenco em fotos de divulgação de Marcelo Castello Branco, fotógrafo contratato pela produção do show)

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