Bamba pop com o dom do samba, Wilson das Neves foi puro suingue


É preciso ser muito bamba para tocar com Elizeth Cardoso (1920 – 1990), cantora conhecida pelo rigor estilístico, e para versar com o rapper Emicida. E para, entra uma coisa e outra, ser parceiro de Chico Buarque em músicas como Grande hotel (1996) e Samba para João (2013). Wilson das Neves (14 de junho de 1936 – 26 de agosto de 2017) personificou esse bamba.


Em 81 anos de vida pautada pela alegria, o baterista, compositor e cantor carioca fez tudo isso sem deixar de cair no suingue. O suingue da bateria, instrumento que manuseava com leveza e balanço, e o suingue do própria existência, embebida por Das Neves em afetividade e permanente alto astral. Por tudo isso e um pouco mais, o artista entristeceu o universo pop brasileiro ao sair de cena na noite de ontem.


Sim, Wilson das Neves foi um bamba pop. Capaz de transitar com a mesma elegância pela Velha Guarda da escola Império Serrano (da qual era padrinho da bateria) e pela Orquestra Imperial, a big-band carioca que agregava cantores e músicos de outras gerações como o baterista Domenico Lancellotti, o hermano Rodrigo Amarante e a cantora Nina Becker. Um bamba que tinha o dom de fazer e tocar samba, como o parceiro Paulo César Pinheiro sentenciou ao escrever os versos da composição mais conhecida de Das Neves, O samba é meu dom, apresentada há 21 anos no disco em que o baterista se lançou como cantor e se firmou como compositor, O som sagrado de Wilson das Neves (1996).


Ao longo de 63 anos de carreira iniciada na década de 1950, na era do rádio e dos conjuntos de baile, Das Neves fez centenas de gravações em vários discos próprios e alheios. Somente o álbum que gravou com Elza Soares em 1968 já serve de atestado para o suingue incomum. Cantora diplomada na escola sincopada do sambalanço, Elza quebra tudo com a voz-instrumento. Em Das Neves, encontrou parceiro à altura. A ponto de ter posado com o baterista na capa do álbum, assinado pela cantora e pelo músico em pé de igualdade.


Admirador desse suingue fino e elegante, Chico Buarque sabia que Das Neves era um dos maiores bateristas do Brasil. Tanto que arregimentou o músico para a banda dele, Chico. Nas turnês de Chico, Das Neves dava show à parte, com o aval e a cumplicidade do dono do espetáculo. País de grandes músicos, o Brasil pariu Wilson das Neves, esse carioca que atravessou as fronteiras da cidade que amava com som realmente sagrado.


(Crédito da imagem: Wilson das Neves em foto de Daryan Dornelles)

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