Marketing para conteúdo certeiro em tempos incertos

Imagino que, a essa altura, com o Brasil sendo desmontado, loteado, saqueado por um desgoverno que não tem escrúpulo algum, muitos paneleiros, isentões e afins percebam o buraco que ajudaram a cavar. Os dias têm sido assim, pródigos em péssimas notícias e, nessa semana que se encerra, o troféu fica com o fim da reserva ambiental entre Pará e Amapá, área maior do que um país como a Suíça. Sim, nações indígenas e ambientalistas já perdiam espaço no governo de Dilma, bombardeados por interesses da bancada ruralista e seus parceiros que só pensam em lucro imediato (como os fabricantes de “defensivos” agrícolas e demais venenos proibidos mundo afora), mas, pelo menos, havia disputa interna e um discurso oficial falando em preservação. Agora, a máquina dominada por Temer Babá e comparsas tantos, ignorância e ganância imperam, a liquidação se instala.

@@@@Chico passa

Com tanta podridão na política, mais surreal fica a “polímica” (copyright Ezequiel Neves) em torno do suposto machismo embutido em “Tua cantiga”. A canção de abertura de “Caravanas”, enviada às plataformas de streaming três semanas antes do álbum, caiu nos tribunais das redes sociais e rendeu muito além do risível, o politicamente correto levado à última potência da intolerância.

Mas, em tempos regidos por marketing, para o bem ou para o mal, garantiu mais exposição e expectativa ao novo disco de Chico Buarque, desde ontem disponível por inteiro na internet ou em sua versão física no mercado, via Biscoito Fino.

Exposição reforçada entre os que ainda compram discos pela estratégia de lançamento junto à chamada crítica especializada. Como se sabe, através de um site com entrada mediante senha num único dia (nesta terça, 22/8). A partir das nove da manhã, tivemos acesso a áudio completo, todo o material gráfico e texto crítico de um especialista em MPB, Hugo Sukman, explorando (e quase esgotando) as muitas referências e belezas possíveis do novo álbum.

No (hoje, quase rebaixado para a terceira divisão das disputas culturais) fla-flu entre fãs de Caetano e Chico, o primeiro era acusado de marqueteiro em excesso. Algo que, na verdade, aplicaria-se ao grupo baiano-tropicalista em geral. Afinal, há exatamente meio século, quando os grandes festivais competitivos transmitidos no horário nobre pelas adolescentes emissoras de TV reuniam esses dois e demais artistas novos de uma safra sem igual (além de consagrados ainda em atividade), o marketing tão bem utilizado pelo pioneiro Guilherme Araújo foi um dos diferenciais para Caetano, Gil e companhia.

Nos últimos anos, ou, melhor, nessas duas primeiras décadas do século XXI, em termos de resultados de marketing, dá para cravar que Chico tem sido mais mais eficiente do que Caetano. No lugar da super-exposição, o recolhimento, quase sempre dedicado à gestação do novo projeto artístico da vez. Marqueteiro eficiente, portanto, mas aqui não vai juízo de valor em relação ao expediente. Não discuto as técnicas, e sim se o conteúdo do que é oferecido. E isso, em suas nove lapidadas canções, “Caravanas” tem de sobra. Letras e músicas ricas em detalhes, que nos conquistam aos poucos.

Apesar de separado por seis anos do anterior de estúdio, o tempo pouco significa. Esteticamente, é mais um na fase “entre romances”. E a volta a compor e cantar após “O irmão alemão” (2014) é tão denso e interessante quanto seus antecessores diretos, a partir de “Paratodos” (1993) – lançado dois anos depois de “Estorvo”, o livro que marca sua retomada da literatura (após o “orwelliano” “Fazendo Modelo”, de 1974) -, e que prosseguiu com “As cidades” (1998, três anos após o romance “Benjamim”), “Carioca” (2006, três depois de “Budapeste”) e “Chico” (2011, dois anos depois de “Leite derramado”). Além de manter essa alternância (mas, misturada a diversos outros trabalhos, os shows, que geram discos e DVDs ao vivo; três filmes feitos a partir de três dos romances; e projetos como o musical “Cambaio”, mais um da dupla Edu & Chico e gravado em disco coletivo), o núcleo de parceiros na empreitada continua o mesmo. Do violonista, arranjador, produtor e diretor musical Luiz Cláudio Ramos (e muitos dos músicos) ao empresário e produtor Vinícius França e o assessor de imprensa Mario Canivello. Para usar imagem futebolística (tema ao qual, por sinal, retoma em “Jogo de bola” e já vale pelo trocadrible de “Um Puskás eras”), time que está ganhando.

Disco agora completo, e em sua versão física desde ontem rodando no tocador de CD, a toada de amor “Tua cantiga” é perfeita abertura de “Caravanas”. Assim como “As caravanas” é “óbviobrigatório” fecho. Esta, com letra de potencial até muito maior para polêmicas, flagrando em montagem cinematográfica o estado de apartheid carioca – e que se repete por tantas outras grandes cidades brasileiras. A essas duas, acrescento entre as que já tocam sem pedir licença em minha cabeça: “Massarandupió”, a valsa em parceria com o neto Chico Brown que funciona como um bilhete para viagem ao passado de qualquer um que teve direito a infância plena; “Blues pra Bia”, balada do amor pleno, mais uma com versos para incomodar intolerantes; e o bolero dedicado a Havana ”Casualmente”, no qual o parceiro Jorge Helder troca o baixo (repassado para Guto Wirti) e divide violão e arranjo com Luiz Claudio para um quarteto completado pela percussão de Marcelo Costa.

Uma das duas não inéditas – ao lado do “Dueto” em dueto com outra neta, Clara Buarque” -, “A moça do sonho” me enfeitiça desde que a ouvi no disco “Cambaio” (2001). Então na voz do autor da envolvente melodia Edu Lobo e emoldurada por naipe de cordas arrebatador, teve versão logo em seguida de Bethânia que nunca me seduziu, pálida, sem a mesma alma. Agora, quase despida, apenas o violão de Luiz Cláudio e o violoncelo de Hugo Pilger acompanham a voz do autor da letra, a tem o encanto renovado, mais sutil e ainda perturbadora. “…Um lugar deve existir / Uma espécie de bazar / Onde os sonhos extraviados / Vão parar…”.

Na capa, perfil e contra-luz da imagem captada e tratada por Leo Aversa, ele parece uma dessas estátuas que nos últimos anos se espalharam pelo Rio (“Quase a de Drummond, mas com um violão”, comenta K). Mas, em sua caravana, Chico prossegue em movimento e conhece o rumo para esse lugar.

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As doses seguidas de “Caravanas” dificultaram o caminho para “Flores & cores” (Coaxo de Sapo), o novo de Guilherme Arantes. O que nas mãos de Chico e colaboradores soa multifacetado e multicolorido, no novo CD do pianista, tecladista, cantor, compositor sabe a chapado, monocromático. Baladas pop voando nos ares de teclados dos anos 1970, puro Arantes, mas que nessa sintonia buarqueana em que me encontro não emplacam. Após duas doses, vai ficar para depois, tentarei de novo na semana que vem, mesmo que por streaming, já que estarei longe de minha estação de trabalho, sem tocador de CD.

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O mesmo vale para “Tribalistas”, que, liberado para público na zero hora de ontem (25/8), furou a fila dos discos por streaming que me procuraram. Após três doses, parece faltar dinâmica à formula de natural música em volta da fogueira de Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown. O trio, que haters adoram odiar, seus convidados de 2012 Dadi e Cézar Mendes, e, em pontuais participações, Carminho (parceira em “Trabalivre” e “Os peixinhos”, nesta, também uma das vozes), Pedro Baby e Pretinho da Serrinha (tocando e como parceiros do trio em duas canções), reproduzem a atmosfera de 15 anos atrás. Como naquele, algumas canções batem mais que as outras – até o momento, “Fora da memória” e “Aliança”, as duas com Pedro e Pretinho. Diferentemente do primeiro Tribalistas, quando o mercado de disco ainda existia e a carreira dos três – uma mais que os dois – estava no auge, agora, uma sequência ao vivo no palco parece ser o caminho.

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Dois outros lançamentos físicos conseguiram bloquear o bloqueio buarquiano. Ambos instrumentais, mas em trilhas diferentes. “Live sessions II” (Amellis Records / Tratore), de Tony Babalu, segue linha comparável ao do inglês Jeff Beck, guitarrista que também dispensa a voz em sua carreira solo. Sobrevivente do rock paulistano dos anos 1970, quando, como na canção de Rita, seus praticantes ainda tinham cara de bandido, Babalu é guitarrista fluente, transitando por blues, funk, balanço à la Santana nas seis longas faixas que gravou, ao vivo, com fita analógica, no Mosh Studios. Temas que também são valorizadas por teclados (Adriano Augusto), baixo (Leandro Gusman) e bateria (Percio Sabia).

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O segundo, “Atonito” é um trio de formação inusitada, sax barítono (Cuca Ferreira), bateria (Loco Sosa) e baixo (Ro Fonseca), e também foi gravado ao vivo no estúdio. Idealizado pelo saxofonista (músico também na banda Bixiga 70 e que gravou em trabalhos recentes de Elza Soares, João Donato e Tulipa Ruiz), ele levou as melodias, harmonizadas por Fonseca e ritmadas por Sosa nos ensaios que antecederam as gravações. O resultado é mais para power trio roqueiro do que jazzístico nas oito faixas, divididas entre lado A e B, sendo que no segundo se juntam ao trio o guitarrista Kiko Dinucci (em “Torto é o passo”) e o percussionista Guilherme Kastrup.

PS: no início da tarde ontem, encontramos na caixa de correio dois novos títulos que, por motivos justificáveis, ficarão para depois. O CD-DVD “Música na Serrinha: 10 dias de criação” (Núcleo Contemporâneo), com um coletivo de criação encabeçado pelo trio Jaques Morelenbaum, Marcos Suzano e Benjamim Taubkin; e o CD “Imirim” (YB Music), de Lê Coelho.

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