Sem crise criativa, Tribalistas voltam com álbum ‘easy’ para gente feliz


“Sou easy, eu não entro em crise”, avisam Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte através de verso de Trabalivre, leve canção sobre o trabalho assinada pelo trio com a cantora e (eventual) compositora portuguesa Carminho. Trabalivre é uma das dez músicas inéditas que compõem o repertório de Tribalistas, segundo álbum do trio, no mercado fonográfico a partir de hoje, 25 de agosto de 2017.


Sem crise criativa, a ponto de terem selecionado dez das 20 músicas surgidas em sessões de composição na Bahia, os Tribalistas voltam após 15 anos com álbum que oferece munição para detratores do trio e alegria para os admiradores do grupo. Tribalistas, o disco produzido por Marisa Monte, é álbum easy para a gente feliz e saudável que admira o pop artesanal produzido pelo trio com barulhinhos bons extraídos tanto da escaleta tocada por Marisa em Trabalivre quanto do delicado arsenal percussivo manuseado por Brown ao longo do álbum. Violões (de Cézar Mendes, da própria Marisa e de Dadi, piloto de vários outros instrumentos) tecem a teia harmônica essencialmente acústica do disco, embora haja sutis toques eletrônicos nas canções gravadas com os músicos do álbum anterior de 2002.


Para quem já conhece as quatro músicas apresentadas em ousada ação digital na noite de 9 de agosto, a audição do álbum Tribalistas pode resultar em anticlímax. Porque a música mais surpreendente (pelo fato de ser inusitada) da safra de 2017 é a já cultuada Diáspora (Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte), canção que versa sobre a travessia triste dos refugiados políticos com citações, na voz cavernosa do poeta Arnaldo, do Canto 11 de O Guesa (de Joaquim de Sousândrade) e de trecho de Vozes d’África (do poeta baiano Castro Alves).


Diáspora é a música mais densa dentro do que pode ser considerado densidade no universo particular dos Tribalistas. Mas isso não quer dizer que não haja outras belezas no álbum lançado hoje em todas as plataformas digitais. Ânima (Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte) já desponta como clássico instantâneo do trio pela questão existencial exposta com delicadeza e poesia nessa canção quase etérea que parece flutuar no tempo e no espaço. “De onde eu vim / Eu não trouxe mala / Não trouxe nada / Não trouxe cor / Eu não trouxe massa / Só trouxe alma”, canta o trio na música (de inspirada melodia) em que sobressaem as vozes de Arnaldo e Marisa em harmonia.

Com encarte que expõe o trio em ilustrações do artista plástico Luiz Zerbini, o álbum Tribalistas traz a alma do grupo. Seja na afirmação da unidade do trio, feita na linguagem quase tatibitate da já conhecida música Um só (Arnaldo Antunes, Brás Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte), seja na afetividade que reforça a também já divulgada Aliança (Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Marisa Monte, Pedro Baby e Pretinho da Serrinha), canção que celebra uniões de amor e que soa como candidata a ser a nova Velha infância (Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte) do trio. Provável hit nos casamentos e na turnê (ainda não confirmada oficialmente) que vai percorrer o Brasil em 2018.


Dentro desse universo particular dos Tribalistas, Baião do mundo (Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte) segue o seco e se impõe como outro destaque imediato do repertório ao saudar poeticamente a água trazida pela chuva em tempos de sede. Água que preserva a vida dos peixes, descritos com pureza infantil e no tempo da delicadeza que pauta Os Peixinhos, canção gravada com a voz lusitana de Carminho, parceira do trio nessa composição que encerra álbum feito para o genérico grande público, sem melodias e letras rebuscadas.


Autoconfiante desse poder de sedução das massas, o trio pede adesões em Lutar e vencer (Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte). “O negócio é vencer a si mesmo”, sentencia Brown ao cantar verso desta canção. Por mais que o trio tenha roçado a vitória neste segundo disco, quase tão encantador quanto o CD lançado em 2002, o álbum Tribalistas é recomendado somente para gente feliz que vai entender o recado dos versos de Fora da memória (Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Marisa Monte, Pedro Baby e Pretinho da Serrinha).


Feliz e saudável, aliás, é o nome da música dançante de batida funkeada que também integra o repertório do álbum. Ao fim da música, Arnaldo, Carlinhos e Marisa são vistos no estúdio aos risos, soltos, no vídeo captado por Dora Jobim (a edição em DVD do álbum trará os vídeos das gravações das dez faixas). Nada que surpreenda. Em que pesem as diásporas que entristecem o mundo, os Tribalistas saúdam a vida. Tribalistas, o álbum, é para quem vê beleza na simplicidade da música e da própria vida. (Cotação: * * * *)


(Créditos das imagens: Tribalistas em foto de divulgação. Capa das edições em CD e DVD do álbum Tribalistas. Ilustração de Luiz Zerbini)

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