Teatralidade encorpa e dá expressivo movimento a show em tributo a Ney


A rigor, Puro Ney – espetáculo em tributo ao cantor Ney Matogrosso que estreou esta semana na cidade do Rio de Janeiro (RJ) – não se ajusta à moldura dos musicais de teatro. Até por não haver texto e personagens em cena. Contudo, a intensa teatralidade que pauta as interpretações dos cantores Marcos Sacramento e Soraya Ravenle, visível nas coreografias e no trabalho corporal dos artistas, aproxima o show dos musicais. É sobretudo através da expressiva direção de movimento criada por Lavínia Bizzotto que Sacramento e Ravenle evocam Ney, cantor camaleônico, habituado a trocar de pele a cada disco ou espetáculo.


Sem fantasias, os cantores celebram no palco do Teatro dos Quatro a figura expressiva de Ney, refletido na máscara facial com que Sacramento interpreta Sangue latino (João Ricardo e Paulinho Mendonça, 1973), para citar somente um exemplo do roteiro aberto com o dueto dos artistas em Balada do louco (Arnaldo Baptista e Rita Lee, 1972), música do grupo Mutantes que Ney regravou com personalidade em álbum, Bugre (1986), pouco ouvido da discografia (também ela mutante) do cantor mato-grossense.


Espetáculo idealizado por Luis Erlanger com o diretor Luis Filipe de Lima, Puro Ney encadeia, entre solos e duetos, 24 músicas gravadas por Ney Matogrosso entre 1973 e 2013. Cantores já habituados à linguagem musical do teatro, Soraya Ravenle – atriz que já protagonizou musicais e fez novelas de TV – e Sacramento soltam a voz com destreza em repertório multifacetado, com interpretações sempre em sintonia com os movimentos teatralizados. Se evocam figuras das cavernas em Homem de Neanderthal (Luiz Carlos Sá, 1975), os atores adensam o tom em Mal necessário (Mauro Kwitko, 1978), bailam no (com)passo latino do bolero mexicano Vereda tropical (Gonzalo Curiel, 1936) – abordado por Ney em gravação de 1984 que foi tema de abertura da novela Vereda tropical, exibida pela TV Globo na época – e interagem com a plateia no tema forrozeiro Por debaixo dos panos (Cecéu, 1978).


Por debaixo dos panos é hit inicialmente nordestino que Ney projetou em todo o Brasil em 1982 no embalo do retumbante sucesso da regravação de Homem com H (Antônio Barros), forró lançado pelo grupo Os 3 do Nordeste em 1974, propagado por Ney em escala nacional em 1981 e revivido em Puro Ney na voz de Soraya Ravenle, em número solo que dá outro sentido aos versos maliciosos por eles serem cantados por uma mulher. Cantora de grande musicalidade, a artista passeia com desenvoltura por Homem com H, mexendo nos tempos do tema.


Visualmente valorizado pela videografia de Rico Vilarouca e Renato Vilarouca, que projetam imagens abstratas e do próprio Ney no cenário funcional, o espetáculo abre espaços nos números solos para os brilhos individuais de Soraya e Sacramento. Ela transmite a dor da solidão que move a travessia existencial da bela canção Viajante (Thereza Tinoco, 1981) e acelera com beatbox o tempo de O tic-tac do meu coração (Alcyr Pires Vermelho e Valfriso Silva, 1935).

Ele valoriza o erotismo de Amor objeto (Rita Lee e Roberto de Carvalho, 1981) ao dirigir olhares a espectadores da plateia, dá com clareza o recado de Fala (João Ricardo e Luhli, 1973) – com o toque minimalista da guitarra de Gustavo Corsi – e jamais enrola a língua no andamento ágil de Bambo de bambu (Almirante e Valdo de Abreu, 1940), com trejeitos à moda de Carmen Miranda (1909 – 1955), intérprete original deste samba-embolada revivido por Ney em 1983 no álbum ...Pois é.


Em contrapartida, Sacramento ainda pode imprimir mais sensualidade a Bandido corazón (Rita Lee, 1976) e, juntamente com Soraya, pode acentuar a malícia de Folia no matagal (Eduardo Dussek e Luis Carlos Góes, 1979), marchinha lançada por Maria Alcina dois anos antes da gravação de Ney. Sob a direção musical de Luís Filipe de Lima, o repertório de Ney ressurge em cena com outros arranjos, mas sem invencionices. A invenção está na teatralidade.


De todo modo, o fado O vira (João Ricardo e Luhli, 1980) vira rock em Puro Ney no toque do trio que destaca a marcação da bateria de Ronaldo Silva (filho do mestre Robertinho Silva) em músicas como América do Sul (Paulo Machado, 1975). Mas estão lá, em cena, a latinidade cigana de Bandolero (Luhli e Lucina, 1978) e a lembrança doída da Rosa de Hiroshima (Gerson Conrad sobre poema de Vinicius de Moraes, 1973), feita após projeção de depoimento de Ney em que o cantor enfatiza a importância das letras na seleção do repertório. Já Incêndio (Pedro Luís, 1992), punk rock da extinta banda carioca Urge, ainda pode pegar mais fogo no decorrer da temporada. O número é turbinado com as programações e efeitos do tecladista Guilherme Gê.


Enfim, Puro Ney surpreende positivamente, seja pelo caráter visual de números como Flores astrais (João Ricardo e João Apolinário, 1974) – música incrementada com projeções de oníricas imagens abstratas – e pela teatralidade dos movimentos que encoporam o belo espetáculo produzido por Cinthya Graber e encerrado de forma previsível com o rock Pro dia nascer feliz (Roberto Frejat e Cazuza, 1983), fecho redimido pelo surpreendente bis (sim, há um bis, como nos shows). Por conta dessa teatralidade, que dá movimento ao show, Soraya Ravenle e Marcos Sacramento às vezes são puro Ney Matogrosso em cena. (Cotação: * * * *)


Título: Puro Ney – Um tributo a Ney Matogrosso

Concepção: Luis Erlanger e Luis Filipe de Lima

Direção, roteiro, arranjos e direção musical: Luís Filipe de Lima

Elenco: Marcos Sacramento e Soraya Ravenle

Músicos: Guilherme Gê (teclados e programações eletrônicas), Gustavo Corsi (guitarra) e Ronaldo Silva (bateria)

* Musical em cartaz de terça-feira à quinta-feira no Teatro dos Quatro, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), até 30 de novembro.


(Créditos das imagens: Soraya Ravenle e Marcos Sacramento em fotos de Cristina Granato)

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