Miklos se renova – e se agiganta – em álbum solo de clima solar e filtro pop


É redutora a tendência de caracterizar o terceiro álbum solo de Paulo Miklos, A gente mora no agora (Deck / Natura Musical), como disco em que o cantor, compositor e músico paulistano dá “mergulho na música brasileira”, como enfatiza o texto enviado à imprensa musical juntamente com a edição em CD do álbum produzido por Pupillo, com reforço adicional de Apollo Nove, e mixado por Mario Caldato Jr. em Los Angeles (EUA). Afinal, as 15 músicas do revigorante repertório inédito e autoral foram passadas pelo elegante filtro pop contemporâneo da produção de Pupillo. Sem falar que, no último (pesado) álbum que gravou como integrante do grupo Titãs, Nheengatu (2014), Miklos já citava versos de músicas de autoria de Cartola (1908 –1980), João Gilberto e Noel Rosa (1910 – 1937) em rock quase nordestino, Baião de dois, de lavra própria.


Mais do que um disco brasileiro, A gente mora no agora é álbum solo pop que renova e expande a assinatura do cancioneiro autoral de Miklos. “Vou correr na direção daquelas tantas / Coisas lindas que eu anseio / Quero andar ao lado de quem assim / Como eu / Enxerga o copo meio cheio”, sintetiza Miklos em versos de Eu vou, ótima música de Tim Bernardes que arremata esse álbum que vê luzes após atravessar túnel escuro. Criada por Bispo, a capa solar do álbum irradia a força interior que pauta A gente mora no agora.


A capa e os versos de grande parte do inspirado repertório são reflexos do luminoso momento pessoal do artista, que reconstruiu a vida amorosa com Renata Galvão, diretora executiva do disco, após ficar viúvo, em 2013, de Rachel Salém, companheira do artista desde 1982. A abertura de múltiplas parcerias deu upgrade no cancioneiro autoral de Miklos – o que torna este primeiro álbum solo do artista superior aos antecessores Paulo Miklos (1994) e Vou ser feliz e já volto (2001).


Livre para voar musicalmente após a amigável saída (em julho de 2016) do grupo Titãs, Miklos fez conexões com nomes em evidência na cena contemporânea brasileira. Céu confirma a grande fase como compositora, assinando com Miklos Princípio ativo – doce balada de tons líricos, gravada com vocais da parceira cantora – e Risco azul (esta com a adesão autoral do produtor Pupillo), abolerada canção embebida em elegante nostalgia, instante nublado do disco.


Também em momento áureo, Mallu Magalhães forneceu samba-rock, Não posso mais, que compôs sozinha com a assinatura melódica e a linguagem direta típica da autora. Já Samba bomba, parceria de Miklos com Tim Bernardes, vira rock na ligação elétrica da guitarra de Bernardes, sobressalente na faixa. Na mesma alta voltagem, País elétrico é rock que conecta Miklos a um dos pioneiros do gênero no Brasil, Erasmo Carlos, parceiro neste tema que aponta milhões de raios inquisidores para a pesada consciência política nacional. Gente que precisa ouvir o recado mandado por Miklos nos versos do frevo Deixar de ser alguém, parceria com Arnaldo Antunes, colega na primeira década dos Titãs. “Coisa que dá dinheiro / Te realiza em parte / O tempo é um só / Você quer se entregar metade”, pondera Miklos, se fazendo ouvir entre a metaleira arranjada pelo pernambucano Maestro Duda, maestro (atualmente com 81 anos) de orquestras de frevo do Recife (PE).


Aliás, vem de outro ex-Titãs, Nando Reis, a música mais arrebatadora do disco, Vou te encontrar, uma das baladas mais apaixonantes deste compositor paulistano que vem provando, desde o álbum Sim e não (2006), que pode ser, sim, um Roberto (Carlos) dos dias de hoje. Outra balada apaixonada, Estou pronto, reafirma o pulso firme da veia pop(ular) de Guilherme Arantes – parceiro de Miklos no tema – ao mesmo tempo em que reitera o tom solar do álbum. “O meu destino é ser feliz”, aponta Miklos. Outra balada sedutora, Todo grande amor, nasceu de canção feita com o ar leve da Bossa Nova por Silva, parceiro de Miklos na composição, mas ganhou corpo e calor com as cordas orquestradas pelo maestro norte-americano Miguel Atwood-Ferguson. Ponto de excelência no coeso repertório.


Primeiro single do álbum, A lei desse troço (parceria de Miklos com o rapper Emicida) cai em suingue brasileiro bisado em Vigia, música de Miklos letrada por Russo Passapusso, vocalista da banda BaianaSystem. Já a rapper Lourdes da Luz assina a letra de Afeto manifesto, música que tangencia a pisada do baião no arranjo tocado por Dadi Carvalho (baixo), Pupillo (bateria e percussão), o Bixiga 70 Maurício Fleury (piano), Everson Pessoa (violão) e Apollo Nove (Oberheim), músicos recorrentes na formatação das faixas deste álbum já antológico em que Paulo Miklos dá voz rouca a um repertório que dialoga entre si e aponta belo futuro para a carreira musical deste artista multimídia que se reinventou como ator.


Do alto do tempo, Paulo Miklos escolheu morar no agora, cantando o momento presente em disco atual que leva adiante a discografia solo do artista. (Cotação: * * * * *)


(Créditos das imagens: capa do álbum A gente mora no agora. Paulo Miklos em fotos de divulgação de Bruno Trindade)

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