Enquanto o golpe prossegue

Polianamente, até torço para que a jato-lavação realmente seja imparcial e assegure ao Brasil uma política que atenda à democracia. Mas, no país dos conchavos, sem operação similar para o judiciário (onde se encontram figuras lamentáveis como Gilmar Mendes), a suspeita de que é uma ação manipulada, com alvo único e convicções, se impõe. O que não assegura coisa alguma para ninguém, seja do atual desgoverno e na oposição. Como se sabe, e Renato Russo antecipou, a sujeira se espalhou geral. Muito além do maniqueísmo direita e esquerda, que agrupam dezenas de divisões, fraturas, tendências.

O que não significa fazer sentido discutir de que lado fica o nazismo nesse espectro. Por sinal, no pesadelo americano instaurado por Trump, cinco filhos de Johnny Cash divulgaram uma carta na qual protestam contra um branco racista na passeata de Charllotesville vestindo t-shirt com o rosto do cantor. Rosanne Cash, Kathy Cash, Cindy Cash, Tara Cash e John Carter Cash lembram que o pai “…foi um homem cujo coração batia no ritmo do amor e da justiça social. Ele recebeu prêmios humanitários de, entre outras entidades, Fundo Nacional Judeu, B’nai Brith e ONU. Batalhou pelos direitos dos Nativos Americanos, protestou contra a guerra no Vietnã, foi uma voz dos pobres, dos lutadores, dos marginalizados e um defensor dos direitos dos prisioneiros. (…) Os supremacistas brancos e neonazistas que marcharam em Charlottesville são veneno na nossa sociedade (….). Não julgamos raça, cor, orientação sexual ou credo. (…) Pedimos que o nome Cash seja mantido afastado de ideologias destrutivas. e ódio“

Belas palavras em tempos de ódio e dor. Que não param, como assistimos esta quinta em Barcelona.

Musicalmente, nunca me liguei em Johnny Cash – mesmo que, em 1969, tenha adorado seu dueto com Bob Dylan em “Girl from the North Country”, abrindo o álbum que aprofundou o mergulho no gênero que é “Nashville skyline” -, mas o personagem sempre foi interessante. E, no cinema, tão bem vestiu Joaquim Phoenix em “Johnny & June”.

Personagem também mais interessante do que sua vertiginosa música é Thundercat, o baixista e cantor Stephen Bruner de cabelos vermelhos ao lado, que foi uma das atrações na noite desta quinta, abrindo a segunda semana do Jazz na Fábrica na Comedoria do Sesc Pompeia. Entre essa fusão atualizada e o resistente e impressionante free jazz alemão da Globe Unity Orchestra, que também se apresentou quinta, mas no Teatro, prefiro o segundo, ao qual assisti ontem à noite. Mas, não vou me reescrever, mais detalhadas resenhas (incluindo as dos shows da semana passado, estas assinadas por Jotabê Medeiros) poderão ser conferidas no site do evento (aqui).

Prefiro dividir e espalhar através da coluna algumas imagens que fiz dos dois shows, enquanto, hoje, o cardápio inclui o moçambicano Jimmy Dludlu (Comedoria, 21h30m) e o sul-africano Abdullah Ibrahim (Teatro, às 21h, e também amanhã, às 18h) e Emiliano e Soundscape Big Band (amanhã, às 16h, gratuito, no Deck).

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Musicalmente, como sabem, sou escravo da rotina de Sísifo discográfico, conferindo discos físicos e virtuais que me são oferecidos. Nas horas de livre arbítrio, alterno audições no modo aleatório dos tocadores digitais com eventuais surtos. Caso, nos últimos dias, da imersão em nove álbuns da pianista e cantora com voz de criança Blossom Dearie (nada a ver com Thundercat ou Globe Unity…). Lote que recebi por email de Ed Motta, outro aficionado por essa estilista do jazz vocal. É carreira que começa em fins dos anos 1940, inclui uma passagem por Paris entre 1952 e 55, quando participa do grupo Blue Stars (que depois dela viraria The Swingle Singers), e só termina com sua morte, aos 85 anos, em 2009.

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A momentânea troca de Rio por Sampa deixou-me com apenas três títulos físicos para resenhar, sendo que deles só um me interessou. Já os assédios digitais vão ficar para a próxima semana. Então, sem mais narizes de cera…

No PS do sábado anterior, escrevi que “Voz nagô” (Engenho Produções) bateu. Algumas audições depois, a impressão se confirmou. Pedro Amorim está longe de um cantor, mas a formação instrumental usada é perfeita para essa nova leva de “Afro Sambas” que ele divide com Paulo César Pinheiro. Basicamente, o violão de Amorim (no lugar do bandolim que o destacou na cena de choro e samba carioca), um naipe de percussão (Paulino Dias, Thiago da Serrinha, Pedro Miranda e Marcus Thadeu) e clarone (Pedro Paes). Este, instrumento mais próximo à música clássica, mas que já tinha sido bem usado nos clássicos LPs de estreia de Cartola, funciona como contraponto ao canto, que também é, em alguns momentos, reforçado por coro dos percussionistas, a voz de outro mais compositor do que cantor, PC Pinheiro (em “Voz Nagô”) e, em três faixas, Nina Wirtti, Alice Passos e Conceição Campos.

Como título e subtítulo contam, Amorim e Pinheiro seguem a trilha aberta por Moacir Santos, que investiu em matrizes africanas presentes no candomblé e no maracatu para chegar ao seminal álbum “Coisas (afro-brasileiras)”. Antes mesmo desse disco (editado em 1965, e não “no final dos anos 1950”, como informa o texto do encarte assinado por Pinheiro), o instrumentista, compositor, arranjador e maestro pernambucano influenciou o trabalho de muitos de seus alunos. Entre eles Baden Powell, que, ao lado de Vinicius de Moraes sintetizou em 1996 no álbum “Os Afro-sambas” a série de canções que começaram a fazer e lançar três anos antes.

O parceiro de Baden que sucedeu a Vinicius, desde então PC Pinheiro tem bebido da mãe África. Há uma década, em parceria com o mineiro Sérgio Santos, fez outro disco temático, “Áfrico”. Agora, as 14 canções com Amorim (e uma vinheta instrumental, “Três comadres no samba”, criação coletiva dos percussionistas Paulino Dias, Thiago da Serrinha e Marcus Thadeu) provam que essa fonte é inesgotável. Tanto para exaltar a cultura e o continente no outro lado do Atlântico que se desgarrou da América do Sul milênios atrás, quanto para condenar a barbarie cometida contra as nações trazidas como escravas. Entre estas estão a faixa-título, “Sina do negro” e “Quilombo dos Palmares”. Celebração e superação pontuam temas como “Dança dos Orixás”, “Ogum-Megê”, “Linha de caboclo” e “Sestrosa”.

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Sim, dois outros CDs físicos chegaram mas não bateram. No EP homônimo, a brasileira-holandesa Laura Zennet faz “uma mistura do velho rock and roll com outros gêneros musicais, como blues e jazz”. São quatro canções da cantora e compositora em terreno mais que gasto.

Já a banda potiguar que canta em inglês Far From Alaska chega ao que se propõe em “Unlikey” (independente / farfromalaska.com). Gravado num estúdio no Oregon e mixado em Nova York, bem mais próximos do Alaska do que em sua Natal natal, as 11 faixas (contando a bônus “Coruja”) oferecem hard rock e metal. Ecos do Black Sabbath (que parei de ouvir com interesse em “Paranoid”) estão entre as referências. O quinteto contou com a produção da americana Sylvia Massy (Red Hot, Johnny Cash e Prince estariam no seu currículo, diz o texto do release, que não fui checar) para acertar a mão nesse que é o segundo disco do Far From Alaska. Conteúdo sonoro que ganhou embalagem diferenciada, pelo menos no kit para imprensa, com encarte e CD entregues dentro de uma sanduicheira de plástico. Bom apetite para quem é o ramo.

Crédito imagens: fotos de ACM e reprodução capa do CD “Voz Nagô”.

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