Álbum de tom retrô, ‘Flores & cores’ ecoa a luminosidade pop de Arantes

Em 2013, a obra fonográfica de Guilherme Arantes ganhou fôlego com a edição de Condição humana (Sobre o tempo), vigoroso álbum de músicas inéditas que honrou o histórico deste cantor, compositor e músico paulistano, um dos maiores artesãos do pop brasileiro. Álbum que apresenta mais 12 músicas inéditas da lavra solitária do compositor, Flores & cores (Coaxo do Sapo / Canal 3 Distribuidora / ONErpm) chega ao mercado fonográfico após quatros anos, boa parte dedicados pelo artista à abertura de arquivos pessoais que lhe permitiram festejar 40 anos de carreira solo em 2016 com a edição zelosa da caixa Guilherme Arantes 1976 – 2016 (coleção luxuosa que embalou reedições em CD de 21 dos 26 CDs da discografia solo do cantor) e da produção de minucioso vídeo-documentário.


Remexer no baú fez Arantes desencavar três baladas dos primórdios. Meu jardim do éden (composta em 1969, em inglês, com o título Color souls in the yellow battle inside my head e com referências ao universo lisérgico da época), Happy days (música da safra de 1971) e Sodoma e Babel (composição de 1972) foram revistas e atualizadas (em maior ou menor grau) para figurar entre as 12 novidades de Flores & cores.


Produzido pelo próprio Guilherme Arantes, o álbum tem tonalidade retrô, roçando o vigor do antecessor Condição humana e apresentando lampejos da forte luminosidade pop do cancioneiro do compositor em tempos áureos. A tonalidade vintage é resultado das intenções do artista. Arantes quis revisitar a sonoridade do pop que fazia nos anos 1980, década em que reinou nas paradas.


Basta ouvir os primeiros acordes de A árvore da inocência para perceber a conexão com o synth pop brasileiro daquela década. Pilotando synths e um antigo piano CP70 no registro dessa e de outras músicas do disco, Arantes soa nostálgico da modernidade sem, contudo, acentuar ranços saudosistas. Destaque da safra coerente de Flores & cores, A simplicidade é feliz evoca um dos maiores hits do cantor na década de 1980, Cheia de charme (1985), por conta do toque do sax de Leo Gandelman.


As referências são diversas. Se Sodoma e Babel (das três baladas antigas, a que mais teve preservada a arquitetura original, de acordo com texto escrito por Arantes para um dos dois libretos da edição em CD do álbum) reverbera certo misticismo existencial da era progressiva, da qual Arantes fez parte como integrante da banda Moto Perpétuo, Chama de um grande amor ecoa o pop de cepa roqueira, gênero também lapidado no cancioneiro do ourives nativo. Virtuose projetado no grupo Tutti Frutti, Luiz Carlini faz o solo de guitarra deste pop roqueiro e também de Semente da maré, música (subintitulada Canção do refugiado) da safra recente de Arantes, mas ambientada em atmosfera setentista.


Em Flores & cores, o compositor versa basicamente sobre o amor de forma positiva, solar, como evidenciam a música-título – gravada com influência do pop nórdico de grupos como ABBA e com coro feminino (Dani Marluzzo, Luciana Oliveira, Marietta Vidal e Sol Ribeiro) recorrente no disco – e Meu jardim do éden, música iniciada em 1969 e finalizada neste ano de 2017 com adição de refrão.


Por mais que se ressinta da ausência de uma grande melodia com potencial para se tornar hit em escala nacional, como parece ser a (legítima) pretensão do artista, o álbum Flores & cores reitera a habilidade do artesão pop na confecção de músicas de riqueza harmônica como Santiago (tema místico embasado somente por synths e por piano Steinway), Mais raro tesouro (delícia pop de leve toque gitano) e Happy days (a mais inspirada das três baladas encontradas no baú do artista).


Mesmo que soe eventualmente denso, tal densidade nunca deixa o álbum pesado, talvez por ser (bem) contrabalançada pela leveza pop latina de Numa onda (Nada no mar). Nessa mesma onda, Praia linda não chega a emergir com força no repertório. Enfim, aos 64 anos, Guilherme Arantes mostra entusiasmo juvenil com Flores & cores, álbum solar que, com maior ou menor intensidade, ilumina o paraíso pop do artista. (Cotação: * * * 1/2)


(Créditos das imagens: Guilherme Arantes em foto de divulgação de Pedro Matallo. Capa do álbum Flores & cores. Ilustração de Gil Tokio com intervenções gráficas de Anna Turra)

Deixe uma resposta