Trupe Chá de Boldo recusa ‘cover’ ao recriar obras alheias no álbum ‘Verso’


No embalo da celebração dos dez anos de atividade na cena paulistana, festejados em 2016, a Trupe Chá de Boldo lança o primeiro álbum com repertório de lavra alheia. Mas Verso – quarto álbum da banda, gravado em fevereiro desde ano de 2017 e editado de forma independente (com direito à edição em CD de embalagem artesanal) – jamais distancia o coletivo do universo habitual. Até porque a seleção de compositores escalados para formar o repertório de Verso – Alzira E, André Abujamra, arrudA, Gero Camilo, Iara Rennó, Juliano Gauche, Léo Cavalcanti, Marcelo Segreto, Negro Leo, Pélico, Peri Pane, Tatá Aeroplano e Tata Fernandes – joga no mesmo time indie da banda.


Nesse primeiro álbum situado fora do trilho autoral, a Trupe também experimenta pela primeira vez pilotar a produção do próprio disco. O resultado é fiel ao universo de uma banda marcada pela livre criação coletiva. Entre a polifonia roqueira que erige Cabeleira de capim (Gero Camilo e Tata Fernandes, 2008) e a lisérgica viagem a dois que profana Oração de Carnaval (Léo Cavalcanti, 2013), música já cantada pela Trupe em shows há cerca de quatro anos, o álbum Verso reitera o espírito experimental que anima o som de Ciça Góes (voz), Cuca Ferreira (sax barítono), Felipe Botelho (baixo), Filipe Nader (saxes alto e barítono), Gustavo Cabelo (guitarra), Gustavo Galo (voz), Guto Nogueira (percussão), Julia Valiengo (voz), Leila Pereira (voz), Marcos Ferraz (sax tenor), Pedro Gongom (bateria), Rafael Werblowsky (percussão), Remi Chatain (saxes alto e soprano) e Tomás Bastos (guitarras).


Com arranjos fora da curva, a Trupe cai no suingue (das guitarras e saxofones) em We need nothing (André Abujamra, 2000), destina a ironia melancólica de Naquela casa (Pélico, 2008) – música cantada em tons graves pelo baterista Pedro Gongom – e se distancia da virtuosa assepsia vocal impressa por Fabiana Cozza na gravação original de Entre o mangue e o mar (Alzira E e arrudA, 2015), solada por Gustavo Galo na abertura de Verso entre guitarras e saxofones de toques mais sujos (Galo é o melhor vocalista da banda e valoriza os versos da composição).


O álbum resulta sedutor porque a Trupe jamais faz cover em Verso. Basta confrontar o registro original do funk Fiu-fiu (Marcelo Segreto, 2014), lançado há três anos pela Filarmônica de Pasárgada no álbum Rádio lixão (2014) com a gravação da Trupe, pautada por arranjo vocal a capella que afasta o tema do universo do batidão dos bailes da pesada.


Em contrapartida, o coletivo deglute Fera mastigada (Negro Leo, 2016) com levadas funkeadas e joga na pista a lascividade de Meus vãos (Iara Rennó, 2016). Já Decência (Tatá Aeroplano, Gustavo Souza e Fernando Maranhão, 2010) tem arranjo vocal que dialoga com a abordagem do funk Fiu-fiu. Única música inédita do repertório, Distraída (Peri Pane e arrudA) amplia o campo dissonante da Trupe Chá de Boldo nesse álbum Verso.


No arremate de Verso, a resignada Canção do mundo maior (Juliano Gauche, 2016) reitera a liberdade criativa que pauta o quarto álbum do coletivo paulistano. Verso revira 11 músicas com essa tal liberdade, fundamental para manter o espírito de grupo que move a Trupe Chá de Boldo há 11 anos. (Cotação: * * * *)


(Créditos das imagens: capa do álbum Verso. Trupe Chá de Boldo em foto de divulgação)

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