Em ‘A alma do mundo”, Roger Scruton defende o retorno ao sagrado


Em “A alma do mundo” (editora Record), o pensador britânico Roger Scruton defende a tese de que a experiência do sagrado tem um papel fundamental a cumprir, mesmo em uma sociedade secular e materialista como a nossa. Ele reflete, também sobre as graves consequências da perda dessa dimensão na vida cotidiana. Sem defender a doutrina ou a prática de uma fé em particular, Scruton prega a necessidade de uma visão religiosa, apolítica e trans-histórica do mundo, especialmente no contexto de ruptura do consenso social e político que vivemos hoje.

Autor do manual “Como se um conservador”, mas também de ambiciosos ensaios estéticos e filosóficos, Scruton não discute o sagrado em termos estritamente religiosos: para ele, a arte, a arquitetura, a música e a literatura podem ser canais que permitem aos indivíduos a evasão da realidade concreta e o contato com Deus, já que nenhuma expressão artística, afirma, pode ser explicada exclusivamente por seus elementos materiais: há em cada criação um “algo mais” que evoca uma realidade paralela, irredutível à razão e à ciência, mas essencial à sobrevivência dos homens.

“As religiões dão foco e ampliam o senso moral”, escreve o autor. “Elas cercam aqueles aspectos da vida nos quais as responsabilidades pessoais estão enraizadas, notavelmente, o sexo, a família, o território e a lei. Elas alimentam as emoções distintamente humanas, como esperança e caridade, que nos elevam acima dos motivos que regem a vida dos outros animais e nos levam a viver pela cultura, não pelo instinto”.

Por outro lado, o autor percebe uma dimensão antropológica nas religiões constituídas, na medida em que o amor, a solidariedade, a piedade, a lealdade e o sacrifício altruísta pregados pelas Igrejas contribuiu historicamente para a sobrevivência e o fortalecimento da vida em sociedade. Isso porque, ele afirma, os valores e as “metanarrativas transcendentes” das religiões representaram uma espécie de cimento social, ao promover vínculos afetivos e valores compartilhados no interior de cada comunidade. Scruton enxerga, portanto, uma espécie de “vantagem competitiva” da experiência religiosa sobre o ateísmo.

Esses vínculos e valores vão muito além da lógica que reduz todas as relações humanas a contratos – e o comportamento e as emoções a um processo biológico darwinista de seleção e adaptação. Para Scruton, todos os nossos relacionamentos pessoais, julgamentos estéticos e intuições morais implicam a existência de uma dimensão transcendente que não pode ser completamente compreendida pelo olhar da ciência.

Mas não se trata de uma argumentação em defesa da existência de Deus, muito menos de um ataque à ciência, e sim de uma reflexão sobre os benefícios do transcendental para a vida cotidiana. Scruton defende o sagrado como o único espaço onde o homem pode escapar de seu egoísmo materialista e viver a experiência de uma verdadeira comunhão com a “alma do mundo”.

Trata-se, em suma, de uma bem fundamentada defesa do pensamento humanista vinculado à fé, que Scruton conclui com a convicção de que, mesmo com o papel cada vez menor do sagrado no mundo contemporâneo, os caminhos para a transcendência continuam abertos.

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