Ao admitir Cicero, ABL reconhece que há escrita inteligente na música pop

Guardadas as devidas proporções, a eleição do poeta e compositor carioca Antonio Cicero para a cadeira 27 da Academia Brasileira de Letras (ABL) significa para o universo pop brasileiro o que representou para a canção norte-americana o anúncio em 2016 de que o Prêmio Nobel de Literatura seria concedido ao compositor norte-americano Bob Dylan. Tanto a eleição de Cicero como a premiação de Dylan simbolizam reconhecimentos do meio acadêmico literário de que há escrita inteligente no mundo da música pop.


É fato que Cicero (formado em filosofia em 1972) é poeta e ensaísta, tendo vários livros publicados em ambos os gêneros literários. Contudo, é como compositor de escrita moderna – parceiro da irmã Marina Lima em série de músicas conhecidas e cantadas em todo o Brasil desde a década de 1980 – que Cicero ganhou projeção nacional. Cicero é um poeta pop, como bem caracterizou a edição de ontem do Jornal Nacional, da TV Globo, ao noticiar que o compositor era o novo imortal da ABL.


Por mais que a obra do escritor compositor tenha títulos cultuados no meio literário, como o livro de poemas Guardar (Editora Record, 1996), é por letras de músicas como À francesa (Cláudio Zoli e Antonio Cicero, 1989), Acontecimentos (Marina Lima e Antonio Cicero, 1991), Charme do mundo (Marina Lima e Antonio Cicero, 1991), Fullgás (Marina Lima e Antonio Cicero, 1984), Maresia (Paulo Machado e Antonio Cicero, 1981), O lado quente do ser (Marina Lima e Antonio Cicero, 1980), O último romântico (Lulu Santos, Antonio Cicero e Sergio Souza, 1984) e Virgem (Marina Lima e Antonio Cicero, 1987) – para citar somente os títulos de maior aceitação popular – que o poeta compositor será sempre mais lembrado.


Cabe lembrar, aliás, que a parceria com Marina começou quando a artista decidiu musicar poemas de Cicero à revelia do irmão. Cicero gostou do que ouviu. E as palavras do poeta começaram a ser cada vez mais cantadas pelo Brasil, já que, a partir de então, o poeta virou compositor, letrista de música pop, fazendo versos já com o intuito de aliá-los a uma melodia de um parceiro como Adriana Calcanhotto, João Bosco – em produção feita em 1991 com a adesão de outro poeta compositor, Waly Salomão (1943 – 2003) – e, claro, Marina Lima, para quem Cicero abriu os braços musicais e fez um país pop. As músicas do poeta são imortais.


(Crédito da imagem: Antonio Cicero em foto de Daryan Dornelles)

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