Projota vence batalha entre as regras do jogo e o compromisso com o rap


Certamente não é por acaso que Mano Brown figura em Prefácio (Pedro Dash, Dan Valbusa e Mano Brown), primeira das 12 músicas do segundo álbum de estúdio de Projota, o rapper paulistano nascido há 31 anos com o nome de José Tiago Sabino Pereira. Sobre batida sombria, arranjada por Pedro Dash com efeitos eletrônicos do produtor Marcelo Ferraz, o referencial Brown rebobina a fita da vida dos rappers nos primórdios da cena nacional de hip hop criada nos guetos.


Na quarta música do disco, Muleque de vila (Projota, Pedro Dash e Dan Valbusa), Projota faz com orgulho o próprio inventário da vida pós-fama, realçando o tom autorreferente do álbum A milenar arte de meter o louco, recém-lançado pela gravadora Universal Music com a missão de manter Projota em foco no universo mais pop do rap.


Com batida inebriante, a música-título A milenar arte de meter o louco (Projota, Pedro Dash, Dan Valbusa e Skeeter) também brada as conquistas de Projota na travessia que o levou do gueto ao mainstream, tornando o rapper um dos poucos artistas que desafiam o domínio sertanejo nas paradas.


Em geral autorreferente, o repertório autoral do disco também gira fora do umbigo do artista. Rap aditivado com a voz de Karol Conka, Mais like (Projota e Pedro Dash) perfila, em tom crítico, a juventude que mede forças pelo número de curtidas e visualizações em redes sociais.


Só que Projota também encarna uma espécie de Don Juan do hip hop brasileiro. Oh meu Deus (Projota e Renan Saman) e Mulher feita (Projota) são faixas que mantêm o foco nesta faceta que abriu portas da indústria da música e dos programas de TV para o rapper.


O álbum A milenar arte de meter o louco expõe Projota entre as questões do gueto e as exigências do mercado. Nesse sentido, a foto da capa – clicada e trabalhada por Rui Mendes – retrata bem a divisão do artista nessa batalha entre as regras da sobrevivência artística e o compromisso com os valores do gueto.


E, justiça seja feita, raps como Pique Pablo (Projota, Nave, Pedro Qualy, Spinardi e SPVic) – gravado com o toque do quarteto Haikaiss – e Canção pro tempo (Projota e Vinicius Nallon) mostram que Projeto não vai entregar o jogo fácil. “A gente é o hip hop! É o compromisso!”, brada nessa Canção pro tempo, entre scratches do DJ Zala e os efeitos eletrônicos de Marcelo Ferraz, hábil produtor do álbum.


É claro que Projota não se volta contra as conquistas do mercadão dominado pelo pop sertanejo. Não é à toa que gravadora e artista promovem Linda (Projota, Dan Valbusa, Pedro Dash e Vinicius Nallon), canção melodiosa gravada com o duo de pop folk AnaVitória, uma das atuais sensações desse mercadão.


Só que a vitória de Projota nesse jogo de equilíbrio delicado é nítida. Há excesso de autorreferência em músicas como Segura seu BO (Projota, Skeeter e Rashid) – rap composto e gravado com Rashid, velho companheiro no grupo Dom na Rima – e Rebeldia (Projota e Vinicius Nallon).


Contudo, é nesses mergulhos existenciais, em que Projota procura se entender com as próprias crenças e fé, que o álbum A milenar arte de meter o louco ganha pulso e o jogo. (Cotação: * * * *)


(Crédito da imagem: A milenar arte de meter o louco)

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