Sobre a visão da mulher em “Tua cantiga”, de Chico Buarque

O cantor Chico Buarque será um dos homenageados no espetáculoQuem tem mais de 40 anos seguramente associa Chico Buarque a uma incomum sensibilidade para a “alma feminina”. Algumas de suas letras em primeira pessoa pareciam escritas por mulheres. Mais que isso: o senso comum dizia que nenhuma mulher seria capaz de captar tão bem o que se passava dentro dela própria quanto Chico.

(Clique aqui para ver o clipe oficial de “Tua Cantiga”)


Eram mulheres que, assustadas, diziam não, ou que quase enlouqueciam quando eram deixadas (mas, como de costume, obedeciam). Ou que gostavam de ser machucadas pela barba malfeita de homens que desfrutavam do seu corpo como se fosse a casa deles. Ou que se miravam no exemplo daquelas colegas de Atenas, que viviam para os maridos e, quando fustigadas, não choravam, e sim pediam mais duras penas. Ou que queriam se perpetuar na pele do homem como tatuagem, como “escrava” que ele “pega, esfrega, nega, mas não lava”. Ou, ainda, mulheres que proclamavam com orgulho um amor assim: “Dia útil ele me bate, dia santo ele me alisa / Longe dele eu tremo de amor, na presença dele me calo / Eu de dia sou sua flor, eu de noite sou seu cavalo”.


O tempo passou, o Brasil mudou, as mulheres também. Graças a Deus. Mas, depois de seis anos de pausa em sua carreira musical, eis que Chico Buarque divulga a faixa que dá título ao seu novo álbum de inéditas, “Tua cantiga”. Outro sinal dos tempos: fiquei sabendo da música pela leitura de posts de mulheres no Facebook – posts, vejam vocês, de mulheres reclamando da letra da canção. Acho que foi a primeira vez na vida que vi mulheres fazendo restrições a Chico Buarque.


Uma estrofe em particular foi a causadora da treta:

Quando teu coração suplicar

Ou quando teu capricho exigir

Largo mulher e filhos

E de joelhos

Vou te seguir

“Eu não sou essa mulher que ele evoca. Essa que precisa ser salva, que sonha com o reino do lar, essa que goza ao ouvir “largo mulher e filhos”, dizia um dos posts que me chamaram a atenção na rede social.


(Parêntesis: confesso que, apesar de fã quase incondicional da maioria das composições de Chico Buarque, achei a música meio chatinha, lacrimosa demais, anêmica ao tentar soar delicada. Mas isso não tem a menor importância.)


Os pontos que interessam aqui são:

1) Chico parece preso a uma visão da mulher – e da relação homem-mulher – dos anos 70 do século passado. Para as mulheres lacradoras com menos de 30 anos, essa ladainha de promessas e súplicas não diz mais nada: elas não querem um homem que largue mulher e filhos; aliás elas não querem homem casado, pra princípio de conversa. Largar mulher e filhos? Que cafajestada é essa? Muito menos um homem capaz de uma cantada como “Na nossa casa serás rainha”;

2) Essa nostalgia de um passado que já se foi, e cujo romantismo de baseava na desigualdade e na assimetria de papéis entre homens e mulheres, reflete outra nostalgia do compositor: a de um tempo em que a política no Brasil era uma disputa entre o bem e o mal, disputa na qual os papéis também eram claros e assimétricos, e escolher um dos lados era um imperativo moral. Em mais de uma ocasião, em anos recentes, Chico deu sinais de que ainda vive em um Brasil dividido entre bandidos e mocinhos, sem se dar conta de que hoje o discurso dos “mocinhos” é frequentemente usado para camuflar ou justificar a roubalheira e a corrupção. Em outras palavras, a visão datada do amor de Chico espelha a sua visão datada da política;

Como falar mal de Chico é tabu, muitas mulheres empoderadas estão vivendo um dilema difícil de resolver, porque engolir a letra de “Tua cantiga” é de lascar. E haja malabarismo retórico para continuar idolatrando Chico, apesar dele mesmo: “Eu queria gostar. Eu tentei. Não deu”, escreveu uma mulher no Facebook. Que bom que já é possível dizer isso da música de Chico Buarque sem medo de patrulha. Que bom será o dia em que se poderá dizer o mesmo da visão política do compositor.

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