Álbum ‘Ay amor!’ mostra que Fabiana Cozza é bamba até no canto teatral


Mais do que o samba, o canto é o dom de Fabiana Cozza. Mas o fato é que essa grande cantora paulistana sempre pisou com firmeza no terreirão do samba de Sampa, com trânsito eventual pelo quintal carioca, a ponto de ter o nome sempre associado ao gênero. Nesse sentido, o álbum Ay amor! representa belo ponto fora da curva na discografia de Cozza, e não somente por ser o primeiro disco da artista em espanhol.


Lançado pela gravadora Biscoito Fino neste mês de agosto de 2017, Ay amor! é o límpido registro de estúdio do show Canto teatral para Bola de Nieve, apresentado em 2016 pela cantora em cena dividida somente com o exímio pianista Pepe Cisneros, músico cubano radicado no Brasil desde 1994.


A nacionalidade de Cisneros contribui para a fina sintonia entre cantora, músico e repertório, pois Bola de Nieve foi ninguém menos do que o cantor e compositor cubano Ignacio Jacinto Villa Fernández (11 de setembro de 1911 – 2 de outubro de 1971), artista que saiu de cena há 46 anos no México, país onde se exilou e onde brilhou após se ver sem espaço na Cuba que perseguia homossexuais.


A latinidade do repertório de Ay amor! não chega a ser atípica na obra fonográfica de Cozza. No ótimo álbum anterior da cantora, Partir (2015), já havia evocação do universo musical cubano em Borzeguita (Leandro Medina). Tanto que, no show inspirado nesse álbum Partir, a cantora já interpretava Vete de mí (Virgilio Exposito e Homero Exposito, 1946), bolero argentino rebobinado por Cozza em Ay amor! com interpretação virtuosa, feita com a dose exata de dramaticidade que também pauta o registro de Alma mía, bolero da lavra refinada da compositora mexicana María Grever (1884 – 1951).


Grever é também autora de Devuelveme mis besos, bolero interpretado em tempo de delicadeza neste disco aberto e fechado com textos do poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca (1898 – 1936).


Sexto álbum de Cozza, Ay amor! aprofunda esse mergulho no universo passional da música latina, mostrando que a cantora é bamba fora do samba. Basta ouvir os agudos galgados por Cozza na escala musical quando dá voz a música-título Ay, amor (Ignácio Jacinto Villa Fernández), uma das composições de autoria do próprio Bola de Nieve.


Por mais que o disco não consiga reproduzir toda a teatralidade do show dirigido e roteirizado por Elias Andreato, há em Ay amor! uma atmosfera dramática que permite a elevação de tons, como em Es tan dificil, tradução praticamente literal de It’s so hard (1971), música da obra solo do beatle de John Lennon (1940 – 1980).


Contudo, nesse teatro da canção, há também espaço para os sussurros que tornam mais íntimo o registro do acalanto Drume negrita, do compositor e baterista cubano Ernesto Grenet (1908 – 1981), erroneamente grafado com Ernesto Negret no encarte de difícil leitura da edição em CD de Ay amor!.


Com o toque sempre preciso do piano de Pepe Cisneros, Cozza se permite encarnar até cantora de cabaré em Mesié Julián (Armando Oréfiche) e Tata cuñengue (Eliseo Grenet) entre interpretação primorosa de standard da canção norte-americana, Be careful, It’s my heart (Irving Berlin, 1942), única música em inglês de repertório que culmina com o hit francês La vie en rose (Edith Piaf, Louiguy e Marguerite Monnot, 1945).


Já o mambo Babalu (Margarita Lecuona, 1939) cai em suingue distante do registro emblemático da cantora Angela Maria, reiterando a elasticidade vocal e estilística de Fabiana Cozza em Ay amor!, grande álbum que vai surpreender quem não assistiu ao (igualmente grande) show Canto teatral para Bola de Nieve. Ela é bamba! (Cotação: * * * * 1/2)


* Programado para a próxima terça-feira, 15 de agosto, no Theatro Net Rio, o show de lançamento do álbum Ay amor! vai ser transmitido ao vivo pelo canal da gravadora Biscoito Fino no YouTube.


(Crédito da imagem: capa do álbum Ay amor! Fabiana Cozza em foto de Leo Aversa)

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