Leão vaidoso da obra-juba, Caetano chega aos 75 anos sem envelhecer


Caetano Veloso tinha 25 anos quando se iniciou a manhã tropical da música brasileira. Na época, foi jovem o suficiente para desfolhar bandeiras e organizar com o irmão musical Gilberto Gil o movimento que avalizou a mistura da geleia geral nacional. Decorridas cinco décadas, Caetano Emanuel Vianna Telles Veloso completa hoje 75 anos de vida com o espírito musical ainda jovem.


Leonino nascido em 7 de agosto de 1942, na cidade interiorana de Santo Amaro da Purificação (BA), o cantor, compositor e músico é um baiano cosmopolita que vislumbrou o mundo da aldeia de onde veio. É um leão vaidoso da obra-juba que acendeu faróis, clareou visões, deu voz aos mortos e, no trem de cores vivas, sempre se renovou, seguindo nos trilhos urbanos por caminhos sempre inesperados.


Camaleônico, Caetano pode vestir a pele de roqueiro indie – como faz desde 2006, ano em que lançou o primeiro disco de uma trilogia de álbuns gravados com a BandaCê – porque já era roqueiro em 1967, no início da manhã tropical. Mas Caetano pode também ser o discípulo sempre fervoroso de João Gilberto, o intérprete orgulhoso de canções populares de compositores minimizados pela elite cultural (como Peninha, de quem gravou Sonhos em 1982 e Sozinho em 1998), o cantor que vê nobreza nas velhas guardas desde que o samba é samba e o admirador dos hits e ídolos da axé music.


A obra de Caetano não ostenta a musicalidade latente de Gil, a precisão cirúrgica das rimas das letras de Chico Buarque e tampouco a originalidade sem precedentes de Milton Nascimento. Mas o eixo estético do cancioneiro do artista é firme o suficiente para deixá-lo irmanado com esses colegas-gênios projetados na era dos festivais da canção da década de 1960. Caetano é muito. Mas também sabe que menos é mais.


Contudo, os pensamentos e reflexões do artista sobre o Brasil e o mundo jorram nos versos das canções e nos raciocínios expostos em entrevistas. Quase todo mundo quer saber o que Caetano pensa sobre qualquer assunto. E Caetano gosta de saber que quase todo mundo quer saber o que ele pensa sobre qualquer assunto.


Acima do homem, no entanto, paira a obra que fala por si só com algumas canções lindas, outras nem tanto, mas todas produzidas dentro do espírito dialético de um artista que permanece livre de amarras, pronto para cantar um funk ou um standard da canção norte-americana com o mesmo zelo. Porque, ao cantar tanto um como outro, há embutida a visão tropicalista de um cantor e compositor que preza pela liberdade estética.


Tudo pode passar pelo filtro tropical de Caetano. E, quando não passa, ele se aproxima, faz a conexão e se integra ao ritmo do momento, nostálgico da própria modernidade. Talvez por isso o Brasil tenha a impressão de que o tempo não para e, no entanto, Caetano Veloso nunca envelhece.


(Crédito da imagem: Caetano Veloso em foto de divulgação de Fernando Young)

Deixe uma resposta