Show mostra que, para o bem e para o mal, está tudo aceso em Bethânia


“Alguém cometeu uma indelicadeza comigo?”, perguntou Maria Bethânia ao ouvir grito dissonante na plateia da casa carioca KM de Vantagens Hall, momentos após cantar a capella trecho do samba Estácio, Holy, Estácio (1972) em homenagem Luiz Melodia (1951 – 2017) – “A estrela africana está brilhando no céu”, poetizou, em sucinta alusão ao artista carioca que saíra de cena na madrugada daquela sexta-feira, 4 de agosto – e de emendar o samba do Negro Gato com o Frevo nº 2 do Recife (Antônio Maria, 1954).


O comentário de Bethânia esfriou por alguns momentos a reação da plateia que assistiu à estreia no Rio de Janeiro (RJ) do show de sucessos que a cantora baiana vem apresentando em turnê pelo Brasil desde fevereiro deste ano de 2017. Contudo, alguns números depois, tudo voltou a ser como antes. Porque, como ressaltou ao cantar Âmbar (1996), música que ganhou de Adriana Calcanhotto há 21 anos para álbum renovador, está tudo aceso em Bethânia: o magnetismo, a força cênica, os rompantes, a voz grave de grande dramaticidade (e de paradoxal e pungente suavidade em alguns momentos), os brilhos dos figurinos e as impaciências com os imprevistos que acontecem no palco e na plateia.


Esse show de sucessos – um “show de rua”, como caracteriza a própria Bethânia – não tem um conceito e tampouco um cuidado maior na criação dos arranjos tocados pela banda que inclui o tecladista Túlio Mourão, o percussionista Marcelo Costa, o baixista Jorge Helder e o violonista violeiro Paulo Daflin, entre outros músicos virtuosos. Mas tem Bethânia – e a presença da intérprete é o bastante para o público que, em grande parte, nada liga para conceitos e quer ouvir somente sucessos.


Pois Bethânia cantou, de forma ágil, nada menos do que 40 músicas no roteiro dividido em dois atos por pura tradição, já que nada distingue um ato do outro neste show sem costura dramatúrgica. Só que, no dicionário particular da artista, o significado de sucesso se distancia do conceito de hit. Tanto que a cantora abriu espaço no roteiro para a autoafirmativa Dona do raio e do vento (Paulo César Pinheiro, 2006), para Lágrima (Roque Ferreira, 2006) – valsa-canção em que saboreou os versos vingativos da letra – e para Balada de Gisberta (Pedro Abrunhosa, 2007), tema que Bethânia apresentou ao Brasil em 2009 no show Amor festa devoção e que voltou à cena brasileira neste ano de 2017 em monólogo (feito pelo ator Luis Lobianco) sobre o assassinato em Portugal da transexual brasileira Gilberta Salce Junior.


Mas, sim, houve também os sucessos que o público quer ouvir – casos do samba-canção Negue(Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos, 1960), do samba-choro Diamante verdadeiro (Caetano Veloso, 1978), do hit sertanejo É o amor (Zezé Di Camargo, 1991) e de Fera ferida (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1982), canção interpretada em tons mais serenos pela artista – neste show em que Bethânia rebobina músicas, inflexões, trejeitos, olhares e orgulhos.


Nesse compêndio de músicas e textos geralmente herdados de shows anteriores, há links sagazes como a junção, lado a lado no roteiro, de Onde estará o meu amor? (Chico César, 1996) com Gostoso demais (Dominguinhos e Nando Cordel, 1986), duas canções saudosas do amor distante, ambas com toque de toada sertaneja. A voz da intérprete ainda está tinindo e alcança os tons de outrora. Mas o ritmo meio apressado do show impediu que canções emblemáticas como Olhos nos olhos (Chico Buarque, 1976) fossem revividas com a força de gravações de tempos idos.


Mesmo assim, quando a flor eventualmente brota do inacessível chão, Bethânia ainda roça o sublime. A junção de indignado texto lançado há 100 anos pelo poeta português Álvaro de Campos (1890 – 1935), Ultimatum (1917), com lembrança vivaz de Sonho impossível (The impossible dream) (Mitch Leigh e Joe Darion, 1965, em versão em português de Chico Buarque e Ruy Guerra, 1975) simbolizou um “Fora, Temer” que parte mais afoita da plateia sentiu necessidade de explicitar aos gritos, fazendo com que Bethânia interrompesse a récita do texto e o fluxo do número.


Outro toque político foi a inclusão no bis da marcha Cidade maravilhosa (André Filho, 1934). “Vamos cantar para a cidade. Tem que melhorar!”, disse Bethânia no meio do número, diluindo a sutiliza desse toque político aos governantes do Rio de Janeiro (RJ), cidade já nada maravilhosa que abriga a baiana desde a década de 1960. Na sequência, a cantora saiu de cena ao som previsível de O que é o que é (Gonzaguinha, 1982), samba do qual cantou somente um trecho, em outro indício do ritmo apressado de show que, embora corriqueiro, mostra que, sim, para o bem e para o mal, continua tudo aceso e plugado em Maria Bethânia.


Eis o roteiro seguido em 4 de agosto de 2017 por Maria Bethânia na estreia carioca de show de sucessos na casa KM de Vantagens Hall, na cidade do Rio de Janeiro (RJ):


Ato 1

1. Gema (Caetano Veloso, 1980)

2. O quereres (Caetano Veloso, 1984)

3. Dona do raio e do vento (Paulo César Pinheiro, 2006)

4. Diamante verdadeiro (Caetano Veloso, 1978)

5. Onde estará o meu amor? (Chico César, 1996) /

6. Gostoso demais (Dominguinhos e Nando Cordel, 1986)

7. Estado de poesia (Chico César, 2012)

8. Preconceito (Antônio Maria e Fernando Lobo, 1953)

9. Lama (Aylce Chaves e Paulo Marques, 1952)

10. Fera ferida (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1982)

11. Negue (Adelino Moreira e Enzo Almeida Passos, 1960)

12. O ciúme (Caetano Veloso, 1987)

13. Lágrima (Roque Ferreira, 2006)

14. Balada de Gisberta (Pedro Abrunhosa, 2007)

Ato 2

15. Cálice (Gilberto Gil e Chico Buarque, 1973)

Ultimatum (Álvaro de Campos, 1917) – Texto

16. Sonho impossível (The impossible dream) (Mitch Leigh e Joe Darion, 1965, em versão em português de Chico Buarque e Ruy Guerra, 1975)

17. Rio de Janeiro (Ary Barroso, 1950)

18. Doce (Roque Ferreira, 2008)

19. Eu e água (Caetano Veloso, 1988)

20. Vento de lá (Roque Ferreira, 2007) /

21. Imbelezô (Roque Ferreira, 2014)

22. Estácio, holy, Estácio (Luiz Melodia, 1972)

23. Frevo nº 2 do Recife (Antônio Maria, 1954)

24. Samba da benção (Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1966)

25. Âmbar (Adriana Calcanhoto, 1996)

Soneto da infidelidade (Vinicius de Moraes) – Texto

26. Esotérico (Gilberto Gil, 1976)

27. É o amor (Zezé Di Camargo, 1991) /

28. Vai dar namoro (Chico Amado e Dedé Badaró, 2003)

29. Olhos nos olhos (Chico Buarque, 1976)

30. Volta por cima (Paulo Vanzolini, 1962)

31. Meu amor é marinheiro (Alan Oulman sobre versos de Manuel Alegre, 1974)

32. Maria Bethânia, a menina dos olhos de Oyá (Alemão do Cavaco, Almyr, Cadu, Lacyr D Mangueira, Paulinho Bandolim e Renan Brandão, 2016)

33. Santo Amaro Ê Ê (tema tradicional) /

34. Quixabeira (tema tradicional) /

35. Reconvexo (Caetano Veloso, 1989) /

36. Minha Senhora (tema tradicional) /

37. Viola meu bem (Tema tradicional) /

Sou eu mesmo o trocado (Fernando Pessoa) – Texto

38. Non, je ne regrette rien (Charles Dumont e Michel Vaucaire, 1956)

Bis:

39. Cidade maravilhosa (André Filho, 1934)

40. O que é, o que é (Gonzaguinha, 1982)

(Créditos das imagens: Maria Bethânia em fotos de Mauro Ferreira no palco da casa KM de Vantagens Hall, na cidade do Rio de Janeiro, em 4 de agosto de 2017)

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