Perdas e achados musicais

No momento em que o Brasil segue ladeira abaixo, a perda de Luiz Melodia é mais um baque, dolorosa. Não há dúvida que sua obra continuará, mas é lamentável que, em vida, não tenha recebido as homenagens que merecia. Tributos, songbooks, musicais, prêmios, depoimentos para a posteridade e demais flores em vida, provas de reconhecimento para um criador que foi original e sem paralelos.

Enquanto isso, no meu mundinho discográfico, poucos títulos físicos chegaram, apenas corretos, o que me deu algum tempo para navegar sem rota definida e esbarrar em algumas surpresas. Mas, antes do material por streaming, vamos às resenhas dos dois CDs e de um DVD que me procuraram.

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Bom intérprete de samba, “Rodrigo Carvalho” (independente) chega em seu disco homônimo cercado de especialistas. Gravado em 2013, produção do próprio cantor, a direção musical é do violonista João de Aquino (também o arranjador de nove das dez faixas) e a artística, de Tulio Feliciano. Cantor que participou do grupo de Beth Carvalho e foi um dos fundadores do Galocantô, ele acerta no repertório, entre inédito e pouco conhecido, bem acompanhado por, entre outros, Carlinhos 7 Cordas (violão), Gabriel de Aquino (violão), Marcos Esguleba (percussão), Dirceu Leite (sopros) e Daniel Aranha (cavaquino). Co-autor de duas canções, “Pra casa não cair” (com João Martins) e “Menina-luz” (com Fred Camacho), Rodrigo passeia com intimidade pelos fundos de quintal, incluindo ainda “Papo de amador” (Zé Luiz do Império, W. Monteiro e Luiz Carlos Máximo), “Jandirá” (Nelson Rufino) e “Aquarela carioca” (Toninho Geraes e Toninho Nascimento).

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Outra vertente da música carioca atual está presente em “Certezas inacreditáveis” (Embolacha / www.luizaborges.com.br), da cantora Luiza Borges. Também autora de uma canção, “Se, será, seria”, ela dá voz a compositores na sua maioria novos, alguns deles, no ano passado, estiveram reunidos no CD “Coletivo Chama”. Destes estão Thiago Amud (autor de um dos destaques do disco, “Cinema russo”, e “Fardo”), Thiago Thiago de Mello (co-autor da faixa-título e de “Que nem Japiim”, ambas com Edu Kneip), Renato Frazão (“Um dia só”, em parceria com Marcelo Fedrá) e Pedro Sá Moraes (“A hora da estrela”, com João Cavalcanti). Da mesma geração, Mauro Aguiar assina duas, “Irada” (com João Nabuco) e “A fama e a fome” (esta, com Pedro Ivo, usa na letra trecho de “Tabacaria”, de Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa). Duas canções completam o repertório: em “Última chamada do chão”, Luiza volta ao pouco lembrado Manduka (morto em 2004, aos 52 anos) e, fechando o CD, “Tempo rei”, de Gilberto Gil, ganhou leitura despojada, acentuando seu apelo rítmico, nas mãos de André Siqueira (violão, que também assina a direção musical do disco), Tássio Ramos (baixo) e Rodolfo Cardoso (bateria).

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Já o DVD “Viola & Violão em terras de São Sebastião” (independente / apoio Faperj) é produção simples e precisa. A violonista Marcia Taborda é a narradora e a intérprete dessa “aula-espetáculo”, que conta a história da chegada ao Brasil do violão e sua evolução até os anos 1950, quando a bossa nova abre outra vertente. Ela comenta sobre os primeiros registros dos “antepassados” do violão, que aparecem na Idade Média, como as “violas de mão” que, no século XIII, são citadas no “Cancioneiro da ajuda”, uma coleção de cantigas de amor, na qual o instrumento também aparece em oito das 16 ilustrações . No século seguinte, o “Livro de bueno amor” registra mais instrumentos de cordas, como alaúdes, guitarra mourisca e guitarra latina, que eram usados pelos portugueses quando chegaram ao Brasil. No século XVII, por exemplo, o poeta barroco baiano Gregório de Mattos tinha a viola como seu instrumento.

O violão como ficou conhecido, surgiu na Europa em fins do século XVIII, mas, segundo a aula de Marcia, só em 1808, com a transferência da corte portuguesa para o Rio chegou ao Brasil. Portanto, aquele que iria virar o instrumento mais popular do Brasil, começou como de elite, nos salões da corte. Nos números solos, Marcia passa por alguns dos pioneiros da linguagem brasileira do violão, incluindo Américo Jacomino (Canhoto), autor de “Abismo de rosas”; João Pernambuco (“Graúna”); Garoto (“Vivo sonhando”, mas em interpretação inspirada em Raphael Rabello); e Heitor Villa-Lobos (“Estudo N. 8”). Didático e delicioso passeio.

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Antes de flanar pelo mundo digital, também conferi boa parte das sugestões enviadas para o email da coluna. Mas quase nada bateu, daí não dar nome a boys & girls. Mas, teve cantor/compositor carioca fazendo folk indie(gente); cantor goiano investindo em cover de Demi Lovato e Silva; cantor e compositor que diz ter recebido elogios meus há dez anos, agora com novo nome e canção indie(gente) em inglês; grupo de metal em português; pop “inspirado em new wave e indie experimental”; cantor e compositor de “eletro-rock”; cantor e compositor de MPoB; cantor pop pintando o Posto 9 como um paraíso; rock de garagem em inglês e por aí vai.

Melhor, fechar com as tais surpresas, que ouvi brigando com a caixa bluetooth da JBL, modelo Xtreme. Há algumas semanas, após comentário de Gregório Duvivier em seu fundamental “Greg News”, percebi que não se trata de um problema exclusivo de meu laptop – às vezes, a conexão funciona, muitas vezes, não. Felizmente, o investimento não foi bola fora completa já que em celulares, de diferentes marcas, o aparelho bate um bolão. Então, propaganda-denúncia à parte, vamos ao que interessa.

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Aos 36 anos, cantora, compositora e pianista lisboeta mas de família cabo-verdiana, em seu novo disco, “Creology”, Carmen Souza retorna a Horace Silver, recriando “Pretty eyes”, tema do pianista e compositor dos EUA também filho de um imigrante de Cabo Verde. Em álbum anterior, “Epistola” (de 2015 e com crédito dividido com o baixista e parceiro Theo Pascal), ela já tinha homenageado Silver (e a terra de seus ancestrais) na faixa de abertura, “Cape Verdean Blues”.

Agora, outra exceção no repertório, todo de Carmen (letras) e Pascal (músicas) de “Creology”, é “Upa neguinho”. A canção de Edu Lobo (com letra de Gianfrancesco Guarnieri) é tratada com reverência, em versão que pouco difere de consagradas gravações de Edu, Elis, Sérgio Mendes e tantos outros, mas se encaixa bem aos originais de dupla. Temas que, por falta de definição, podem ser enfiados no saco de gatos da world music, mas, segundo resenha num jornal português, passam por ritmos como funaná, batuco, marrabenta, reggae, rumba, semba, samba, son e jazz.

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Surpresa maior foi “The inner spectrum of variable”, disco do baterista e compositor Tyshawn Sorey lançado em julho. Artigo em “The New Yorker” enaltece sua música, que estaria na fronteira entre o jazz e o clássico contemporâneo. O álbum duplo traz seis faixas longas (“Movement I, II e III” no CD 1; e “Reverie”, “Movement IV e V & VI + Reprise”, no CD 2), interpretadas por dois trios: um com a formação básica jazzística de Sorey (bateria e percussão), Corey Smythe (piano) e Christopher Tordini (contrabaixo); o outro com as dos habituais trios de cordas no clássico, violino (Chern Hwei Fung), viola (Kyle Armbrust) e violoncelo (Rubin Kodheli). É música intimista, impressionista, com pausas e silêncios e ruídos.

Aos 37 anos, Sorey está com novo disco pronto, “Verisimilitude” (Pi), com trechos já disponíveis (aqui), este gravado com o mesmo trio jazzístico, mas igualmente viajante e fora de categorias estanques.

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Boa trilha, mais plácida e previsível, também foi a de “A lida dos anos” (Joia Moderna), de Antonio Carlos Tatau, baiano que estreia aos 61 nas águas de seu conterrâneo em Juazeiro João Gilberto. Produzido pelo irmão, Luisão Pereira (guitarrista que esteve na banda pop baiana Penélope e depois na dupla Dois Em Um), o disco apresenta sambas e bossas com leve roupagem pop nos arranjos. Voz e violão de Tatau conduzem as dez canções, dele e diferentes parceiros, comentadas pelas intervenções de novos músicos como Zé Manoel (o pianista e compositor de Petrolina, na outra margem do Rio São Francisco), Gustavo Ruiz, Luisão Pereira e Régis Damasceno. Eventuais cordas, guitarras ou programações eletrônicas colorem o repertório, que passa por samba, bossa, bolero. Desce bem, bom de ouvir, no ritmo da “felicidade como uma onda no mar, que vem e volta para o oceano”, como, abrindo o disco, Tatau canta em “Às vezes”.

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Fechando a tampa, a coletânea dupla “1967: Sunshine tomorrow”, com suas 65 faixas, é item para viciados em Beach Boys. Flagra o grupo em momento de transição, após ter lançado no ano anterior o clássico dos clássicos “Pet sounds”, quando o conturbado Brian Wilson, emburacado no estúdio, tentava botar de pé o projeto “Smile”. Como se sabe, o disco original foi abortado pela gravadora Capitol, enquanto seus companheiros de grupo rodavam pelos palcos e também achavam tempo para fazer o então pouco ouvido “Wild honey”. Na época, com a entrada em cena de gente como Jimi Hendrix, The Who, Janis Joplin, as sofisticadas harmonias dos irmãos Wilson viraram passado da noite para o dia. Mas, cinco décadas depois, muito do que o grupo fez no período sobreviveu.

O CD 1 tem como menu principal “Wild honey”, lançado originalmente em dezembro de 1967, e que volta na íntegra, remasterizado em 2017, e ainda traz versões alternativas de algumas das canções, mais faixas que ficaram de fora do LP e gravações ao vivo. Ignorado pela crítica na época, sobreviveu como um dos mais deliciosos discos dos Beach Boys, que, em meio às composições originais, acenavam para a genialidade do então adolescente Stevie Wonder, em recriação do sucesso “I was made to love her”. Quase todas as músicas de “Wild honey” são assinadas pelos primos Brian Wilson e Mike Love, que, logo depois, brigaram feio e até hoje não se bicam, pérolas pop como a faixa-título e ainda “Country air”, “Darlin’”, “Let the wind blow” e “Here comes the night”.

No CD 2, estão algumas faixas de “Smiley smile” (lançado em setembro de 1967, foi o que sobrou do projeto concebido por Brian para “Smile”), incluindo “Heroes and villains” e as psicodélicas “Vegetables” e “Wind chimes”. Mas, seu maior sucesso e um clássico na obra dos BB, “Good vibrations”, só entra em versão ao vivo. O que não deixa de ser atraente para adeptos do grupo, que, em 1967, pode ser ouvido ao vivo em alguns de seus sucessos e também de outros artistas, como os então recém-lançados “With a little help from my friends”, dos “rivais” Beatles, e “The letter”, do hoje esquecido The Box Tops. Apesar dos pesares, das muitas brigas e decepções, os Beach Boys deixaram boas vibrações.

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