Canto feminino do Brasil se amplifica na era da diversidade pop – Parte III


Os anos 2000 foram de cruciais mudanças para a indústria fonográfica com série de transformações que ainda reverberam na cena brasileira de 2017. Na década passada, começou a se desenhar um cenário que ainda persiste como modelo de mercado – um caminho irreversível diante do avanço do consumo (legal e ilegal) de música na web. Descapitalizadas por conta do crescimento sem freio dos downloads ilegais e (no caso do Brasil e de outros países com grande concentração de pobreza) da compra incontrolável de CDs piratas, as companhias fonográficas reduziram elencos e passaram a investir somente em nomes de retorno garantido. Geralmente, artistas que faziam música voltada para o consumo de massa.


Foi nesse contexto, em que o mercado fonográfico ficou cada vez mais segmentado, que apareceram as cantoras do Brasil dos anos 2000. Quatro delas – a mineira Ana Carolina, a mato-grossense Vanessa da Mata e as paulistanas Maria Gadú e Maria Rita – conseguiram passar pelo funil e se tornaram conhecidas em escala nacional. Outras, como a potiguar (criada no Rio de Janeiro) Roberta Sá, conseguiram construir carreiras com sucesso de crítica e alguma visibilidade nacional, mas com público menos massivo, concentrado em determinados Estados do Brasil (geralmente o Sudeste).


Projetada em 1999, ano em que lançou o primeiro álbum, Ana Carolina sedimentou a obra autoral na primeira metade dos anos 2000. Em 2001, já tinha aberto parceria com Adriana Calcanhotto e era ouvida na voz de Maria Bethânia, intérprete original da balada Pra rua me levar, parceria de Ana com o gaúcho Antonio Villeroy. De 2005 em diante, a artista investiu na popularização de obra que, de certa forma, inaugurou um subgênero: a canção passional, composta de mulher para mulher. No embalo do sucesso de Ana, o mercado abriu portas para cantoras e compositoras de estilo similar, como a carioca Isabella Taviani, que, aos poucos, se dissociou da comparação com a colega.


Tal como Ana Carolina, Vanessa da Mata apareceu em 1999, primeiramente como compositora, já com a honra de ter música de autoria dela – A força que nunca seca, parceria com o compositor paraibano Chico César – no título de disco de Maria Bethânia. Ao lançar o primeiro álbum em 2002, Mata não estourou de imediato. Ela precisou ir atrás de músicos contemporâneos como Kassin (o produtor mais requisitado a partir de meados dos anos 2000) para enquadrar a obra (de origens regionais) em moldura mais pop e moderna. O estouro veio somente em 2005 com o remix de Ai, ai, ai…, parceria de Mata com o produtor Liminha, mas se revelou duradouro, popularizando cancioneiro de assinatura pessoal.


Maria Rita foi sucesso instantâneo, alimentado pela curiosidade natural de todo o Brasil em ouvir a voz da filha de Elis Regina (1945 – 1982). Cantora que se formou musicalmente nos Estados Unidos, Rita – filha de Elis com o pianista e maestro César Camargo Mariano, nascida em 1977 – deu os primeiros passos profissionais na música no Brasil, em 2002, ano em que fez shows na cidade de São Paulo (SP) e que ganhou prêmio de revelação sem ter sequer lançado o primeiro disco.


Contratada pela gravadora Warner Music, Rita teve lançamento cercado por poderosa estratégia de marketing, como se não se via no mercado fonográfico nacional desde o aparato montado em torno de Marisa Monte. A estratégia – que envolvia sigilo sobre o primeiro disco de Rita, lançado afinal em setembro de 2003 – se revelou bem-sucedida. O álbum Maria Rita chegou à marca do milhão de cópias vendidas e a cantora passou a fazer turnê em grandes casas de shows. Dez anos depois, em 2013, já contratada pela gravadora Universal Music, Maria Rita se rendeu às exigências do mercado e fez show com o repertório de Elis – espetáculo, aliás, providencialmente transformado em DVD e CD ao vivo. Contudo, o sucesso de um álbum de sambas, lançado anteriormente em 2007, norteou nos últimos dez anos os caminhos musicais de Maria Rita.


Aposta da gravadora Som Livre, Maria Gadú foi a última voz de mulher brasileira a virar fenômeno de massa nos anos 2000. Em 2009, o álbum Maria Gadú – editado pelo selo Slap, braço indie da Som Livre – virou mania nacional a reboque de sucessos como Shimbalaiê. Seguiu-se turnê naturalmente registrada em DVD (formato cujo surgimento na virada dos anos 2000 obrigou o mercado fonográfico a dar mais atenção para os produtos audiovisuais, que passaram a ser prioritários para a indústria da música, inclusive pelos custos mais reduzidos de uma gravação ao vivo no confronto com os orçamentos de álbuns de estúdio).


O sucesso de Gadú foi tamanho que, dois anos depois, a cantora já fazia turnê com Caetano Veloso, dividindo o palco de igual para igual com o ídolo da MPB, em bem orquestrada jogada de marketing para aproximar o cantor e compositor baiano de um público mais comportado e massivo (do qual Caetano se afastou a partir de 2006 com série de discos voltados para o universo jovial do indie rock).


Mesmo sem ter o sucesso de massa de Maria Gadú, Roberta Sá é exemplo da viabilidade de construir uma carreira fonográfica nos atuais moldes da indústria do disco. Roberta é ligada a um selo de pequeno porte – o MP,B Discos (Maior Prazer, Brasil), do empresário João Mário Linhares – mas este selo estabelece vínculos com gravadoras de maior porte. Atualmente essa gravadora é a Som Livre, companhia que põe todo o departamento de divulgação e marketing a serviço dos produtos do selo, com investimento especial nos discos de maior retorno, como os álbuns de Roberta Sá.


Essa nova modalidade de trabalho favorece o artista, que pode gravar álbuns com maior liberdade artística – sem a pressão das multinacionais para seguir fórmulas de sucesso – e, ao mesmo tempo, ter a máquina de uma grande gravadora girando a favor (o que pode gerar espaços mais nobres na mídia). Doze anos após o lançamento do primeiro disco, Braseiro (2005), Roberta Sá segue com prestígio na cena musical e prepara disco dedicado ao cancioneiro do compositor baiano Gilberto Gil.


Paralelamente, os anos 2000 também propiciaram o aparecimento de uma cena indie, sem vínculos com grandes gravadoras. É nesse nicho que despontaram as cantoras e compositoras paulistanas Céu e Tiê, ambas bem-sucedidas, a ponto de terem feito conexões posteriores com a indústria do disco ao longo dos anos 2010.


(No último texto, Tulipa Ruiz, Anitta, Karol Conka e o canto feminino do Brasil nos anos 2010)

Leia também:

Canto feminino do Brasil se amplifica na era da diversidade pop – Parte I

Canto feminino do Brasil se amplifica na era da diversidade pop – Parte II

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