‘ozark’ e ‘i love dick’: duas séries (bem diferentes) para fazer maratona no final de semana

O que faz uma série ser boa não são somente suas qualidades, mas o quanto elas conseguem disfarçar seus defeitos. Meio cafona essa frase (de minha autoria, pode citar), mas para mim ela define bem “Ozark”, série do Netflix que devorei em pouco mais de uma semana – são dez episódios de uma hora – mesmo depois de ter prometido tirar férias das séries do Netflix (porque eles lançam 15 séries medianas por mês e quando você vai ver não assiste mais nada fora disso, só porque está ali facinho).ozark - netflix - blog Legendado


Dava para listar um monte de defeitos de “Ozark”, de uns furos no roteiro a uns personagens ruinzinhos. Só que eu terminava de ver um episódio e, tensa, pensava: preciso ver o próximo. Porque a história é ótima, o protagonista é muito bom (Jason Bateman, de “Arrested Development”, que também dirige vários episódios), a série tem ritmo. Me joguei e fui feliz até o final, fiquei tensa até o final. Valeu – foi uma belíssima maratona.

“Ozark” é sobre um consultor financeiro (com o ótimo nome de Marty Byrde – adoro que toda hora alguém pronuncia esse nome inteiro), aparentemente um homem de bem, pai de família, que lava dinheiro para um cartel mexicano. Depois que seu sócio começa a colaborar com o FBI ele tem que inventar um superesquema mirabolante (que tem grandes chances de não dar certo) e se mudar com sua família para uma região ao redor de um lago, em outro estado, na tentativa de convencer o chefão do tráfico que ele não merece morrer e ainda pode ajudá-lo a ter lucro. Ah. No meio tempo, descobre que está sendo traído pela mulher, vivida por Laura Linney, que para variar está ótima no papel.

Para tentar estabelecer seu negócio de lavagem de dinheiro na nova cidadezinha em que se instala, acaba se envolvendo com bandidos, trombadinhas, bandidões, vê as coisas darem errado algumas dezenas de vezes e se vê obrigado a envolver até os filhos no esquema – enquanto tenta manter sua família unida, a princípio muito mais por necessidade que por amor, talvez (obviamente ele tem uma filha adolescente que adora fazer merda, como em toda série. Mas faz parte e não estraga).

Como desde o primeiro episódio Marty sabe que devia estar morto e imagina que muito provavelmente vai acabar sendo morto em algum momento, ele age com algum desprendimento, um cinismo até, diante de tanta coisa que vai dando errada, o que acaba dando uma leveza e uma certa autoironia à série, que tem seus momentos quase engraçados para dar uma equilibrada no constante clima de tensão. Marty acaba sendo um anti-heroi meio ao contrário, lá no fundo um pai de família amoroso que se mete onde não devia. Ou não. Como falei, o personagem é ótimo.

Mesmo não sendo um poço de originalidade e, de novo, tendo alguns furos no roteiro, a série consegue prender, surpreender, chocar às vezes. Entretenimento de primeira. Assisteaê.

*

Se “Ozark” é uma série que funciona no calor do momento e que, quanto mais você pensa sobre, talvez menos você goste, a estranhíssima “I Love Dick” é justamente o contrário. Esquisita, histérica, provocativa, ela até causa um certo desconforto no começo. Só que vai ficando melhor e melhor com o passar dos episódios e quanto mais eu penso nela mais eu gosto. i love dick - blog legendado


Exibida no serviço de streaming da Amazon (Prime vídeo), a série tem oito episódios curtinhos sobre um casal – ele um filósofo, ela uma diretora de cinema independente – que se muda para uma cidadezinha do interior do Texas depois que o marido recebe uma bolsa para escrever um livro num renomado instituto dirigido por um artista milionário e excêntrico.

Só que esse artista, vivido por um Kevin Bacon mais gato que nunca (sim, isso importa para a história), se torna a obsessão sexual de Chris (Kathryn Hahn, ótima), com anuência (e participação, já que essa paixão desperta o apetite sexual do casal, há muito esquecido) do marido Sylvère (Griffin Dunne). Mas claro que nem tudo é tão fácil e que a relação do casal – e de Sylvère com Dick e da cidade e dos artistas do instituto – vai ficar bem conturbada, especialmente depois que Chris tenta transforma sua obsessão em arte e suas cartas em uma instalação, o que expõe e incomoda muito o próprio Dick. Não vou contar mais para não tirar a graça. Mas assista.

A série é surpreendente, tem uma galeria de personagens que a gente não encontra por aí (destaque para a incrível Devon, vivida por Roberta Colindrez) e tem um dos melhores episódios de qualquer coisa que eu vi no ano – o quinto, que conta, com narração em primeira pessoa e flashbacks, sobre a formação sexual de algumas personagens. A série é dirigida por Jill Solloway (de “Transparent”) e baseada num livro meio autobiográfico lançado nos anos 90.

Vá atrás.

(Obs.: o nome traduzido da série ficou “Amamos Dick”, o que não faz muito sentido… O artista, Dick, em português poderia ganhar um nome tipo João Pinto – daí o trocadilho do nome da série, que eu traduziria como “Eu amo Pinto”.)

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