Fino estilista da MPB, Luiz Melodia deixa obra bela e nobre como ébano


Voz aveludada do morro que jamais se deixou enquadrar na moldura de sambista, embora fizesse e cantasse samba com orgulho, o cantor e compositor carioca Luiz Carlos dos Santos (7 de janeiro de 1951 – 4 de agosto de 2017), o Luiz Melodia, gravou 15 álbuns entre 1973 e 2014. No derradeiro disco autoral de estúdio, Zerima (Som Livre), o cantor e compositor apresentou maravilhas contemporâneas como Dor de amor, samba de fossa, gravado com a cantora paulistana Céu, sobre um Carnaval fracassado.

Belo fecho oficial para obra fonográfica encerrada com a saída de cena do artista na manhã de hoje, aos 66 anos, Zerima se revelou um álbum mais sereno, eventualmente nostálgico e melancólico. Mas havia no disco o nobre DNA musical que Melodia já mostrara no primeiro clássico álbum, Pérola negra (Philips), lançado em 1973 no rastro de gravações de músicas do compositor pelas cantoras Gal Costa e Maria Bethânia.


Entre Pérola negra e Zerima, Luiz Melodia foi fiel à própria obra, à música que sabia fazer sem fórmulas de sucesso. Melodia não foi um cantor de grandes hits, embora tenha emplacado sucessos populares na década de 1970. Destaque do repertório de Maravilhas contemporâneas (1976), segundo álbum do artista, a canção Juventude transviada (de letra surreal) foi um desses hits, tendo sido propagada em escala nacional na trilha sonora da versão original da novela Pecado capital, exibida pela TV Globo entre 1975 e 1976.


Contudo, o compositor nunca pareceu se preocupar com hits e com o mercado. De temperamento difícil, arisco, Melodia muitas vezes se desentendeu com gravadoras para preservar a essência da obra. Por isso mesmo, o artista geralmente lançou álbuns com intervalos espaçados. Nem todos saudados com a devida importância.


Pode-se argumentar que o suprassumo dessa obra está concentrado nos três álbuns dos anos 1970. Só que há mais pérolas negras no cancioneiro de Melodia do que supõem os que ouviram somente músicas como Estácio, Holy, Estácio (1972), Magrelinha (1973), Presente cotidiano (1973), Salve linda canção sem esperança (1974), Ébano (1975), Congênito (1975), Fadas (1978) e Dores de amores (1978). É difícil, por exemplo, não cair no suingue de Revivendo (Luiz Melodia e Perinho Santana), samba que fechou Claro (1987), álbum menos ouvido do Negro Gato.


Se o compositor foi bamba, o cantor foi fino estilista que aveludou a própria obra e, como intérprete, refinou sucessos da Jovem Guarda e tomou para si uma balada de Cazuza (1958 – 1990), Codinome beija-flor(Reinaldo Arias, Cazuza e Ezequiel Neves, 1985), ao regravá-la em 1991 para a trilha sonora da novela O dono do mundo (TV Globo).


Descoberto pelos poetas tropicalistas Torquato Neto (1944 – 1972) e Waly Salomão (1943 – 2003), no morro do Estácio onde aprendera a tocar samba, Luiz Melodia chegou até a voz de Gal Costa, intérprete original da canção Pérola negra em 1971, através da ponte feita pelos poetas com a cantora que, na época, encarnava musa da contracultura.


Melodia já tinha a ginga própria (construída a partir da fusão de influências como o samba, o soul, o choro, o blues, o rock e o iê-iê-iê romântico), mas é importante ressaltar a importância do guitarrista e arranjador baiano Perinho Albuquerque na formatação inicial dessa obra de assinatura e suingues tão pessoais. Perinho criou arranjos de nove das dez músicas do álbum Pérola negra, disco delineador da identidade de Melodia na música brasileira.


Melodia é contemporâneo de João Bosco e Djavan e, como esses dois compositores projetados na primeira metade dos anos 1970, soube se integrar à MPB nascida na era dos festivais da década de 1960 e expandida naqueles anos rebeldes. Como Bosco e Djavan, Melodia tem obra desde sempre original, única. Até porque Luiz Melodia nunca quis se limitar a transitar pelo universo do samba e do choro ouvidos desde que tinha oito anos e era levado pelo pai, o compositor Oswaldo Melodia, para as rodas e becos musicais do morro do Estácio. Mas o DNA musical de Luiz Melodia já era mais complexo, pois continha os genes do soul, do blues e do rock. O que gerou obra maravilhosa, contemporânea, criada a partir dessa mistura fina, negra, nobre como o ébano.


(Crédito da imagem: Luiz Melodia em foto de divulgação de Daryan Dornelles)

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