Otto se debate entre o brega e o rock em álbum com cancioneiro apático


Se o cantor e compositor pernambucano Reginaldo Rossi (1944 – 2013) tivesse se banhado na lama do Mangue Beat, talvez pudesse ter feito disco na linha do sexto álbum solo de músicas inéditas do conterrâneo Otto. Mas provavelmente seria um disco mais sedutor do que Ottomatopeia (Pommelo Discos) porque o repertório kitsch de Rossi continha músicas bem mais inspiradas do que Dúvida (Otto e Ilan Ersahin), uma das dez composições autorais deste novo disco de Otto, encorpada pelos toques das guitarras de Bruno Giorgi e Guilherme Monteiro.


Cinco anos após a viagem feita em The moon 1111 (2012), disco de maior ambição artística, o cantor e compositor pernambucano volta ao mercado fonográfico com álbum de menor magnitude que versa sobre aquela velha história: o amor. Longe do existencialismo kafkiano de Certa manhã acordei de sonhos intranquilos (2009), obra-prima da discografia solo do artista ao lado de Samba pra burro (1998), Ottomatopeia se debate entre a pegada roqueira das guitarras, as camadas dos sintetizadores (geralmente pilotados por Donatinho) e a veia sentimental de letras que expiam dores de desamores com certa leveza matinal.


Single lançado nas plataformas digitais em 14 de julho, duas semanas antes do efetivo lançamento do álbum (bem) produzido por Pupillo, Bala (Otto e Pupillo) já havia disparado o petardo autoral mais pop do disco, uma música de refrão bem delineado que cai no suingue do Fender Rhodes tocado por Bactéria e das percussões de Marcos Axé e de André Malê. Recorrentes em várias músicas do disco, a bateria de Pupillo, o baixo de Alberto Continentino e a guitarra de Guilherme Monteiro armam o tripé básico do rock que sustenta a resignação romântica de Atrás de você (Otto e Martin Mendonça).


Contudo, é equívoco caracterizar Ottomatopeia como disco de rock, embora haja rock nas entranhas de Soprei (Otto e Pupillo), música menor na obra autoral de Otto, exemplo da apatia de parte do repertório. Não é por acaso que a regravação de tema forrozeiro da lavra de Roberta Miranda, Meu dengo (1986), se insinua como o possível hit de Ottomatopeia. Na única música fora do trilho autoral, Otto se derrete no dueto com a própria cantora e compositora paraibana, bisando o encontro feito para a trilha sonora do filme Quase samba (Brasil, 2012). O vocal de Céu na faixa passa quase despercebido diante do dengo que envolve Otto e Roberta.


Estranho no ninho de Otto, o cantor, compositor e músico capixaba Zé Renato (de alma musical carioca) é o surpreendente parceiro da balada Carinhosa, adornada com o violão de Zé Renato e com quarteto de cordas orquestradas por João Carlos Araújo. “Nessa noite passada / Eu sonhei com você / E adorei”, admite Otto, já com a alma vazia de densas intranquilidades, em Carinhosa, música aquém da expectativa gerada por parceria tão improvável.


Poeticamente, Ottomatopeia patina em nível mais raso do que o de álbuns anteriores de Otto. Esse trilho poético mais rasteiro é seguido em Caminho do sol (Otto, Dengue e Pupillo), faixa encorpada pelo coro masculino – refeito na gravação de outra música pouco inspirada, É certo o amor imaginar? (Otto e Pupillo) – e pelos toques das guitarras de Guri e Junior Boca.


Música que o artista já vem tocando em shows desde 2015, Pode falar, cowboy! (Otto) tem o clima country enevoado pelas camadas de sons espaciais tiradas por Donatinho dos sintetizadores que maneja com destreza. Já Teorema (Otto e Pupillo) cai no nortista suingue tecnobrega com as levadas das guitarras de Manoel Cordeiro e Felipe Cordeiro, convidados de uma das músicas mais palatáveis de disco que reaviva em Orumilá (Otto, Pupillo e PJ Pereira) a fé afro-brasileira professada desde sempre no cancioneiro de Otto. Nem precisava da guitarra matadora de Andreas Kisser para fazer baixar o santo.


No todo, entretanto, Ottomatopeia parece ficar pelo meio do caminho, talvez pela possível indecisão de Otto entre fazer um disco mais fortemente roqueiro (como o artista chegou a anunciar em entrevistas) ou um álbum assumidamente brega ao falar de (des)amor. Reginaldo Rossi não tinha essa dúvida. (Cotação: * * 1/2)


(Crédito da imagem: capa do álbum Ottomatopeia. Arte de Emmanuéle Petit. Otto em foto de Kenza Said)

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