Musical sem clichês parte do Rio para expor os sons e as querelas do Brasil


Não se deixe assustar pela propaganda de Rio mais Brasil – O nosso musical. O equivocado cartaz promocional do musical faz supor tratar-se de produção para turista à moda dos espetáculos encenados na churrascaria Plataforma, no Leblon, bairro carioca onde o musical idealizado por Gustavo Nunes e dirigido por Ulysses Cruz está em cartaz no Teatro Oi Casa Grande, de quinta-feira a domingo, até 10 de setembro. Tampouco se deixe enganar pelo título inadequado do espetáculo. Rio mais Brasil não é um musical sobre a cidade do Rio de Janeiro (RJ). O texto de Renata Mizhari parte do Rio para discorrer sobre as querelas do Brasil e do artista nacional às voltas com as políticas e as leis da cultura em um país fora-da-lei.


A rigor, o musical versa sobre filme em processo de produção cujo roteiro é inspirado pelo livro O povo brasileiro (1995), obra-prima de Darcy Ribeiro (1922 – 1997), antropólogo mineiro que saiu de cena há 20 anos. É um musical atual, sobre a crise da cultura que dilui a identidade nacional de um país nascido da miscigenação (inclusive musical) entre índios, negros e brancos.


Rio mais Brasil se desvia da fórmula de sucesso dos musicais biográficos que desenterram ídolos mortos para acionar a máquina da indústria da saudade. Sem clichês no texto e nos números musicais (alguns feitos com inusuais instrumentos percussivos), o espetáculo põe em cena um Brasil em decomposição de valores éticos, mas que resiste com a alma do povo.


Já no primeiro número, o samba-exaltação Aquarela do Brasil (Ary Barroso, 1939), iniciado a capella pela atriz Cris Vianna, o uso da percussão corporal pelo elenco sinaliza que outros tons e sons serão ouvidos em cena. Vianna dá voz e vida a Cris, diretora do filme orquestrado pelo produtor cinematográfico Martin (Claudio Lins) com todas as dificuldades impostas pela diminuição e posterior cancelamento de verbas. O que justifica a crítica social de samba sem exaltação do país, Querelas do Brasil (Maurício Tapajós e Aldir Blanc, 1978), incluído no roteiro musical.


Em sintonia com a demolição dos clichês, os diretores musicais Carlos Bausyz e Daniel Rocha rearranjaram Meu lugar (Arlindo Cruz e Mauro Diniz, 2007) com o groove do funk porque o lugar dos compositores deste samba, o bairro carioca de Madureira, é também local de bailes da pesada com charm e funk. Esse também é o Rio do Brasil.


Justamente por propor a reflexão do espectador sobre a situação e o povo do Brasil, Rio mais musical causa certo estranhamento no início até que a ação ganhe força, corpo e pleno sentido ao longo do espetáculo. Até porque o texto também abre mão de piadas fáceis, embora haja humor no comportamento e em algumas falas do americanizado assistente Kadu, personagem de Danilo Mesquita (ator popularizado na TV como o Nic da 4.4, fictícia boyband da novela Rock story, sucesso recente da TV Globo no horário das 19h).


A diversidade musical do Brasil entra em cena à medida em que são realizados os testes para a seleção do elenco do filme – testes apresentados na ação mesmo quando o filme já está em processo de produção, sem amarrar a dramaturgia à sequência cronológica dos fatos. Essas cenas permitem a exposição de músicas de todas as regiões do Brasil. Algumas são conhecidas em dimensão nacional, casos de A rã (João Donato e Caetano Veloso, 1974), da quadrilha forrozeira São João na Roça (Luiz Gonzaga e Zé Dantas, 1952), da gaúcha Deu pra ti (Kleiton Ramil e Kledir Ramil, 1981) e de Tocando em frente (Almir Sater e Renato Teixeira, 1990), toada levada com guitarra e pegada roqueira.


Outras músicas têm alcance mais regional, como a desiludida moda de viola Paixão goiana (Romeu Wandscheer e João de Paula, 1993). Em cena, esses números musicais ganham maior ou menor força dependendo do desempenho vocal do elenco. Intérprete do mineiro Gilberto, o ator Leandro Melo sola Caçador de mim (Luiz Carlos Sá e Sérgio Magrão, 1980) a capella e ganha merecidos aplausos entusiásticos da plateia.


Há momentos em que a dramaturgia fica mais solta, sobretudo na parte em que a autora denuncia o histórico de desrespeito às mulheres do Brasil, em texto descolado da ação principal. Contudo, Rio mais Brasil se mostra pleno de significado no cômputo geral. No emocionante arremate, com Paratodos (Chico Buarque, 1993), o musical expõe a força gregária do povo nacional, gigante adormecido na resistência pacífica contra as querelas e os golpes cotidianos do Brasil. (Cotação: * * * *)


Título: Rio mais Brasil – O nosso musical

Idealização: Gustavo Nunes

Texto: Renata Mizhari

Direção: Ulysses Cruz

Direção musical: Carlos Bauzys e Daniel Rocha

Elenco: Claudio Lins, Cris Vianna, Danilo de Moura, Danilo Mesquita, Anna Bello, André Muato, Bárbara Sut, Camila Matoso, Clayson Charles, Edmundo Vitor, Janaína Moreno, Kesia Estácio, Leandro Melo, Luciana Balby, Nando Motta, Marcel Octavio, Paulo Ney, Priscilla Azevedo e Teka Balluthy

* Musical em cartaz no Teatro Oi Casa Grande, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), de quinta-feira a domingo, até 10 de setembro de 2017.


(Créditos das imagens: cenas de Rio mais Brasil – O nosso musical em fotos de Leo Aversa)

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