Mônica Salmaso dá baile na roça em álbum em que refina universo caipira


Ouvidos apurados sabem que Mônica Salmaso é uma das maiores cantoras do Brasil de todos os tempos. Basta uma audição da interpretação de Leilão (Hekel Tavares e Joracy Camargo, 1933) – tema que narra a saga trágica do casal de escravos separados no ato da venda da mulher – para atestar que, à técnica sempre perfeita, a cantora alia emoção contida, precisa, sem excessos dramáticos ou vibratos, mas embebida em sentimento. Salmaso reaviva Leilão somente com o toque da viola caipira de Neymar Dias em gravação que sobressai entre os 14 fonogramas do 13º álbum da discografia da cantora paulistana, Caipira.


Lançado neste mês de agosto de 2017, em edição da gravadora Biscoito Fino, Caipira é álbum primoroso que começou a ser gestado há 14 anos, a partir de pesquisa de repertório sertanejo para a composição do roteiro do show Casa de caboclo, apresentado pela artista em 2003 em série de espetáculos temáticos promovidos pelo Sesc de São Paulo.

Caipira, no dicionário musical de Salmaso, é termo de sentido elástico. No caso, Caipira significa mais um universo ruralista, entranhado nos interiores do Brasil, do que um gênero musical em si. Tanto que Salmaso traz Bom dia (1967) – primeira e única parceria de Gilberto Gil com Nana Caymmi, lançada há 50 anos em festival da canção – para esse mundo interiorano.


A rota do Brasil caipira de Salmaso abrange desde os rincões das Geraes – de onde brotam o causo folclórico de A velha (Zezinho da Viola, 1979) e a delicadeza de Saíra (música inédita do compositor mineiro Sérgio Santos, gravada com o violão e a voz de Santos) – até o Nordeste das tradições orais que perpetuam Alvoradinha, tema religioso que embute a fé das Caixeiras do Divino Maranhão.


Há naturalmente muito de Nordeste no Brasil sertanejo de Salmaso. Parceria de Sergio Santos com Paulo César Pinheiro, autor dos versos poéticos do tema, Açude verde (2013) declara amor na pisada do baião. Refinando o universo musical em torno do qual gravita, o álbum Caipira oferece a diversificada trilha sonora de um baile na roça, às vezes no toque do acordeom de Toninho Ferragutti, músico que traz a moda de viola Minha vida (Carreirinho e Vieira, 1955) para o vivaz clima forrozeiro de arrasta-pé. O sucesso da dupla sertaneja Vieira & Vieirinha alterna climas e andamentos, soando mais tradicional quando a viola caipira de Neymar Dias dá o tom.


Nesse baile, há espaço para a tragédia passional de Feriado na roça (1979) – rara amostra de um Cartola (1908 – 1980) caipira e sempre sofisticado – e para o lirismo que ilumina a beleza poética e melódica da canção Primeira estrela de prata (Rafael Alterio e Rita Alterio, 2013), gravada há quatro anos pelo cantor Bernardo Bravo com o título de Lua madrinha.

A gravação de Salmaso é pautada pelo mesmo tempo de delicadeza que rege Sonora garoa (Marco Antonio Vilalba, o Passoca, 1982) no registro de voz e piano (o de André Mehmari) que parece sair de uma caixinha de música em que também roda a música-título Caipira (Breno Ruiz e Paulo César Pinheiro), já cantada nas vozes de Renato Braz e do compositor Breno Ruiz no programa de TV Sr. Brasil, apresentado pelo ator e cantor Rolando Boldrin.


Artista referencial desse universo caipira, Boldrin avaliza o álbum de Salmaso ao fazer harmonioso dueto com a cantora, acertando o relógio sertanejo que move o tempo de Saracura três potes (Cândido Canela e Téo Azevedo), moda de viola gravada em 1983 pela dupla Tonico & Tinoco.


Disco gravado sob a direção musical da própria Mônica Salmaso e de Teco Cardoso, flautista recorrente na ficha técnica do álbum em que assina a produção, Caipira apresenta belíssima música inédita do produtivo compositor baiano Roque Ferreira, Baile perfumado, toada embebida em melancolia que, ao ter a repetida letra por Salmaso, ganha o toque por vezes quase fúnebre da minimalista percussão de Robertinho Silva. Compositor hábil ao retratar esse Brasil interiorano, Roque Ferreira ainda tem o samba Água da minha sede – composto com o carioca Dudu Nobre e lançado por Zeca Pagodinho em 2000 – transposto por Salmaso para o universo caipira desse disco de sofisticada musicalidade.


Na contramão da opulência musical do álbum anterior Corpo de baile (Biscoito Fino, 2014) majestoso tributo à já extinta parceria de Guinga com Paulo César Pinheiro, Mônica Salmaso opta por instrumental mais econômico, mas com a mesma riqueza sonora. Tanto que a grande cantora dá outro baile em disco perfeito. Só que, desta vez, o baile é dado numa roça chamada Brasil. (Cotação: * * * * *)


(Crédito da imagem: capa do álbum Caipira. Mônica Salmaso em foto de Paulo Rapoport)

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