Canto feminino do Brasil se amplifica na era da diversidade pop – Parte II


Sequência do texto Canto feminino do Brasil se amplifica na era da diversidade pop – Parte I

Ao longo dos anos 1990, o mercado fonográfico brasileiro passou por grandes e graduais transformações. O CD tirou das lojas o LP e o cassete. Já não havia mais uma MPB que dominasse e ditasse o gosto musical, embora cantoras identificadas com o gênero, como a carioca Nana Caymmi e as baianas Gal Costa e Maria Bethânia, tenham continuado com prestígios inabalados e com eventuais picos de vendagens de discos (Nana, aliás, nunca venderia tanto disco como em 1998). Foi quando a indústria passou a investir massiva e simultaneamente em poucos gêneros musicais, propiciando o surgimento de segmentos populistas como o sertanejo, o pagode pop (uma diluição do samba em que os teclados ficam à frente das percussões) e a axé music, rótulo genérico dado à música baiana de tonalidade afro-pop. É nesse segmento que despontaram em escala nacional nos anos 1990 duas vozes de mulheres baianas, Daniela Mercury e Ivete Sangalo, que bateriam recordes de vendagens de discos e lotações de shows.


A primeira foi Daniela, que, após dois discos gravados no fim da década de 1980 como vocalista da banda baiana Companhia Clic, partiu para a carreira solo em 1991 com a edição de álbum editado pela pequena gravadora paulista Eldorado. O sucesso espontâneo da artista – que aglutinou multidão na Avenida Paulista em início de tarde de 1992, para assistir a uma apresentação feita pela cantora no vão livre do Museu de Arte de São Paulo (MASP) – chamou a atenção da gravadora Sony Music, que contratou Daniela e destinou à cantora poderosas verbas e estratégias de marketing.


Aliada ao canto caloroso da artista e a um disco feito no timing e no tom certos, O canto da cidade (1992), a máquina da gravadora fez o álbum ultrapassar o milhão de cópias vendidas. A voz de Daniela Mercury se tornou o canto de todas as cidades do Brasil entre 1992 e 1993, com sucesso que perdurou por toda a década de 1990 até ir perdendo progressivamente fôlego a partir dos anos 2000 (em que pese a edição do relevante álbum Balé mulato em 2005). Atualmente, a cantora aparece mais na mídia por conta da militância LGBT do que pela música em si.


Paralelamente à escalada de Daniela Mercury, Ivete Sangalo pavimentou estrada de sucesso, de início como vocalista da baiana Banda Eva. O primeiro disco ao vivo da banda, editado em 1997, vendeu retumbantes dois milhões de cópias em momento em que o mercado fonográfico ainda não havia sido corroído pela pirataria física e virtual de CDs, praga que disseminou progressivamente o poder da indústria do disco a partir dos anos 2000, forçando a abertura de portas para a proliferação de selos e discos independentes. Em carreira solo desde 1999, Ivete Sangalo também sofreu com a pirataria fonográfica, mas viu a popularidade aumentar nos anos 2000 a reboque de vivazes sucessos nacionais como Festa (Anderson Cunha, 2001) e Sorte grande (Lourenço, 2003). Já a caminho dos 25 anos de carreira fonográfica, a serem festejados em 2018, Ivete permanece popular, tendo se tornado uma estrela que já independe de hits para aparecer na mídia.


Em outro nicho, o do pop rock, a carioca Cássia Eller (1962 – 2000) também se fez ouvir com voz de trovão – assim definida pela antecessora Rita Lee, cantora paulista que hasteou sozinha a bandeira do rock feminino brasileiro nos anos 1970. Cássia já cantava profissionalmente desde os anos 1980, mas somente em 1990 ganhou visibilidade nacional – ainda no rastro da explosão de Marisa Monte – com a gravação de um primeiro álbum, Cássia Eller, de clima underground, mantido por Cássia no posterior O Marginal(1992). A postura rústica, indomada, conquistou admiradores instantâneos entre os críticos e os roqueiros alternativos, mas a gravadora detectou nessa postura da cantora um entrave para a conquista do sucesso popular.


A solução foi domesticar a rebeldia da artista e tornar o repertório mais pop – o que foi feito no terceiro álbum da cantora, Cássia Eller (1994), sintomaticamente o primeiro a obter sucesso popular com as músicas E.C.T. (Nando Reis, Marisa Monte e Carlinhos Brown) e Malandragem (Roberto Frejat e Cazuza). De todo modo, Cássia não se deixou domar inteiramente pela indústria do disco. Alternou discos pesados com trabalhos de sonoridade mais pop como o Acústico MTV que gravou e lançou em 2001, ano em que atingiu ápice de vendas e popularidade, mas que também marcou a precoce saída de cena da artista, em 29 de dezembro de 2001, aos breves 39 anos.


Cássia saiu de cena para tristeza do Brasil e de colegas mais próximas como a fluminense Zélia Duncan, outra cantora lançada no rastro do sucesso de Marisa Monte. Contratada pela pequena gravadora Eldorado, Duncan lançou o primeiro álbum ainda em 1990, ainda com o nome artístico de Zélia Cristina, mas o CD Outra luz empanou o brilho do canto grave da artista por conta da equivocada produção de tom tecnopop e da irregularidade do repertório. Foi somente em 1994 que Zélia Duncan obteve sucesso e relevância com disco de acento pop folk que seria a tônica, naquela década de 1990, de discografia que adquiriria outros tons e ainda maior importância a partir dos anos 2000. De lá para cá, Zélia se transformou em outras. Abriu parcerias, deu acento pop à obra vanguardista do compositor Itamar Assumpção (1949 – 2003) em celebrado disco de 2012 e gravou irretocável álbum de sambas em 2015.


Paralelamente à escalada de Zélia, a carioca Fernanda Abreu sedimentou carreira solo ao longo da década de 1990. Pioneira no uso de samples em discos brasileiros, a ex-vocalista da banda Blitz investiu na dance music (com toque de disco music), cantou os acalorados sons da partida cidade natal do Rio de Janeiro (RJ) e subiu o morro em busca da batida funk que imperava nas favelas. O suingue sangue bom da garota carioca foi um dos marcos de uma década que, a despeito da aposta das gravadoras em gêneros massivos, amplificou o canto feminino no Brasil, firmando a voz e a personalidade de cantoras como Cássia Eller, Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Fernanda Abreu, Zélia Duncan e a então já referencial Marisa Monte.


(No próximo texto, Ana Carolina, Maria Rita, Roberta Sá, Vanessa da Mata e o canto feminino nos anos 2000)

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