Filhos de Nando, Sebastião e Theo já cantam o próprio tempo como 2 Reis


Sebastião Reis e Theodoro Reis são filhos de um dos maiores compositores da música pop brasileira, Nando Reis. Não espanta que o DNA musical do pai de certa forma esteja intuitivamente entranhado ao longo das oito músicas autorais que compõem o repertório quase inteiramente inédito do primeiro álbum de 2 Reis, a dupla formada por Sebastião e Theo. Mas o fato é que Dois Reis – o bom disco ora lançado pelo selo Relicário com distribuição da Canal 3 – evita se encostar nos ombros de Nando.


O ex-Titãs é coautor de somente uma música, o rock Seja onde for, composto em parceria com Sebastião e com Fernando Nunes, produtor do álbum gravado e mixado entre setembro de 2016 e fevereiro de 2017 no estúdio Space Blues, na cidade de São Paulo (SP). Apresentado dois anos após EP lançado em 2015, o álbum Dois Reis segue o próprio tempo de Sebastião e Theo, que contabilizam 22 e 31 anos, respectivamente.


“E nessa cadência / De décadas plenas / Escrevo histórias / Nas minhas memórias / De páginas cheias”, resume Theo numa das estrofes da letra de Curva dos 30, música que assina sozinho e na qual versa sobre as estranhezas da chegada dos 30 anos. Curva dos 30 poderia desembocar na praia do reggae, mas soa como canção que embute toques de folk e pop sem se desviar da trilha roqueira por onde transita o álbum Dois Reis, cuja capa é assinada por Zoé Reis, irmã dos artistas.


Trata-se, em última instância, de um disco de rock. Em algumas faixas, a veia roqueira pulsa de forma explícita, como em Abri as portas (Sebastião Reis e Theo Reis), o rock de pegada setentista que abre o disco. Em outras, o rock é envolvido por tons mais sutis como os que pautam a balada Repartir (Sebastião Reis e Theo Reis), já previamente apresentada pelo duo 2 Reis no programa Superstar (TV Globo). O peso do rock é dado pelas guitarras tocadas por Victor Barreto, destaque da banda arregimentada para o disco e também integrada por Gabriel Gariba (baixo e vocais), Pedro de Lahóz (teclados Hammond e Fender rhodes) e Rafinha Wer (bateria).


Sebastião toca a guitarra base e o violão que injeta certa brasileira em A sombra do futuro (Sebastião Reis), tema de versos angustiados (“O que esperam de mim? / O que irei fazer? / O mistério do planeta me aguarda / E terei de vencer”). Theo é o vocalista, tão eficiente no 2 Reis quanto Nando na interpretação de cancioneiro autoral que ganhou peso primeiramente na voz de Cássia Eller (1962 – 2001) e, a partir do álbum A letra A (2004), floresceu na voz do compositor.


Além de cantar, Theo é o compositor solitário das músicas de letras mais densas, casos dos rocks Se prepare (já gravado pela banda anterior de Theo, Zafenate), O sexo mais forte – registrado no álbum com a adesão vocal e Luiza Lian por ter versos escritos sob ótica feminina – e O tempo, tema de aura prog-folk que fecha o álbum. “O trem / Corre sobre os trilhos / Levando os meus filhos / Aonde estão meus pais”, poetiza Theo.


Hoje o tempo voa, escorre pelas mãos – como já sentenciou um outro hábil arquiteto pop, Lulu Santos, em música de 1982, quando o pai de Sebastião e Theodoro ainda era um filho, na corrida pelo trilho da geração pop do então jovem Titã. Ainda firmes, mas já em outros tempos, estes trilhos levam os herdeiros de Reis por um caminho próprio enquanto Sebastião e Theodoro correm para pegar o lugar deles no presente. Porque o tempo de 2 Reis é hoje. (Cotação: * * * 1/2)


(Crédito da imagem: 2 Reis em foto de Carol Siqueira. Capa do álbum Dois Reis. Desenhos de Zoé Reis)

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