Canto feminino do Brasil se amplifica na era da diversidade pop – Parte I


Com o benefício da perspectiva, é possível ver um novo começo de era no canto pop feminino do Brasil com o aparecimento, em 1987, de uma cantora carioca de formação lírica que lapidou a voz precisa em aulas feitas na Itália. Ao irromper como furacão na cena musical brasileira no fim da década de 1980, aos 20 e poucos anos, Marisa Monte se tornou imediatamente padrão e referência para a geração surgida na década de 1990, no rastro do sucesso retumbante da artista.

Decorridos 30 anos, o canto pop feminino brasileiro segue firme e se amplifica na era da diversidade e do streaming. Por mais que habitem outros universos musicais, cantoras em evidência neste ano de 2017 – como a carioca Anitta (em fase de produção do primeiro álbum em inglês), a rapper curitibana Karol Conka e a paulistana Mallu Magalhães (alvo de amores e ódios nas redes sociais por conta do recém-lançado álbum Vem) – são vozes que se beneficiaram da janela pop aberta há 30 anos com a aparição de Marisa e vislumbrada há 40 anos com a gravação (na voz de Gal Costa, pioneira na atitude pop, ainda que ligada à MPB) da primeira música de Marina Lima.


Com o surgimento de Marisa Monte, transformada em sucesso nacional em janeiro de 1989 por conta do próprio talento e de estratégia de marketing orquestrada pelo compositor e produtor musical Nelson Motta com o aparato multinacional da gravadora EMI, desaparece progressivamente de cena – ou, pelo menos, torna-se instantaneamente ultrapassada naquele momento – a tradicional cantora de MPB. Até porque, a partir dos anos 1980, mais precisamente a partir de 1982, já não era mais possível falar com precisão em MPB (Música Popular Brasileira) para identificar o gênero e o rótulo nascido na era competitiva dos festivais, na efervescente segunda metade dos anos 1960. Todos os ritmos já estavam juntos e misturados. Rita Lee, roqueira dos anos 1970, já soava pop. A própria Marina Lima contribuiu para a quebra desses muros musicais com a veia pop roqueira que pulsou desde sempre na obra da artista.


De todo modo, o canto de Marisa Monte se tornou delimitador de um novo começo de era porque a artista deu voz a uma nova modalidade de música brasileira, mais pop e heterogênea, já misturada com as influências do pop rock que arrombou as portas do mercado fonográfico brasileiro a partir de 1982. No repertório inicial de Marisa, cabia tanto xote do cantor e compositor pernambucano Luiz Gonzaga (1912 – 1989) quanto rock do ainda ativo grupo paulista Titãs ou samba de Candeia (1935 – 1978), compositor carioca que tomou partido alto da resistência e do orgulho negro. Até então, somente Gal Costa tinha ousado cantar a geleia geral brasileira em alguns discos tropicalistas.


Representante pioneira dessa era da diversidade pop, Marisa Monte abriu novas alas no canto feminino brasileiro, iniciando etapa de história que começou bem antes, ainda no século XIX. A compositora, pianista e maestrina carioca Chiquinha Gonzaga (1947 – 1935) foi a primeira voz de mulher a se fazer ouvir na música brasileira, não como cantora, mas como compositora pioneira na imposição de obra autoral em tempos imperais e machistas.


Ironicamente, a primeira cantora de expressão a surgir no Brasil foi uma portuguesa, Carmen Miranda (1909 – 1955), ícone da era do rádio e principal voz dos anos 1930. Na década de 1950, começaram a surgir as primeiras cantoras que também compunham. Morta aos precoces 29 anos, a carioca Dolores Duran (1930 – 1959) mal teve tempo de ver as próprias músicas conquistarem o Brasil. Até porque teve que se fazer ouvir primeiramente como intérprete de composições alheias para somente depois ter a chance de gravar a obra autoral. Melhor sorte teve a paulista Maysa Matarazzo (1936 – 1977), que já estreou em 1956 com disco de repertório inteiramente autoral que desafiou os preconceitos da época. Preconceitos que também abafaram de início a voz de Ivone Lara, pioneira matriarca do samba que lutou para se impor como compositora nos terreiros dominados inteiramente por homens.


Palanques da década de 1960 que revelaram e projetaram cantoras já identificadas com os códigos da então nascente MPB, os festivais deram voz a uma gaúcha vesga e baixinha, Elis Regina Carvalho Costa (1945 – 1982), que se tornaria o padrão e referência da época dela, embora disputasse fãs e repertório com outras duas cantoras que logo se agigantaram naquela cena da MPB, Gal Costa e Maria Bethânia, ambas baianas e ambas ligadas por laços de sangue e/ou afeto aos conterrâneos Caetano Veloso e Gilberto Gil, arquitetos da Tropicália, o movimento que sacudiu as estruturas da música brasileira entre 1967 e 1968 com geleia geral pop e antropofágica. Ambas ainda relevantes neste ano de 2017, já envolvidas em auras mitológicas.


Com a morte precoce de Elis Regina em 19 de janeiro de 1982, aos breves 36 anos, Gal Costa e Maria Bethânia reinaram soberanas no castelo das grandes cantoras brasileiras até o surgimento de Marisa Monte. A partir da aparição de Marisa, a diversidade pop foi a palavra-chave no canto feminino brasileiro. Tanto que, num primeiro momento da trajetória fonográfica, Marisa foi carimbada com o rótulo (às vezes usado em tom pejorativo) de cantora eclética. Sobretudo antes de também começar a se fazer ouvir como compositora, a partir do segundo álbum, Mais (1991), dando início ao registro de produção autoral que se tornaria predominante em discos posteriores.


Como Marisa Monte pertencia ao elenco da gravadora EMI, multinacional de origem inglesa, outras companhias fonográficas começaram a buscar cantoras igualmente ecléticas que pudessem rivalizar com Marisa no mercado. Foi nesse contexto que a gaúcha Adriana da Cunha Calcanhotto teve abertas para si as portas de outra multinacional, a Columbia (CBS), por onde estreou em 1990 – um ano antes de a companhia ser rebatizada internacionalmente com o nome de Sony Music – com disco de repertório variado, sintomaticamente intitulado Enguiço. Disco gélido de repertório imposto pela gravadora, feito na época da transição dos LPs para os CDs, Enguiço travou a veia autoral de Calcanhotto, que somente iria pulsar com vitalidade a partir do segundo álbum da artista (o primeiro realmente relevante), Senhas (1992).


Livre das amarras estéticas do mercado fonográfico, Calcanhotto se tornou – ao lado da própria Marisa Monte, de quem acabou virando parceira em 2006 – um dos exemplos mais significativos de artistas que conquistaram a liberdade criativa na diversa cena contemporânea brasileira. São cantoras geralmente compositoras com maior autonomia artística e poder de decisão no gerenciamento das próprias carreiras.


(No próximo texto, Cássia Eller, Daniela Mercury, Ivete Sangalo e o canto feminino na década de 1990)

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