Reflexões sobre a esquerda e a direita

Arrumando minha biblioteca, empreendimento que sempre recomeça e nunca termina, encontrei um livro do cientista político italiano Norberto Bobbio que está esgotado no Brasil há muito tempo, mas que levanta questões pertinentes e atualíssimas: “Esquerda e direita – Razões e significados de uma distinção política”. É um tema diretamente relacionado ao livro que estou escrevendo. O post desta semana é um fragmento provisório desse livro.

De tempos em tempos faço na internet o teste do Diagrama de Nolan, um elaborado questionário formulado para classificar a orientação política das pessoas. Mesmo discordando da formatação enviesada de algumas perguntas, procuro responder de forma honesta a todas elas, e o resultado é sempre o mesmo: “esquerda moderada”, ou “centro-esquerda”, ou “socialdemocracia” – os termos em português variam, conforme a fonte. E esse resultado invariavelmente surpreende aqueles amigos e conhecidos que, ainda alinhados (apesar de tudo) ao campo lulopetista, aprenderam a enxergar como direitistas todos aqueles que se opõem ao PT – e, portanto, me rotulam alegremente como um coxinha reacionário e fascista, ou coisa pior.


Considero a eficácia do Diagrama de Nolan bastante questionável, mas por isso mesmo ele serve para demonstrar a fragilidade, no mundo complexo e plural em que vivemos hoje, da persistência desse gradiente ideológico que vai da extrema esquerda à extrema direita, utilizado há mais de dois séculos para classificar (e dividir) as pessoas. No Brasil, em particular, é recorrente o uso de definições genéricas e superficiais de direita e esquerda por jornalistas e mesmo por políticos, o que só piora as coisas.

No ambiente político belicoso em que vivemos, rotular alguém com base em estereótipos maniqueístas é uma armadilha perigosa. Até porque nenhuma divisão binária é mais capaz de dar conta da complexidade e das contradições da sociedade contemporânea. Pior ainda quando essa divisão se faz sem que exista um consenso claro em torno do significado de esquerda e direita. O objetivo deste texto é contribuir para a relativização desses conceitos e, ao mesmo tempo, investigar como eles foram usados para acirrar a guerra de narrativas em curso no país; a contribuição será modesta, mas a revisão se faz urgente e necessária.

Um debate intenso sobre a pertinência das ideias de esquerda e direita, aliás, já aconteceu nos anos subsequentes à queda do Muro de Berlim. O colapso da União Soviética também impactou profundamente a geopolítica internacional, contribuindo para uma percepção crescente de indiferenciação entre os programas dos partidos políticos.


Não foram poucos, na primeira metade dos anos 90, os autores que pregaram a superação dessa dicotomia, como o sociólogo inglês Anthony Giddens (no livro “Para além da esquerda e da direita”).

Outros, como o cientista político italiano Norberto Bobbio, defendiam a sua validade permanente (“Direita e esquerda – Razões e significados de uma distinção política”), ainda que fosse necessário promover a revisão de seus conteúdos simbólicos fixados em um contexto histórico radicalmente diferente.

Ou seja, já faz tempo que se reconhece que o sistema classificatório baseado na escala esquerda/direita precisa ser revisto. Seu potencial explicativo é cada vez menor, até porque contextos sociais e culturais plurais fazem com que as definições desses conceitos sejam variáveis, caso a caso. Nos países europeus, a defesa do internacionalismo é um elemento constitutivo da esquerda, critério que faz pouco sentido na política de países como o Brasil, que não passaram pelos processos históricos revolucionários que moldaram a visão europeia da política.

Mas esse debate, um tanto abstrato, acabou se perdendo em meio a crises econômicas e políticas mais concretas que sacudiram o planeta a partir de outra queda, a das Torres Gêmeas, em 2001. Desde então, o foco das atenções se deslocou do fim da História previsto por Francis Fukuyama (com a profecia fracassada da democracia liberal como horizonte definitivo das sociedades) para o choque de civilizações diagnosticado, de forma mais pessimista (ou realista), por Samuel Huntington.

Talvez tenha chegado o momento de retomar a discussão sobre direita e esquerda – especialmente no Brasil, onde a cada eleição aumentam o ódio e a agressividade dos discursos políticos em disputa; ódio e agressividade potencializados pela dinâmica da hiperconectividade digital e das interações instantâneas e viralizantes das redes sociais.

(Quando falamos em viralização, pensamos na rápida disseminação de um determinado post ou informação. Mas é preciso evocar também o significado primário da palavra “vírus” como hospedeiro de uma doença contagiosa, da qual todos nos tornamos portadores. Viralizar, no ambiente político da guerra de narrativas em curso do Brasil contemporâneo, frequentemente também significa contaminar as pessoas de tal forma e em tal ritmo que o tecido social inteiro adoece, com consequências trágicas. Estas, como sempre, são sofridas especialmente por aqueles que desenvolveram menor imunidade ao vírus – e que não dispõem sequer de condições materiais para enfrentar seus sintomas.)

Não basta como solução admitir que existem diversas “esquerdas” e “direitas”, porque umas e outras acabam formando dois grandes campos quando chega a hora do embate discursivo das disputas eleitorais – por mais que se afirmem posições de independência dentro de cada bloco. Por exemplo, no discurso e na pose, o PSOL e outros partidos ditos de esquerda gostam de se afirmar independentes e críticos; na prática, aliaram-se com fervor religioso a Dilma Rousseff e ao PT ao longo de toda a crise que culminou no impeachment, reforçando assim a divisão entre “nós” e “eles” (“nós”, sempre democratas e progressistas; “eles”, sempre fascistas e golpistas).

Dilma caiu, mas a crise política continua. A divisão dos brasileiros entre “nós” e “eles” também. Caminhamos sobre gelo fino – e sem saber o que encontraremos do outro lado da travessia.

1 O Diagrama de Nolan é um gráfico criado por David Nolan em 1969. O diagrama divide as orientações políticas humanas em dois vetores – liberdades econômicas e liberdades individuais – produzindo um plano cartesiano. Nolan o criou para ilustrar sua tese de que o libertarianismo defende tanto as liberdades econômicas quanto as liberdades individuais, em contraste tanto com a esquerda quanto com a direita.

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