Qinho seduz no solo da paixão pela obra da musa Marina em show no Rio


Em 1979, Marina Lima já era moderna quando subiu pela primeira vez ao palco do Teatro Ipanema, badalado point cultural da Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro (RJ), para lançar o primeiro álbum, Simples como fogo. Marina tinha 24 anos e o carioca Marcus Coelho Coutinho ainda nem tinha nascido. Em 1984, Marina estava cada vez mais moderna quando voltou ao Teatro Ipanema para lançar referencial álbum, Fullgás, em que incorporou os beats eletrônicos à obra fonográfica. Marina fazia 29 anos quando Marcus nasceu naquele ano de 1984.


Na noite de ontem, 13 de julho de 2017, Marina – ainda e sempre moderna – retornou ao já mítico Teatro Ipanema, após três décadas, para participar do show em que Marcus, vulgo Qinho, viveu instante consagrador da carreira musical ao cantar o repertório da cantora e compositora em show azeitado feito com ingressos esgotados dentro da Ocupação Vem! Ágora, projeto de residência e resistência artística que vem devolvendo ao Teatro Ipanema o posto de palco propagador de notas e tendências musicais.


Marina fará 62 anos em setembro. Qinho já festeja 32 anos. “Toda idade tem seu charme”, sentenciou Marina, numa espécie de caco posto em Charme do mundo (Marina Lima e Antonio Cicero, 1981), primeira música que cantou com Qinho ao subir ao palco do Teatro Ipanema, como convidada, chamada pelo anfitrião no que o próprio Qinho conceituou como “momento especial da noite”.


A participação realmente especial de Marina deu charme ao show e valorizou a apresentação de caráter histórico dentro da perspectiva das trajetórias dos dois artistas. Mas o fato é que, mesmo sem a adesão de Marina, o projeto Fullgás – Qinho canta Marina Lima é por ora o ápice da carreira desse cantor, compositor e músico carioca que esteve à frente da banda VulgoQinho&OsCara de 2004 a 2009.


Estreado em agosto de 2016, o show já virou especial de TV – apresentado dentro da série Versões, do Canal Bis – e EP lançado em maio deste ano de 2017. A apresentação de ontem no Teatro Ipanema, com Marina com a voz (e o humor…) em forma, abençoou o show e expôs a evolução de Qinho como cantor. Mas o canto soaria inócuo se a abordagem do repertório de Marina não tivesse resultado em cena tão charmosa, moderna e contemporânea quanto a própria artista homenageada. Aí entra o mérito de Gui Marques, com quem Qinho forma a dupla T.R.U.E., produtora do EP Fullgás (2017).


O toque de Gui nos teclados, no baixo synth e nas programações é a alma da banda completada com o baterista Carlos Salles e com o próprio Qinho na guitarra. Tanto que a própria Marina incensou a banda em cena, no show de ontem. Desde a primeira música, À francesa (Cláudio Zoli e Antonio Cicero, 1989), saltou aos ouvidos o frescor com que Qinho aborda a obra de Marina em roteiro calcado em sucessos – o que elevou o poder de sedução do show.


Por mais que a pulsação original de Criança (Marina Lima, 1991) já tenha sido identificada nos primeiros beats eletrônicos, quase nada é do jeito que já foi um dia. Dentro dessa atmosfera sintética, a balada Nada por mim (Herbert Vianna e Paula Toller, 1985) ganhou corpo e suingue. Já Pé na tábua (Ordinary pain) (Stevie Wonder, 1976, em versão em português de Antonio Cicero e Sérgio de Souza, 1984) – música que Marina fez questão de cantar com Qinho em improvisado número do bis feito com a adesão afetiva de Fernanda Abreu, convidada a subir ao palco sem aviso prévio – reverberou balanço funky que também faz parte do repertório de Marina.


Após cantar Charme do mundo com Qinho na ambiência eletrônica que caracteriza o show, Marina sentou, pegou o violão e fez set eletroacústico com Qinho na guitarra. Foi nessa atmosfera que as canções Virgem (Marina Lima e Antonio Cicero, 1987) e O solo da paixão (Marina Lima e Antonio Cicero, 1996) – lado B que entrou no roteiro a pedido de Marina e que adensou a apresentação, resultando num dos números mais belos do show – foram apresentadas para uma plateia embevecida ao assistir encontro tão harmonioso. Qinho e Marina se afinaram em cena.


Na sequência, Paris-Dakar (Marina Lima e Alvin L, 2001) – música de um dos álbuns menos ouvidos de Marina, Setembro (2001) – decolou na ponte eletrônica com tal peso no batidão que poderia figurar no set de uma rave. Música mais descaradamente pop do repertório (não autoral) de Marina, hit há 30 verões, Uma noite e 1/2 (Renato Rocketh, 1987) foi encorpada com o groove sintético da banda. Já a lembrança de Pessoa (Dalto e Cláudio Rabello, 1983) – canção que Marina tomou para si ao regravá-la no álbum O chamado (1993) – aumentou a empatia entre artista e público.


Encerrado com Acontecimentos (Marina Lima e Antonio Cicero, 1991), o show teve apoteótico bis, aberto com Fullgás (Marina Lima e Antonio Cicero, 1984) e fechado com À francesa, com direito a Fernanda Abreu dançando funk como popozuda. Enfim, a magia se fez na volta de Marina ao Teatro Ipanema para avalizar o especial momento musical de Marcus Coelho Coutinho, vulgo Qinho. Esse cara é bom e seduz no solo da paixão pela (obra da) musa! E ela, a musa Marina Lima, sempre foi ótima! (Cotação: * * * *)


Eis o roteiro seguido em 13 de julho de 2017 por Qinho na apresentação do show Fullgás – Qinho canta Marina Lima no Teatro Ipanema, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), com as participações de Marina Lima e Fernanda Abreu:


1. À francesa (Cláudio Zoli e Antonio Cicero, 1989)

2. Nada por mim (Herbert Vianna e Paula Toller, 1985)

3. Criança (Marina Lima, 1991)

4. Veneno (Veleno) (Alfredo Polacci, 1948, em versão em português de Nelson Motta, 1984)

5. Pé na tábua (Ordinary pain) (Stevie Wonder, 1976, em versão em português de Antonio Cicero e Sérgio de Souza, 1984)

6. Charme do mundo (Marina Lima e Antonio Cicero, 1981) – com Marina Lima

7. Virgem (Marina Lima e Antonio Cicero, 1987) – com Marina Lima

8. O solo da paixão (Marina Lima e Antonio Cicero, 1996) – com Marina Lima

9. Paris-Dakar (Marina Lima e Alvin L, 2001) – com Marina Lima

10. Pessoa (Dalto e Cláudio Rabello, 1983)

11. Uma noite e 1/2 (Renato Rocketh, 1987)

12. Acontecimentos (Marina Lima e Antonio Cicero, 1991)

Bis:

13. Fullgás (Marina Lima e Antonio Cicero, 1984) – com Marina Lima

14. Pé na tábua (Ordinary pain) (Stevie Wonder, 1976, em versão em português de Antonio Cicero e Sérgio de Souza, 1984) – com Marina Lima e Fernanda Abreu

15. À francesa (Cláudio Zoli e Antonio Cicero, 1989) – com Marina Lima e Fernanda Abreu


(Créditos das imagens: Qinho, Marina Lima e Fernanda Abreu em fotos de divulgação de Francisco Costa / I Hate Flash)

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