Xande oscila na roda do samba em que gira o disco ‘Esse menino sou eu’


Xande de Pilares oscilou entre as tradições dos fundos de quintais e o discurso dirigido às mulheres que frequentam baladas ao longo do repertório do primeiro álbum solo, Perseverança (2014), lançado há três anos no rastro da então recente saída do artista carioca do Grupo Revelação. Em Esse menino sou eu (Universal Music), álbum solo produzido por Prateado (ocupando o posto que foi de Leandro Sapucahy no disco anterior), Xande ainda balança, nem sempre com equilíbrio.


As regravações pagodeiras de sucessos de Benito Di Paula e Djavan – Ah! Como eu amei (Jota Velloso e Ney Velloso, 1981) e Alegre menina (Dori Caymmi e Jorge Amado, 1975) – sinalizam certa insegurança em relação ao repertório inédito, a rigor realmente irregular, além de banalizar as ótimas composições.


Entre aceno ao álcool como lenitivo em Cuca quente (Claudemir da Silva, Ricardo Moraes e Serginho Meriti) e a ode ao cavaquinho feita (com clichês) em Cavaco vadio (Paulinho Rezende, Totonho e Osmar Santos), Xande canta com os bambas Zeca Pagodinho e Jorge Aragão. Zeca é o convidado de Homem de lata (Cassiano Andrade, Rick Oliveira, Thiago Tomé e Fred Camacho), samba quente que alfineta tanto homens sem sensibilidade como mulheres carentes que os aceitam para escapar da solidão. Já Aragão é parceiro e convidado de Xande em A lã e o cobertor, samba mais macio que evidencia a poesia popular característica do cancioneiro de Aragão.


Com a autoridade de ter posto Xande no mundo, Maura Helena faz participação afetiva em Mãe (Xande de Pilares, Gilson Bernini e Helinho do Salgueiro), samba sentimental em que mãe e filho expressam afetos e chavões da relação.


Os arranjos de Prateado têm ao menos o mérito de priorizar o baticum em detrimento dos teclados, presentes no disco, mas de forma menos ostensiva do que nos álbuns de pagode romântico. Música homônima da canção lançada em 1981 pelo cantor Beto Guedes, O sal da terra – parceria de Xande com o produtor Prateado – ostenta a melodia mais bonita dentre as composições inéditas de um álbum que resulta longo, com 17 faixas.


A questão é que os sambas carecem de originalidade. Quem não sambou (Fernando Magarça, Gilson Bernini e André Renato) tem cacife para animar rodas e pagodes, mas remete aos melhores sambas do Revelação. Mesmo que soe empolgante, Quem não sambou soa déjà vu, assim como a louvação a São Jorge feita por Xande em Eu sou de Jorge com a adesão de André Renato, parceiro de Leandro Fab na composição.


Há também sambas que soam menos inspirados independentemente de ressoarem ou não clichês, caso de Consensualidade (Xande de Pilares e Prateado). Roda de pandeiro (André Renato, Prateado e Carica) também pouco faz pelo disco, mas, ao menos, reforça a tendência de o álbum Esse menino sou eu se situar mais nos quintais batuqueiros do que no universo do pagode romântico, roçado em Verdadeiro amor (Xande de Pilares).


No estilo do Revelação, grupo que se projetou com a marca autoral de Xande, Tem que provar que merece (André Renato, Xande de Pilares e Gilson Bernini) reforça o DNA do compositor, artista que celebra a própria trajetória e a criação no Morro do Turano, na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro (RJ), no samba-título Esse menino sou eu (Xande de Pilares, Helinho do Salgueiro e Gilson Bernini).


Enfim, Xande de Pilares ainda oscila na roda, entre clichês, mas o segundo álbum solo do artista tem lá bons momentos. Fosse mais enxuto, soaria mais coeso. (Cotação: * * 1/2)


(Crédito da imagem: capa do álbum Esse menino sou eu. Xande de Pilares em foto de Guto Costa)

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