Guerra de orixá: carne, sangue e espírito


Recebi uma simpática e honrosa mensagem de um estudante do primeiro período do curso de ciências sociais da universidade estadual do Piauí, em Parnaíba, me pedindo algumas palavras sobre meu livro Guerra de orixá: um estudo de ritual e conflito, que estão lendo para a aula de antropologia.

Caros estudantes, eu era professora do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ desde março de 1969 e tinha de cumprir muitas horas de aula. A universidade estava recebendo mais alunos com a abertura de vagas e as turmas eram enormes. Vivíamos na ditadura militar e o nosso Instituto era especialmente visado. Eram anos difíceis.

A história, porém, nos leva por caminhos inesperados. Em 1968 Roberto Cardoso de Oliveira abriu um programa de mestrado no Museu Nacional, em moldes novos, cujos professores estrangeiros e brasileiros eram jovens e entusiasmados. Fui da segunda turma desse programa e iniciei os cursos em agosto de 1969. Nestes cursos aprendi muito, li muito e entrei no mundo da antropologia social britânica pelas mãos do meu orientador Roberto DaMatta. Em 1971 tive a oportunidade de passar um ano como Special Student na Universidade do Texas em Austin. Lá abriu-se outro universo. A universidade abrigava em sua biblioteca o melhor acervo dos Estados Unidos, o que vale dizer do mundo, sobre América Latina. Eu havia decidido estudar a umbanda e não tinha um projeto bem definido. Passei um ano lendo tudo o que havia sido escrito sobre o que chamávamos na época de cultos afro-brasileiros, ou religiões de origem africana.

Quando regressei ao Brasil, em 1972, era tempo de iniciar o trabalho de campo. Em uma das minhas aulas no IFCS, um estudante, com o qual conversava bastante, convidou-me para a inauguração do terreiro que ele estava dirigindo como presidente. Achei que era o momento de iniciar a pesquisa de campo e aceitei o convite.

Naquele tempo, a maioria dos estudiosos da religião escolhia centros tradicionais, “de origem africana”. Eu me aventurei a estudar como se inicia uma casa de santo. Foram dias de intenso trabalho em idas ao terreiro com a cabeça e o coração aos pulos. Quem leu o livro se lembra da minha descrição do nascimento, da vida e a da morte do terreiro. Um drama que se passou em poucos meses.

Recentemente meu orientador e grande amigo Roberto DaMatta lembrou-me de um momento que não contei no livro. Um dia, ao chegar ao Museu Nacional, entrei em sua sala com rosto angustiado, e falei entre os dentes: “Minha pesquisa acabou, o terreiro fechou. Não vou mais poder fazer a dissertação”. Com a alegria e confiança de sempre Roberto DaMatta me disse firme: “Engana-se, agora é que ela começou”.

Foi o exatamente o que aconteceu. Daquele dia em diante tive de procurar entender a história e saber as razões dos eventos, dos imponderáveis da vida social, como disse Malinowski. Acabei descobrindo, por meio da leitura exaustiva de Victor Turner e do seu conceito de drama social, que havia uma estrutura no processo de mudança e nas transformações ocorridas no terreiro estudado.

Foram meses de escrita. Era preciso descrever o que eu tinha vivido e esta parte foi difícil para uma iniciante. A leitura das monografias clássicas e , os artigos de Max Gluckman, “Análise de uma situação social na Zululândia moderna” e “Kalela dance” ajudaram muito. Além disso, é claro, os livros Schism and continuity in an African society, Forest of symbols e O processo ritual de Victor Turner foram essenciais. Aprendi com eles a importância, para a antropologia, do estuda de situações sociais e da etnografia escrita com simplicidade e rigor. Esse ensinamento me fez fugir da vertente muito em voga hoje, baseada em excessivas entrevistas e pouca etnografia, como disse em uma aula sobre a Escola de Manchester, o meu amigo e também orientador Peter Fry.

Houve ainda uma escolha minha. Nas leituras que fiz sobre as religiões de origem africana sempre considerei um tanto enfadonha a abordagem da maioria dos autores, pois sempre buscavam as origens desses rituais. Aproximei-me então de duas obras que foram e são inspiração até hoje: O animismo fetichista dos negros baianos de Nina Rodrigues e o maravilhoso A cidade das mulheres das mulheres de Ruth Landes (tive a oportunidade de reeditar as duas obras muito mais tarde, pela Editora da Universidade Federal do Rio de janeiro). Esses dois livros me guiaram porque contam, embora com todos os limites da época em que foram escritos, uma situação social, e dão vida aos personagens que amaram, sofreram e tiveram alegrias no contexto religioso e ritual. Descrevem os conflitos, as tristezas e os dissabores que são universais, porém se revestem de cores muito particulares da cultura em que estão inseridos.

Espero que a leitura de Guerra de orixá ajude, Zé Filho, que me enviou a simpática mensagem, e os alunos do professor de antropologia Jonas Oliveira. Que esta monografia seja uma pequena contribuição para que os estudantes que desejem seguir a trilha da pesquisa etnográfica, busquem a “carne”, o “sangue” e o “espírito” do grupo que escolherem pesquisar, como nos ensinou Bronislaw Malinowski no seu livro Os argonautas do Pacífico Ocidental.

Créditos das imagens: Daniel Brito/TV Globo e Divulgação/Editora Jorge Zahar

Salvar

Salvar

Salvar

Salvar

Salvar

Salvar

Salvar

Deixe uma resposta