“Soundtrack” estabelece um diálogo entre a arte e a ciência


Embora seja um filme estranho e, de certa forma, difícil, “Soundtrack”, dirigido pela dupla de cineastas que responde pelo nome “300 ml” (autores do curta “Tarantino’s mind”), levanta diversas questões interessantes sobre a natureza da arte e da ciência, sobre o diálogo entre seus respectivos discursos e sobre questões mais abstratas, como o sentido do sucesso, do reconhecimento e do crédito.

 

Selton Mello interpreta Cris, um fotógrafo e artista plástico em crise existencial, que passa uma temporada em uma estação de pesquisa no Polo Norte, Lá ele pretende desenvolver seu novo projeto: tirar uma série de selfies que, acompanhadas por determinadas músicas, registrarão os seus estados de espírito em situações extremas. Ao mesmo tempo, Cris é desempenha o papel do estranho que se integra a um grupo e subverte o funcionamento de suas regras sociais.

 

Da mesma forma que a ideia por trás do projeto do artista-fotógrafo é proporcionar ao público de uma futura exposição o contato direto com sua experiência interior, “Soundtrack” tenta proporcionar ao espectador uma experiência de imersão na paisagem gelada e devastada em que vivem quatro cientistas – o botânico brasileiro Cao (Seu Jorge), o especialista britânico em aquecimento global Mark (Ralph Ineson), o biólogo chinês Huang (Thomas Chaanhing) e o pesquisador dinamarquês Rafnar (Lukas Loughran) – que recebem Cris na estação.

 

Assista abaixo ao trailer de “Soundtrack”

 

A situação de isolamento dos cinco homens potencializa as diferenças e conflitos entre duas formas de perceber o mundo. Um dos méritos do filme é, justamente, retratar essa relação de mútua estranheza por meio de recursos narrativos sutis, evitando, até certo ponto, a armadilha de estereótipos maniqueístas. Nas conversas entre Cris e seu anfitrião Mark, aliás, quem tem coisas mais interessantes a dizer sobre questões ligadas à espiritualidade e ao sentido da vida é o cientista, não o artista.

 

Um momento importante do filme é o diálogo que Mark e Cris travam sobre o futuro reconhecimento pelos seus trabalhos. O cientista integra um projeto cujos frutos só serão conhecidos em 90 anos, o que parece chocar Cris, movido por um senso de urgência não desprovido de vaidade – explicitada no próprio conceito de seu projeto – e ambições financeiras (“O mercado de arte é o mais lucrativo do mundo”).

 

É possível, por outro lado, fazer várias ressalvas a “Soundtrack”. O processo de radicalização da angústia interior de Cris, que o levará ao mergulho sem roupa em fumaças infernais, parece um pouco abrupto; a trilha sonora, anda que inventiva, desempenha uma função menos orgânica na narrativa do que seria de se esperar, a julgar pelo título do filme; por fim, o conceito do projeto artístico parece um pouco simplório e pueril, impressão reforçada pelas imagens finais do filme. Em momentos recorrentes, os cientistas se perguntam se Cris não estaria fazendo algo genial. Pois é, eu também me fiz esta pergunta enquanto assistia ao filme: tirar selfies na neve é um projeto genial, ou mesmo relevante?

 

De forma algo paradoxal, “Soundtrack” termina associando o sucesso do artista ao reconhecimento, ainda que póstumo, da mídia. Esse desenlace reforça, de forma deliberada ou não, a impressão de que a arte hoje é indissociável da lógica do show business, na qual a régua da qualidade da um a obra é o espaço conquistado na mídia, ou seu valor no mercado.

 

Ainda assim, só pelo fato de ousar trilhar caminhos incomuns. “Soundtrack” merece ser assistido. Como algumas obras de arte contemporânea, ele pode provocar desconforto na hora, mas voltará mais tarde à cabeça do espectador e o levará a refletir sobre questões importantes.

 

Deixe uma resposta