Obra infantil de Sullivan & Massadas gira mal no ‘Carrossel de esperança’


É boa, em tese, a ideia de reciclar os memoráveis hits infantis do cancioneiro da dupla de compositores Michael Sullivan & Paulo Massadas. Desvalorizada (com certa razão) pelos críticos musicais da época por conta da produção industrial de canções para artistas de todos os gêneros, a dupla Sullivan & Massadas fez muita música ruim. Em contrapartida, os compositores também acertaram muito, criando dezenas de canções enraizadas na memória afetiva dos ouvintes de músicas dos anos 1980, década áurea da industrializada produção da dupla. Entre essas boas canções de inegável apelo popular, há os 11 hits infantis reunidos no álbum Carrossel de esperança (Warner Music), produzido por Sullivan com elenco formado por astros do funk, do pagode e do sertanejo.


Infelizmente, a audição do disco mostra que a ideia foi, no todo, mal concretizada. E acontece o que, em tese, parecia impossível: as releituras de músicas como Brincar de índio (1986) e Lua de cristal (1990) soam mais sedutoras nas gravações originais da apresentadora de TV Xuxa Meneghel, que nunca foi cantora em que pesem os bons discos gravados nos anos 1980 e 1990, do que nos registros de Buchecha e Ludmilla, respectivamente.


Os arranjos criados por Sullivan com o tecladista Junior Amaral são demasiadamente reverentes ao tom tecnopop das gravações originais. Lua de cristal ainda ilumina ligeiramente o toque pop funk do som de Ludmilla, mas sem romper com a arquitetura sonora da década de 1980. Brincar de índio realça por vezes o tom funk melody do som de Buchecha, mas a brincadeira perde a graça. Há excesso de teclados nos arranjos pasteurizados do disco.


Esse apego excessivo ao som dos anos 1980 fica bem evidenciado nas regravações da bela música-título Carrossel de esperança (1984) – obra-prima da dupla de compositores no gênero infantil, lançada no seminal álbum Clube da criança na vozes de Xuxa, Patrícia Marx e Luciano Nassyn – e de He-Man (1986), hit do Trem da Alegria rebobinado pela dupla sertaneja Marcos & Belutti. Mas, justiça seja feita, o mix do tecnopop com a sanfona sertaneja tocada por Michel Teló em Carrossel de esperança valoriza a gravação da música (bem) cantada por Teló. É a faixa que mais desce redonda ao longo do giro do disco, reiterando o talento de Teló.


O grupo Dream do Passinho também consegue sobressair no elenco ao trazer Parabéns da Xuxa (1986) para o sintético universo musical do tamborzão do funk carioca. De toda forma, sair do universo original das músicas tampouco é garantia de êxito. Sucesso do já mencionado álbum Clube da criança (1984), É de chocolate perde o delicioso sabor original ao cair no pagode de Thiaguinho em gravação feita em dueto com o próprio Michael Sullivan. O mesmo vale para Sonho de amor (1991), hit (mais adolescente do que infantil, diga-se) na voz de Patrícia Marx que, na gravação de Bruno, vocalista do grupo de pagode Sorriso Maroto, perde o poder de sedução.


Já o casal MC Guimê e Lexa consegue pôr certo charme em Certo ou errado (1988), outro sucesso de Patrícia Marx, cantora que fez a transição de estrela mirim para artista adolescente a reboque das canções de Sullivan & Massadas. Solange Almeida e a dupla Thaeme & Thiago também brincam adequadamente com Iô-iô (1988) e Pra ver se cola (1988), mesmo sem bisarem o êxito das gravações originais desses dois sucessos do álbum lançado pelo Trem da Alegria em 1988 (Iô-iô foi hit gravado pelo grupo infantil com a adesão da recorrente Xuxa).


No fecho do CD, Amigos do peito (1991) – música lançada pelos Trapalhões com o reforço da dupla Chitãozinho & Xororó – ganha tom de pregação pop na gravação que junta os cantores de música evangélica Anayle Sullivan, Daniela Araújo, Pregador Luo e Régis Danese.


Enfim, o giro desses hits em Carrossel de esperança soa requentado. Por melhores que sejam as músicas, há registros ruins. Mas o pior é o texto da edição em CD sequer fazer menção a Paulo Massadas, parceiro de Sullivan na criação dessas boas canções capazes de alegrar crianças de todas as idades, em qualquer tempo. (Cotação: * *)


(Crédito da imagem: capa do álbum Carrossel de esperança. Foto de Felipe Nobre)

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