Climas noturnos jogam álbum solo de Letrux na pista da ressaca amorosa


Há cantores e grupos da cena contemporânea brasileira que vivem dentro de uma bolha, protegidos por rede de amigos influentes que incluem jornalistas da área musical, artistas e simpatizantes com ares e poses de formadores de opinião. Formado pela cantora Letícia Novaes com o guitarrista Lucas Vasconcellos, o desativado duo carioca Letuce jamais conseguiu sair dessa bolha tão indie quanto dependente de elogios dessas listas amigas. Ao Letuce, que saiu de cena em 2016, foi muitas vezes atribuída importância que o duo jamais teve. Disponível nas plataformas digitais a partir de hoje, 10 de julho de 2017, o álbum Letrux em noite de climão (Joia Moderna / Tratore) é a primeira empreitada solo de Letícia Novaes após o fim do Letuce.


Construído com sintética arquitetura sonora pelos produtores Arthur Braganti (teclados e synths) e Natália Carrera (guitarra, synths e programações eletrônicas), o disco resulta sem fôlego para tirar Letícia Novaes dessa bolha digital, ainda que soe mais interessante do qualquer um dos três álbuns do Letuce. Lançado há uma semana, o single Coisa banho de mar (Letícia Novaes) sinalizou no refrão um álbum de cepa pop, como tentou ser Estilhaça (2015), último álbum do Letuce. Mas a pista é falsa.


Com 11 músicas introduzidas por bela Intro (dos lapidares versos “Que engraçado/ Sobrou tão pouco/ Que tragédia/ Foi tudo tanto/ Que engraçado/ Cê não tá louco/ Que tragédia/ Eu tô um pouco”) e entremeadas por Interlúdio em que a artista recita versos em espanhol, Letrux em noite de climão é disco entranhado em denso universo eletrônico, ainda que permeado pelos toques orgânicos do baixo de Thiago Rebello e da bateria e das percussões de Lourenço Vasconcellos. A própria Letícia Novaes toca guitarra em 5 years old (Letícia Novaes), música que fecha o álbum gravado no estúdio Toca do Bandido, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), entre abril e maio deste ano de 2017.


O universo em si do disco é sedutor. Só que a produção autoral da compositora é irregular, gerando músicas de melodias sempre inferiores às letras, como a citada Coisa banho mar. Há destaques como Vai render (Letícia Novaes) e, sobretudo, Ninguém perguntou por você (Letícia Novaes), faixa de clima inicialmente minimalista que cai na pista da dance disco music. Os versos altivos desta música (a melhor do disco) parecem endereçados ao ex, Lucas Vasconcellos, parceiro de Letícia na pop roqueira Além de cavalos e também o provável muso inspirador da viajante Amoruim (Letícia Novaes e Thiago Vivas).


Sim, há a participação da simpatizante Marina Lima em música, Puro disfarce, que jamais disfarça o fato de soar como tema menos inspirado da produção pós-anos 2000 da própria Marina. Mas nem a adesão (sempre relevante) de Marina altera o status do álbum.


Não fosse a moldura eletrônica de Letrux em noite de climão, a contundente Que estrago (Letícia Novaes e Bruna Beber) – música gravada com Ana Cláudia Lomelino, DUDA BEAT e Martha V – poderia estar em disco de punk rock. Mas músicas como Flerte revial (Letícia Novaes) mantêm Letrux em noite de climão na pista particular da artista.


A questão é que, à medida que avança o disco, vão aparecendo composições mais insossas, casos de Noite estranha, geral sentiu (Letícia Novaes). A melodia soa sem força para fazer frente à poética da ressaca afetiva que jorra ansiosa na madrugada. Música bilíngue que começa em inglês e termina em português, Hypnotized (Letícia Novaes e Bernardo Ramalho) faz jus aos títulos da composição e do disco pelo tom climático mixado com baticum.


Gerado por ressaca amorosa, o climão noturno e por vezes soturno de Letrux soa mais envolvente do que as músicas em si, cabe ressaltar novamente. O que deverá manter Letícia Novaes imersa na bolha de proteção que impede o alcance da obra por público mais amplo, fora da rede de amigos. (Cotação: * * 1/2)


(Crédito da imagem: capa do álbum Letrux em noite de climão. Letícia Novaes em foto de Ana Alexandrino)

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