Voz do metrô carioca, Zanna ecoa bossas e sambas em álbum autoral


Quem mora na cidade do Rio de Janeiro (RJ) e anda de metrô certamente já ouviu a voz de Zanna. Desde 2011, é Zanna quem anuncia as estações e dá os avisos aos passageiros. A partir deste segundo semestre de 2017, o desafio da cantora, compositora e violonista carioca é ser ouvida como artista dona de obra autoral.


Uma amostra desse cancioneiro próprio está no álbum Zanna, produzido por Moogie Canazio (um dos melhores engenheiros de som de todos os tempos) e recém-lançado de forma independente. A artista considera Zanna o primeiro álbum da carreira, mas um CD lançado em 2003 – creditado a Zanna e à fíctícia banda Os Eletrons – também pode ser posto na conta da discografia da cantora.


Com exceção de Bonecos reis, samba composto por Zanna com Renato Grecco e arranjado (com cordas e metais) por Rildo Hora, a compositora assina sozinha todas as outras 12 músicas do disco. Uma, Babe, não aparece listada na contracapa e tampouco no encarte da edição em CD entre as 11 faixas oficiais, mas está escondida após a última música do disco, Esquecida.


Gravado entre agosto de 2016 e abril deste ano de 2017, na ponte área que liga a cidade do Rio de Janeiro (RJ) a Los Angeles (EUA), terra onde Canazio está radicado, o álbum Zanna recai no samba em Alice e reverbera climas da carioca bossa nova em músicas como Vento de praia Nordeste, Deixa, a já mencionada Esquecida e o bolero L’amore, composto em italiano com provável evocação de Estate (Bruno Martino e Bruno Brighetti, 1960), abolerada canção italiana que João Gilberto tomou para si no referencial álbum Amoroso (1977), lançado há 40 anos.


Embora valorizado por produção luxuosa (que inclui cordas e metais arranjados pelo maestro Eduardo Souto Neto) e pela presença de músicos extraordinários (casos do baixista Jorge Helder, do percussionista Marcelo Costa e do trombonista Marlon Sette, entre outros), o álbum acaba expondo a irregularidade da produção autoral de Zanna. A safra da compositora tem acertos como a toada nordestina Menina de vento, gravada com os toques do acordeom de Bebê Kramer e da viola de 12 cordas de Jaime Alem, mas se revela sem força para sustentar um álbum inteiro.


Com a participação vocal de Claudio Nucci (cujo canto remete muito a Zé Renato em Se), o álbum Zanna teria maior poder de sedução se o repertório autoral fosse entrelaçado com algumas canções de lavras alheias para justificar a suntuosa produção do disco e facilitar a absorção do canto afinado da artista. (Cotação: * * 1/2)


(Crédito da imagem: capa do álbum Zanna. Foto de Adriano Fagundes. Projeto gráfico de Rachel Lima)

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