À procura do jazz e demais delícias em NY

Em meio a tantas incertezas, uma coisa é óbvia, o golpe branco fez o Brasil piorar muito. Imagino que muitos coxinhas, paneleiros e isentões percebam agora a porcaria que ajudaram a instalar. Tirar Dilma manipulando as regras e graças a votos de congressistas suspeitos de falcatruas de todo o tipo não era solução para coisa alguma. Daí insistir no tema, no #foratemer e na necessidade de #diretasjá. Afinal, aquele Maia, parte da trama patética desde o início, não é solução para nada. Está dando ruim, portanto, #foramaia!

Mas, na reta final dessas quase férias nova-iorquinas, não vou ficar esquentando a cabeça com as notícias sobre o Brasil em transe que acesso pela internet. Melhor dividir algumas impressões dos últimos dias, boa parte deles gastos em longas caminhadas e olhos virados para o alto. Como Tom Jobim
comentava (e K lembrou ao seu neto, Daniel, com quem encontramos num restaurante japonês no East Village antes de ele se juntar a John Pizzarelli e grupo para a turnê celebrando os 50 anos do álbum que uniu Sinatra e Jobim), essa é uma cidade para conhecer de maca, admirando seus arranha-céus. Prédios que não param de subir principalmente nas grandes avenidas juntos aos East e Hudson River (como os da foto panorâmica acima, feita no início da High Line). Arquitetura, galerias de arte, museus e jazz (que resiste de várias formas) estão entre os ingredientes que fazem tão especial a Grande Maça.

Mesmo que o hip hop seja a cultura musical dominante nas duas últimas décadas, jazz foi o que mais encontramos em praças, bares ou mesmo numa viagem de metrô até o Harlem na qual quatro senhores negros passavam o chapéu enquanto cantavam a capella com técnica e suingue exuberantes. Jazz também de um veterano, o trompetista Tom Harrell, a

quem assistimos na noite de quarta (5/7) num dos resistentes templos do gênero, o Village Vanguard, aberto em 1935, no mesmo endereço na Sétima Avenida onde se encontra hoje. Perfeito fecho para um dia que começara com a peregrinação ao Harlem, passando pelo lendário Apollo Theater e pelo não menos icônico Minton’s Playhouse, o local onde, em fins dos anos 1940, músicos como Dizzy Gillespie, Charlie Parker e Thelonious Monk geraram o bebop.

Sete décadas depois, esta é uma corrente do jazz que não se acomodou, fundamental para movimentos e criadores que surgiram depois.
Aos 71 anos, Tom Harrell é um trompetista, compositor e arranjador que tem o bebop como uma de suas bases para trabalhos também vão do jazz latino à música clássica. Com mais de 30 álbuns como líder, em sua carreira, ele tocou com, entre outros monstros, Stan Kenton, George Russell, Dizzy Gillespie, Horace Silver, Bill Evans, Lee Konitz, Phil Woods e Gerry Mulligan. No show desta semana no Village Vanguard, completavam o quinteto Ugonna Okegwo (contrabaixo), Jonathan Blake (bateria), Charles Altura (guitarra) e Mark Torner (saxofone). Chegamos no início da segunda sessão e, enquanto nos arrumávamos na mesa, fomos avisados que era proibido conversar e tirar fotos. No fim, arrisquei uma única foto (que subo mesmo sabendo da precária qualidade), mas as regras foram seguidas pelos espectadores que quase lotavam o pequeno clube com capacidade para 123 pessoas, sendo a maioria locais, entre velhos e novos jazzófilos, e alguns japoneses, turistas como nós.

Por cerca de uma hora e meia, os temas apresentados por Harrell também serviram para compensar a má impressão de duas noites antes. O que é pior, cantar para três ou quatro turistas de terceira idade num lobby de hotel ou ser ignorada pela maioria dos jovens frequentadores que lotam um bar? Pergunta que ficou após observarmos as duas situações na mesma noite. A ideia era conferir o show de Martina DaSilva, cantora nova-iorquina de jazz e standards que um amigo adora à distância, e, quando saímos do elevador, assistimos à desolada cena da outra jazz singer cantando para ninguém.

Escondido na Nona Avenida, sem cartaz ou anúncio algum (apenas, no alto da porta, a ilustração de uma garota numa banheira com um cálice na mão que K fotografou), o Bathtub Gin tenta reproduzir um típico speakeasy, como os da época da proibição de bebida alcoólica nos EUA. Pequeno e abarrotado de gente, que entornava e falava alto como se não houvesse amanhã. Mais para “speakloud”, portanto, encobrindo o repertório na sua maioria da época da Lei Seca, belezas como “Who cares? “ e “I’ll never be the same”, que Martina e seus quatro músicos (trombone, contrabaixo, saxofone e guitarra) tentavam mostrar, inspirados em discos de Billie Holiday, Ella Fitzgerald e companhia. Meio brasileira, mas nascida nos EUA, Martina também tem um grupo com outras moças, Ladybugs, que envereda pela mesma onda retrô. Através da internet, a música de Martina chegou até o Rio e fez a cabeça do amigo cineasta e produtor musical Luiz Fernando Borges, que tratou de levantar a agenda da moça e nos intimar a assisti-la. Bem que tentamos, mas o Bathtub Gin não ajudou. Após cerca de 50 minutos e dois drinques de gin, aproveitamos o intervalo e pulamos fora.

@@@@@

Na semana passada na rua, dois discos novos conferidos por streaming rodaram bastante durante os pit stops no hotel, o já mencionado “Sinatra & Jobim @ 50” (Concord Jazz), de John Pizzarelli (com participação de Daniel Jobim em sete das 11 faixas); e “Retratos” (Blaxtream), o segundo do quarteto de jazz Ludere.


Ano em que Tom Jobim teria completado 90 anos, 2017 também tem outra data redonda importante na carreira do brasileiro, os 50 anos do lançamento de “Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim”. Efeméride que o guitarrista e cantor John Pizzarelli aproveitou para seu novo álbum, com lançamento físico agendado para 28 de julho mas já nas plataformas de streaming. Sem seguir o repertório original ou os arranjos de orquestra (então assinados e regidos por Claus Ogerman), Pizzarelli optou por um formato instrumental mais enxuto, sob medida para pegar a estrada, com a participação luxuosa de Daniel Jobim e de mais brasileiros, estes radicados em Nova York, o baterista Duduka da Fonseca e o pianista Hélio Alves. A turnê estreou esta semana, dia 5, no Festival Internacional de Jazz de Montreal, e do Canadá seguiu para a Europa – hoje, sábado, tem show em St. Moritz, na Suíça (Dracula Jazz Club).

No álbum de Pizzarelli, cool jazz e bossa nova andam de mãos dadas, sem muitas surpresas e algumas derrapadas no repertório. Ele poderia ter esquecido os standards “Baubles, bangles and beads”, “Change partners” e “”I concentrate on you”, mesmo que tenham feito parte do álbum cinquentão de Sinatra e Jobim. Também pouco acrescentam as duas composições de Pizzarelli (ambas em parceria com Jessica Molaskey), “She’s so sensitive” e “Canto casual”, e ainda “Antonio’s song”, esta assinada por outro Brazilianist, Michael Franks. Melhor seria continuar o passeio pelo universo jobiniano, imaginar músicas que Sinatra poderia ter mergulhado, como, em ótica sacada, ele faz em “Two kites” (com letra em inglês de Tom, inspirado em suas temporadas nova-iorquinas). Também reforçando agora o elo entre John e Daniel, a primeira gravação dessa deliciosa canção, no álbum “Terra Brasilis” (1980), contou com a guitarra de Bucky Pizzarelli, pai de John e ainda em atividade.

@@@@@

Ainda na linha de filho que segue os passos musicais do pai, mas trocando o violão pelo piano, está Philippe Baden Powell.

Nascido em Paris, onde voltou a viver após uma temporada no Brasil, lançou este ano mais um disco solo, “Notes over poverty”, pelo selo inglês que tem sido um lar para brasileiros Far Out, e, agora, ainda mostra fôlego para o álbum “Retratos”, com o Ludere. No quarteto, o parisiense Philippe (piano) divide os trabalhos com os paulistas Daniel de Paula (bateria), Rubinho Antunes (trompete e flugelhorn) e Bruno Barbosa (contrabaixo) – os dois últimos, também do grupo Pó de Café, que acabou de lançar seu terceiro álbum, “Terra”.

Apesar da distância, em um ano e meio, o Ludere já fez
dois discos e shows pelo Brasil. “Retratos”, que na próxima semana chega às plataformas de streaming, é um dos lançamentos de estreia do selo Blaxtream (Blaxtream), criado pelo também pianista, produtor e engenheiro de som Thiago Monteiro. Gravado em apenas dois dias, em Riberão Preto – em novembro do ano passado, aproveitando o reencontro dos músicos para uma segunda série de shows, após a turnê de lançamento do disco de estreia em maio de 2016 -, o novo traz oito temas compostos pelos integrantes do quarteto. Música que avança por trilhas do jazz contemporâneo com natural pegada brasileira. Philippe é autor de duas músicas, “Origami” e “Afro Tamba”; Bruno Barbosa assina a faixa de abertura, “Magma”, e divide “Espaço-tempo” e “Indica” com Rubinho Antunes (este, também o autor de “Morro”); enquanto Daniel de Paula contribui com a faixa-título e “Reconciliação”. Um quarteto de cordas, com arranjos de Antunes, adiciona novos coloridos a “Morro”, “Origami” e ”Magma” (esta, também com os vocalises de Vanessa Moreno); enquanto em “Reconciliação” e “Morro” o guitarrista Vinícius Gomes se junta ao Ludere. Música instrumental brasileira para rodar o mundo e que faria bonito também nos clubes de jazz de Nova York.

Nas artes plásticas, por exemplo, há sinais disso. Na semana que vem, o Whitney Museum vai receber a instalação “Hélio Oiticica: To Organize Delirium” – que ficará em exibição entre 14 de julho e 1º de outubro. Perdemos por pouco, amanhã, embarcamos de volta, mas, uma visita à nova sede do Whitney, instalada há dois anos no Meat Pack, sempre vale pela sua coleção de artistas dos EUA, incluindo muitas telas de Edward Hopper, e, atualmente, grande retrospectiva de Alexander Calder, “Hypermobility” (na qual clicamos o simpático polvo ao lado).

Ainda sobre Hélio Oiticica, dois de seus “meta esquemas” estão entre os trunfos da Galeria Nara Roesler / New York, que, ontem, fez um coquetel para lançar seu evento de verão. Oiticica (da tela ao lado) e trabalhos de muitos outros artistas brasileiros bem cotados no mercado, incluindo Tunga (“do cabelo com pentes” que também fotografamos), Abraham Palatnik, Vik Muniz e Cristina Canale. Obrigado ao “new yorker” Marcus Ribeiro, que dirige o escritório do PRISA em Nova York (e é o responsável pelo grupo de midia espanhol em todo o continente americano) e nos botou na cara do gol, na VIP list para esta happy hour da galeria criada em São Paulo e que também tem uma base no Rio.

Colírios para os olhos que ainda experimentamos em mais uma passada pelo MoMA (imperdíveis telas de Monet, como a que fecha esse post-diário de viagem). Ou novidades que conhecemos em outra exposição, “Urban Art Fair”, no Spring Studios, em Tribeca, onde João Salomão (filho dos amigos Sônia Miranda e Jorge Salomão) é mais um artista de rua (então assinando como Pixxote) que começa a migrar para as galerias.

Ah, antes que me esqueça, #foratrump!

Crédito imagens: reproduções capas de discos e fotos K & ACM

PS: Aproveitando os 70 anos que Sérgio Sampaio completaria este ano, ganha uma terceira edição ampliada a biografia “Eu quero botar meu bloco na rua”, de Rodrigo Moreira. No Rio, tem lançamento marcado nesta terça-feira, 12/7, na livraria Blooks, em Botafogo.

Deixe uma resposta