João à parte, são bonitas (algumas) canções de Tatau na lida dos anos


Toda a estratégia de marketing armada em torno do lançamento do primeiro (tardio) álbum do cantor, compositor e violonista baiano Antonio Carlos Tatau foi calcada no fato de o artista de 61 anos ser espécie de discípulo de João Gilberto, de quem Tatau já estaria acostumado a receber elogios. Conterrâneo de Tatau, nascido em Juazeiro (BA), João teria ouvido e aprovado o álbum A lida dos anos, que chega ao mercado fonográfico neste mês de julho de 2017 em edição da gravadora Joia Moderna.


Gestado desde 2014, mas gravado efetivamente entre 2015 e 2016 em estúdios de Salvador (BA) e São Paulo (SP), o disco tem produção (musical e executiva) e arranjos de Luisão Pereira, do duo baiano Dois em Um. É fato que João Gilberto conhece o artista desde o início da década de 1980, já tendo feito visitas ao sítio em que Tatau vive em Juazeiro (BA). O mestre foi apresentado ao discípulo por Euvaldo Macedo Filho, parceiro de Tatau e de Marcos Roriz na Canção pra João, uma das dez músicas da lavra de Tatau selecionadas para o disco.


Marketing à parte, vamos ao que interessa: o canto grave de Tatau soa macio, afinado, mas jamais cai na tentação de emular o canto de João. Há, claro, proposital evocação na prosódia da referida Canção pra João, justificada por se tratar de homenagem explícita ao cantor que revolucionou a música brasileira em 1958. Mas Tatau, que veio ao mundo em 1956, canta como Tatau.


Há também um clima de bossa nova no toque do violão de Tatau, evidenciado em músicas como Um e outro (Antonio Carlos Tatau e Mateus Borba), faixa na qual ouve-se o toque do piano de Zé Manoel, músico recorrente no disco. Contudo, a rigor, o repertório autoral de Tatau gravita em torno do universo do samba-canção e do bolero pré-bossa nova, só que remetendo mais ao refinamento do que à kitsch estética musical normalmente imposta a esses gêneros. Até a poesia das letras evita o peso do drama.


A formatação do disco revestiu as músicas com modernidades sutis como a programação eletrônica embutida sem alarde em Às vezes (Antonio Carlos Tatau e Expedito Almeida). Músicos como o guitarrista Gustavo Ruiz contribuem positivamente para o bom resultado do disco. De toda forma, parece haver excessos de instrumentos e acordes em Nas águas de outro amor (Antonio Carlos Tatau e Théa Lúcia) – empanada por teclados e efeitos – e em Tudo (Antonio Carlos Tatau e Expedido Almeida). Nesse sentido, a música de Tatau soa como a de João. Na dúvida, menos é mais para não deixar o arranjo passar do ponto e empolar.


Mas são bonitas as canções. Algumas mais do que outras, claro. No todo, o álbum A lida dos anos merece ser reverenciado por um lote de composições que justifica qualquer louvação a Tatau, artista que manteve um grupo, Exodus, na primeira metade da década de 1970 e chegou a participar de festivais de alcance regional até sair espontaneamente da cena musical, em 1976.


Maravilhas contemporâneas, Para os que se amam (Antonio Carlos Tatau e Expedito Almeida), A lida dos anos (Antonio Carlos Tatau e Expedito Almeida), Um bolero a mais (Antonio Carlos Tatau e Ronaldo Bastos) e Minha vida (Antonio Carlos Tatau e Expedito Almeida) formam o lote marcado pela excelência das composições e dos arranjos de Luisão Pereira, agregando valor a um disco que, acima de tudo, tem o mérito de registrar a voz e a obra de um cantor e compositor que corriam o risco de permanecer confinadas ao lendário sítio de Tatau na cidade de João Gilberto. (Cotação: * * * 1/2)


(Créditos das imagens: Antonio Carlos Tatau em foto de Flávia Almeida. Capa do álbum A lida dos anos, de Antonio Carlos Tatau. Arte gráfica de Gabriel Martins)

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