Lobão destila amores, ódios e erros em guia raso sobre rock dos anos 80


Lobão se autodefine como um outsider da década de 1980 no prólogo do Guia politicamente incorreto dos anos 80 pelo rock, terceiro livro do artista carioca, lançado pela editora Leya neste mês de julho de 2017. Nesse mesmo prólogo, o artista já se defende com o argumento de que a narrativa foi escrita sob perspectiva “inteiramente pessoal”. A questão é que, além de extremamente pessoal, o guia de Lobão soa raso. Faltou o equilíbrio prometido no defensivo prólogo para sustentar o argumento básico do livro.


Embora tenha iniciado a carreira musical na década de 1970, como integrante do grupo Vímana, Lobão é um dos nomes mais importantes da geração pop projetada nos anos 1980. Ele alega que se sente um outsider, mas conviveu e/ou fez conexões musicais com muitos artistas fundamentais dessa geração. Para esses amigos, Lobão jamais dispara farpas. Cazuza (1958 – 1990), Júlio Barroso (1953 – 1984) e Marina Lima, por exemplo, são enfocados com açúcar, com afeto e alta dose de generosidade.


Em contrapartida, Lobão dá a impressão de ter escrito o livro somente para ter o prazer de vociferar contra Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e, em menor grau, contra Milton Nascimento. Não por acaso, Caetano, Chico e Gil aparecem entre os ícones do pop brasileiro retratados nas ilustrações feitas por Lambuja para a capa do livro. É que, na visão de Lobão, esses cantores e compositores, expoentes da geração dos festivais dos anos 1960, se sentiram ameaçados quando o rock invadiu a praia da MPB ao longo da década de 1980.


A forma impiedosa e irracional como Lobão caracteriza álbuns e músicas de Chico Buarque dá a exata dimensão do grau de descompromisso do livro com a análise rigorosa das obras dos artistas abordados no guia. Como Lobão inicia a narrativa do livro em 1976, por considerar marcante para a geração roqueira o Festival de Surfe de Saquarema produzido naquele ano por Nelson Motta, o passional autor do guia já ataca Chico na primeira página do primeiro capítulo, alegando que o magnífico álbum Meus caros amigos, lançado pelo artista carioca em 1976, aumentou o “grau de monotonia” da cena da época.


Ao longo dos 15 capítulos, a obra de Chico vai receber ataques tão ou mais ferozes. No capítulo dedicado ao ano de 1979, o álbum duplo Ópera do malandro é conceituado como uma “das mais memoráveis lambanças estético-musicais” do artista. Já o álbum Chico Buarque, de 1984, é caracterizado como “pífio” enquanto o majestoso samba-enredo Vai passar (Chico Buarque e Francis Hime, 1984), é descrito como “um sambinha muito do mequetrefe”.


Se Lobão atacasse os discos dos colegas com argumentos sólidos que amarassem a ideia defendida pelo livro, o guia soaria menos superficial e mais interessante. A questão é que os ataques – desferidos contra todos os artistas daquela década que se permitiram fazer som distante dos cânones do rock – se sucedem na narrativa sem a mínima consistência, como se somente o rock fosse capaz de gerar música boa.

Rita Lee, por exemplo, é elogiada na fase em que se uniu ao grupo Tutti Frutti, mas tem a produção irresistível da obra com Roberto de Carvalho carimbada com o rótulo de “pasteurizada”. Já o Kid Abelha, grupo que produziu impressionante safra de hits de boa cepa pop, é rotulado como “a encarnação da antítese” da Gang 90, banda querida no coração endurecido do Lobo por ter tido o lendário Júlio Barroso como mentor.


Como se faltasse assunto e argumentos ao autor, Guia politicamente incorreto dos anos 80 pelo rock ocupa boa parte das 496 páginas com reproduções de letras de música e de selos de discos lançados na década. Grupos de rock como Camisa de Vênus, Cólera, Coquetel Molotov, Inocentes (saudado de forma efusiva) e Legião Urbana são tratados no livro como salvadores da pátria musical. Contudo, embora tais bandas tenham sido realmente relevantes em maior ou menor grau dentro da cena roqueira da década de 1980, Lobão não consegue esboçar um pensamento crítico a respeito delas.


A exceção é o breve raciocínio, feito no capítulo final, sobre o desmantelamento dos Titãs. Já a análise crítica sobre a discografia do trio Paralamas do Sucesso não chega a surpreender, pois Herbert Vianna foi notório desafeto de Lobão ao longo da década. “Esse negócio de geração provoca na gente sentimentos conflitantes onde cabe no mesmo coração o ódio e o amor fraternal”, conclui Lobão ao fim do guia.


Entre ódios e amores, o livro expõe alguns erros de informação. A novela Dancin’ days não foi exibida pela TV Globo em 1977, como sustenta Lobão, mas entre julho de 1978 e janeiro de 1979. De forma igualmente equivocada, Lobão credita a canção Muito romântico a Roberto Carlos e a Erasmo Carlos quando discorre sobre o álbum Muito (Dentro da estrela azulada), lançado por Caetano Veloso em 1978. Mas Roberto é somente o intérprete original da música de Caetano, cedida pelo compositor para o álbum lançado pelo Rei em 1977 e regravada na sequência por Caetano em Muito.

Sem falar que, ao menosprezar o álbum O eterno Deus mu dança, lançado por Gilberto Gil em 1979, Lobão alfineta Liminha – cujo talento de produtor musical é minimizado ao longo do livro como se Liminha tivesse sido concorrente do mago dos teclados Lincoln Olivetti (1954 – 2015) – e ignora o fato de que o referido disco de Gil foi produzido por Celso Fonseca com Vitor Farias, sem a participação decisiva de Liminha.


Enfim, Lobão destila amores, ódios e erros. Ao apontar Marisa Monte como “cantora de técnica impecável e expressão nula”, o autor do guia sucumbe à tentação de causar polêmica vazia. Se é que, a essa altura, as opiniões de Lobão ainda provoquem discussões alentadas. A rigor, o livro esboça pálido retrato da geração 1980 do rock brasileiro, sem jamais cumprir a função educativa de um guia.

Para quem leu Dias de luta – O rock e o Brasil dos anos 80 (2002), livro fundamental em que o jornalista Ricardo Alexandre analisa a ascensão, o apogeu e a queda dos roqueiros da década, o Guia politicamente incorreto do anos 80 pelo rock de Lobão soa como frívolo almanaque de opiniões superficiais, muitas meramente pessoais e sem nexo. (Cotação: * *)


(Crédito da imagem: capa do livro Lobão em Guia politicamente incorreto do anos 80 pelo rock. Ilustrações de Lambuja)

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