‘Modo avião’ é uma viagem de Lucas Santtana sobre a arte do desencontro


Sétimo álbum do cantor, compositor e músico baiano Lucas Santtana, Modo avião é uma viagem. No título mais experimental de discografia iniciada em 2000, Santtana dá mais um passo, recusando a repetição da fórmula bem-sucedida do álbum Sobre dias e noites (2014), ponto máximo de obra fonográfica em que um disco nunca se pareceu com o outro. O único elo entre os sete álbuns do artista é a obra autoral que pauta todos os discos.


Modo avião herda de Sobre dias e noites a grande parcela eletrônica da sonoridade – no caso do atual álbum, formatada basicamente pelos sintetizadores pilotados por Fabio Pinczowski – e as reflexões sobre as angústias da sociedade contemporânea, tão hi-tech quanto desconectada das emoções reais.


Para seguir viagem no roteiro proposto por Modo avião, é ideal que o ouvinte-leitor tenha em mãos o livro também intitulado Modo avião e assinado por Santtana com Rafael Coutinho (autor dos desenhos que ilustram o voo musical-literário do artista) e com J.P. Cuenca, parceiro de Santtana na escrita dos textos em prosa intercalados com as músicas.


Voo raso do ponto de vista literário, Modo avião versa sobre solidão, sinalizando que a vida pode ser a arte do desencontro através da mistura de música com textos escritos na linguagem coloquial do cotidiano. As músicas estão lá, em repertório que destaca Só o som (Lucas Santtana e Fred Coelho), Streets bloom – bela composição em inglês, cantada por Santtana com os toques dos sintetizadores, do minimoog bass e do harmônio de Fabio Pinczowski – e que soa orgânico em Brasa de dois, música pautada pelo violões (tocados por Lucas Vasconcellos) e pela guitarra (e efeitos) do recorrente Pinczowski em ambiência que remete ao som desossado experimentado por Santtana no quarto álbum, Sem nostalgia (2009), evocado de forma mais intensa em Árvore axé, música final, moldada somente com a voz e o violão do artista.


Nessa atmosfera etérea, plácida, o toque vivaz do acordeom de Mestrinho é cor viva na aquarela de emoções pálidas vividas pelas personagens da narrativa protagonizada por Santtana, voz da personagem intitulada Ele. Em rota que entrelaça músicas e textos, atrizes entram em cena somente com as vozes para interpretar mulheres que embarcam com Ele no acidental voo existencial de Modo avião. Patricia Pillar é Maria. Já Mariana Lima dá voz a Alice.


Em essência, Modo avião é disco que pode ser caracterizado como áudio filme, como o artista já explicou desde que anunciou a gravação do álbum e a publicação do livro pela editora Lote 42, ambas viabilizadas de forma independente com recursos financeiros do projeto Natura Musical e do Governo da Bahia.


Enfim, Modo avião é mesmo uma viagem. Para embarcar sem desconforto, é preciso entender a natureza peculiar do voo, cujo combustível é o diálogo sutil entre as músicas, os diálogos ouvidos em prosa e os desenhos de Rafael Coutinho. (Cotação: * * * 1/2)


(Créditos das imagens: capas do disco e do livro Modo avião)

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