Hermeto salva: elixir para o baixo astral brasileiro

Não fosse a imprensa brasileira que acessei pela internet, a crise política pouco existiria nessa semana em Miami, onde me encontrava para alguns dias de trabalho. Afinal, no “USA Today” (cada vez mais ralo) distribuído no hotel em que ficamos, no “NYT” que leio on line, em noticiários na TV nos raros momentos em que ligamos o aparelho, ou mesmo nas conversas com colegas de toda a América Latina que participaram das reuniões o interesse por nosso drama esteve perto de zero. A vontade é ignorar as patéticas mentiras do ilegítimo, cada vez mais fraco e sem apoio.

O quadro é grave e com o Congresso suspeito que temos as perspectivas de melhoras são incertas. Mas, pelo menos, o golpe branco está mais do que desmascarado. Assim como os políticos que, há um ano, falavam em corrupção e defesa da família para apoiar a farsa do impeachment (por pedaladas fiscais!) para tirar a presidente eleita do cargo. “Tira Dilma que melhora” era o slogan, mas, como nós perdedores falávamos, desde então, o poço ficou mais fundo ainda.

K e eu trocamos Miami (cidade à qual só vou a trabalho) por Nova York, onde as opções culturais são bem maiores e, portanto, o tempo para procurar notícias, menor. Mas, a essa altura e nesses tempos não dá para se desligar. Continuaremos acompanhando à distância o país tropical em transe.

@@@@@Eterno Hermeto nas mãos dos guris Jovino Santos Neto & André Mehmari

Na semana em que passei durante o dia trancado em salas de reunião, muita música foi ouvida e discutida, mas, com conteúdo para ficar guardado entre os membros da Academia Latina de Gravação. No entanto, um disco que recebera em arquivo digital por email, e cujo versão física encontrei me aguardando no hotel em Chelsea em que estamos, serviu de trilha sonora e inspiração em muitos dos momentos livres. Belos sons instrumentais de “Guris” (Adventure Music), da dupla de pianistas Jovino Santos Neto e André Mehmari, mergulhados na fabulosa obra de Hermeto Pascoal. O primeiro, carioca radicado em Seattle há três décadas, após, na juventude ter passado pela universidade livre que é a banda do Bruxo Campeão; o segundo, fluminense que vive em São Paulo, bem mais jovem, mas desde cedo tocado pela arte de Hermeto, e que na última década também vem rodando o mundo com sua exuberante musicalidade.

Pela primeira vez juntos, além dos dois pianos, eles colorem determinadas faixas com pontuais outros instrumentos, incluindo escaleta, Fender Rhodes, flauta, harmonium e bandolim. Hermeto também dá as caras em três faixas, tocando escaleta em “Aquela valsa” e chaleira com água em “Igrejinha” e “Jovino em Realengo”

São 10 temas de Hermeto e três composições dos intérpretes. Mehmari faz um tributo ao mestre em “Pro Hermeto” (um baião estilizado que compôs aos 14 anos, após ser seduzido pelo álbum “Festa dos deuses”, conta Jovino no texto do encarte) e também assina “Baião da sorte”; enquanto Jovino na sua “Tambô d’Osho” parece tangenciar um clássico de outro mestre, com ecos de “A rã” de João Donato.

Das três músicas com participação do homenageado, “Igrejinha” foi aquela gravada por Miles Davis em 1971, no álbum “Live evil”, período em que o trompetista convidou o alagoano para participar de seu grupo e recebeu um sonoro não. Sim, Hermeto já tinha na época talento de sobra para seguir sozinho e, desde então, não se cansou de provar isso, mas, não temos como não lamentar não ter acontecido um trabalho em dupla mais longo desses dois gênios geminianos.

O passeio “hermetiano” segue por sambas, baiões, valsas devidamente entortados e abertos a comentários livres dos intérpretes. O repertório, lançado nas quatro últimas décadas, inclui ainda um tema de 1991, “Bailando com cerveja”, que nunca tinha sido gravado ou tocado pelo grupo, mas que Jovino conhecia e sempre adorou.

Belas amostras de um Brasil que dá certo, estímulo para continuar acreditando no potencial de uma terra em transe.

@@@@@A aventura musical de um apaixonado pelos sons do Brasil

Criada pelo produtor americano Richard Zirinsky Jr., a Adventure Music é uma gravadora dedicada ao jazz, mas que sempre abriu grande espaço ao instrumental brasileiro. Além de “Guris”, encontrei na caixa enviada por Zirinsky mais oito títulos de seu catálogo. Como viajei sem o drive de CD, os outros vão ficar para minha volta ao Brasil, sendo que três deles já tinham chegado aos meus ouvidos e comentados nessa coluna sentimusical: “Piano masters Series, vol. 4”, de Jovino Santos Neto; “Sea of tranquility”, de Marcos Amorim (guitarra); e “Cosmos”, do guitarrista Ricardo Silveira com o baixista John Lefwich e participações de Hubert Laws (flauta) e Kiko Freitas (bateria). Completam o pacote, “Relíquias”, da dupla de filha e pai Clarice & Sérgio Assad; “RSVC”, do duo formado por Ricardo Silveira (guitarra e violão) e Vinicius Cantuária (percussão, violão e vocal); “Vignette”, de Maeve Gilchrist (harpa e teclados) e Viktor Krauss (baixo, guitarra, teclados e violoncelo); e as coletâneas “Portraits in time” (2002-2013), álbum duplo da cantora Monday Michiru, e “Adventure Music ten years”, CD triplo de 2012, copilado também por Monday Michiru, com material de discos lançados pela gravadora em sua primeira década de atividade. Cinco anos depois, a aventura da Adventure não parou. A música salva, mas, agora, as ruas de Nova York nos aguardam.

Deixe uma resposta