Por que o crescimento artístico de Mallu Magalhães incomoda tanto?


Grandes álbuns foram lançados no Brasil neste primeiro semestre de 2017. Mas o fato é que, fora do mainstream sertanejo, somente dois discos alcançaram grande repercussão, sendo realmente ouvidos por público expressivo. O excelente álbum de sambas do rapper paulistano Criolo, Espiral de ilusão, e o quarto álbum solo de Mallu Magalhães, Vem, estão sendo ouvidos em um mercado fonográfico cada vez mais apático, em que discos e singles são despejados semanalmente nas plataformas digitais e, dias depois, já são esquecidos ou ignorados para dar vez aos lançamentos da nova semana. Os discos de Criolo e Mallu passaram nessa estreita peneira.


Atípico no volátil cenário musical dos dias de hoje, o sucesso de Mallu tem incomodado. O desconforto começou com o lançamento do clipe do sambalanço Você não presta (Mallu Magalhães), cujo vídeo foi visto como racista por algumas pessoas. Mas tem outra questão, que não passa pela visão do vídeo, que incomoda um nicho formado por guardiões das tradições da MPB. Parece difícil aceitar que aquela artista adolescente que se lançou há dez anos na web com uma música inócua tenha crescido artisticamente a ponto de ter lançado uma obra-prima.


Sim, o álbum Vem é obra-prima e, como tal, está sendo reconhecido por ouvintes que realmente escutam o disco sem pré-conceito e sem participar do jogo de poder da mídia. Estes ouvintes se deparam com repertório sedutor, primorosamente arranjado por Marcelo Camelo (produtor do álbum) e por Mario Adnet. Mallu vem crescendo como compositora. Não por acaso, já foi gravada até por Gal Costa no aclamado último álbum da cantora baiana, Estratosférica (2015).


Além disso, e essa é outra questão crucial, Mallu está cantando de forma satisfatória no disco. E parece difícil para alguns aceitar que nem toda cantora precisa ter grandes dotes vocais para ser eficiente. Mallu não tem grande voz, mas a voz que tem serve bem ao repertório autoral da artista. Existem cantoras com grandes e afinadas vozes que jamais vão chegar a ter uma expressão artística como a de Mallu. Porque, para ser cantora, é preciso mais do que uma voz. Exemplo emblemático na era da MPB é Nara Leão (1942 – 1989), artista que nunca teve uma grande voz e nem por isso deixou de ser uma das cantoras mais importantes do Brasil de todos os tempos.


Mallu já é um nome para a geração dela. No ano passado, fez show de voz e violão em grandes casas com ótima adesão do público. A vindoura turnê do show baseado no álbum Vem certamente vai bisar (e provavelmente ampliar) essa adesão popular porque Vem está fazendo o público de Mallu crescer. Gente que antes nunca ouvira um disco da artista escutou Vem e gostou (muito) do que ouviu. Isso é fato!


Em 2014, a concorrida turnê da Banda do Mar já mostrou que Mallu se garante como cantora em shows de tom tão expansivo quanto o do repertório do álbum Vem. Mesmo que ela tenha desafinado (em todos os sentidos) em recente aparição no programa Encontro com Fátima Bernardes (TV Globo), sobretudo por conta do nervosismo, Mallu vai sobreviver aos julgamentos dos tribunais das redes sociais.


Vem – vale repetir mais uma vez – é grande álbum de música pop brasileira e já está garantido na lista de melhores discos de 2017 ao lado de álbuns de Guinga (Canção da impermanência) e de Joyce Moreno (Palavra e som), para citar somente dois exemplos de discos igualmente irretocáveis. Estranhou o que? Guinga, Joyce e Mallu na mesma lista?!! Sim, o tempo não espera por ninguém, já sentenciou verso de rock dos Rolling Stones. E não vai esperar por quem, preso aos cânones de outro estilo (nobre) de música brasileira, se recusa a atestar o crescimento artístico de Mallu Magalhães.


(Crédito da imagem: Mallu Magalhães em foto de divulgação)

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