Disco 2 de tributo ao Skank é menos sedutor, mas expõe a força da obra


Por mais que o segundo volume de Dois lados – Um tributo ao Skank (Scream & Yell) seja bem menos sedutor do que o primeiro, o disco 2 reitera a inspiração de Samuel Rosa como compositor de quase todo o repertório do grupo mineiro Skank. Posta em perspectiva a partir da audição dos dois volumes da louvação fonográfica feita pelo produtor musical Pedro Ferreira, o cancioneiro do cantor, compositor e guitarrista mineiro – criado com parceiros com Chico Amaral e Nando Reis – está entre o que de melhor foi produzido no universo pop brasileiro em todos os tempos.


Como esse repertório foi tão bem gravado pelo Skank, por vezes fica difícil recriá-lo sem diluir o poder de sedução das músicas. Nesse sentido, o elenco do primeiro volume de Dois lados foi mais feliz. A textura sintética e os ruídos eletrônicos usados pelo grupo paranaense Tuyo na reconstrução de Três lados (Samuel Rosa e Chico Amaral, 2000), por exemplo, fazem ruir a levada envolvente do tema no disco 2. O mesmo acontece com Vou deixar (Samuel Rosa e Chico Amaral, 2003) no registro descafeinado do cantor maranhense Phill Veras.


A pegada mais roqueira do parananense Nevilton nada faz de relevante por Te ver (Samuel Rosa e Chico Amaral, 1994), mas, ao menos, preserva a pulsação do tema. Em contrapartida, os também paranaenses Ana Larousse e Leo Fressato contribuem com a recriação mais graciosa do disco 2, Tão seu (Samuel Rosa e Chico Amaral, 1996), cantando a apaixonada canção como casal, em tons minimalistas.


Se o grupo mineiro Transmissor sereniza Siderado (Samuel Rosa e Chico Amaral, 1998), música que batizou disco de 1998 que sinalizou a guinada estética consolidada pelo Skank dois anos depois com o álbum Maquinarama (2000), o cantor paulista Fernando Anitelli enquadra a buarquiana Formato mínimo (Samuel Rosa e Rodrigo F. Leão, 2003) em moldura pop folk em gravação pautada por violões. Se o grupo cearense Selvagens à Procura de Lei põe guitarras e algum peso roqueiro no registro da balada Ali (Samuel Rosa e Nando Reis, 2000), a banda mineira Graveola reconta a saga da sobrevivente Zilda em Baixada news (Samuel Rosa e Chico Amaral, 1992) em ambiência eletrônica, como se a lama do mangue invadisse a praia do reggae, já poluída na gravação original do Skank com sujeiras de som que tinha elementos de pop e rock.


O cantor paulista Phillip Long dá opaca voz à balada Reposta (Samuel Rosa e Nando Reis, 1998) com o toque vigoroso do violão de Eduardo Kusdra. Já o gaúcho Ian Ramil confirma a veia experimental na abordagem de Homem que sabia demais (Samuel Rosa, Tavinho Paes e Fernando Furtado, 1992), música do primeiro independente álbum do Skank, disco de 1992 do qual a pernambucana Lulina revive In(dig)nação (Samuel Rosa e Chico Amaral, 1992) com certa placidez.


Destaque do elenco do disco 2, o cantor paulistano Dani Black toma Saideira (Samuel Rosa e Rodrigo F. Leão, 1998) para si, com divisões particulares e o toque de um violão que parece embebedado, mas que jamais perde o rumo. A banda carioca Medulla também mostra personalidade no toque de As noites (Samuel Rosa e Chico Amaral, 2003), valorizando este mediano segundo volume de Dois lados que se justifica pelo simples fato de celebrar uma banda que merece louvações por 25 anos de belos serviços prestados ao pop nativo, ainda que o Skank ultimamente já esteja girando na velocidade da própria luz que acendeu lá nos anos 1990. (Cotação: * * 1/2)


(Créditos das imagens: capa e contracapa de Dois lados – Um tributo ao Skank – Disco 2. Ilustração de Luyse Costa. Projeto gráfico de Mariana Viana)

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