Livro investiga o feminismo (e o fetichismo) da Mulher-Maravilha

A identidade secreta é uma característica comum a todos os super-heróis: Bruce Wayne é o Batman, Clark Kent é o Super-Homem, e a Mulher-Maravilha é a secretária Diana Prince. Mas a Mulher-Maravilha tem também uma origem secreta, que a diferencia de seus colegas superpoderosos. Pouquíssimo conhecida fora do círculo de fãs incondicionais da personagem, é esse passado inusitado e cheio de significados que a jornalista e historiadora Jill Lepore (professora em Harvard e articulista da revista “The New Yorker”) traz à tona em “A história secreta da Mulher-Maravilha” (editora Best Seller, 468 pgs.).

Para quem era apaixonado pela Mulher-Maravilha interpretada por Lynda Carter, na série de TV, como eu, e para quem adorou o novo filme com Gal Gadot, como eu, é uma leitura fascinante. Para quem nunca assistiu à série nem ao filme, também é.

Criada em 1941, a heroína de seios fartos, bustiê vermelho e botas de couro de salto alto costuma ser analisada, por quem leva o tema a sério, à luz da entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra: com seu corpo de amazona (ou de pin-up), seus braceletes de ouro resistente a tiros e seu laço mágico que obriga as pessoas a falarem a verdade, ela surgiu com a missão de combater o mal e proteger o lado bom da força, encarnado na América, a cidadela da democracia e dos direitos iguais, contra a ameaça maligna representada pela Alemanha.

Mas, como demonstra a autora, este é apenas um de muitos recortes de interpretação possíveis. Lepore insere a Mulher Maravilha no contexto da luta pela emancipação feminina em curso nos Estados Unidos nas décadas de 30 e 40, chamando a atenção para detalhes curiosos. Por exemplo, única mulher recrutada para a Liga da Justiça em 1942, sua função era de secretária: muitas vezes, quando o Super-Homem, o Batman e o Lanterna Verde saíam para combater vilões, ela desejava boa sorte aos rapazes e ficava cuidando da correspondência e do trabalho de escritório. Como diria a personagem: Safo sofredora!

Com o rigor e uma atenção para os detalhes típicos dos pesquisadores americanos, Jill Lepore reúne em “A história secreta da Mulher-Maravilha” um volume impressionante de informações. A autora combina e entrelaça diversas narrativas paralelas, sem que as costuras fiquem aparentes.

À análise da personagem – seu nascimento em uma ilha só de mulheres, isoladas dos homens desde a Grécia antiga; seu primeiro contato com o gênero masculino; a viagem para os Estados Unidos em seu avião invisível – se somam uma pesquisa biográfica exaustiva sobre o criador da Mulher-Maravilha, o excêntrico psicólogo William Moulton Marston (que também foi o inventor de um detector de mentiras baseado na pressão arterial) e um inventivo ensaio de história cultural dos Estados Unidos, que envereda por questões ligadas ao Direito, à ciência e à política.


O volume, ricamente ilustrado, também vale pelo anedotário envolvendo a Mulher-Maravilha. Assim ficamos sabendo, por exemplo, que, um ano após seu lançamento, a história em quadrinhos chegou a ser proibida pela Justiça americana, sob a acusação de indecência e incentivo ao lesbianismo; ou que a personagem foi fortemente influenciada pelas ideias das líderes feministas Margaret Sanger e Emmeline Pankhurst.

A vida de Marston (1893-1947) daria um livro à parte. Professor, cientista, roteirista de cinema e advogado, amou mulheres que estavam à frente de sua época (sufragistas, feministas e defensoras do controle de natalidade) e ignorou convenções morais. Ele tinha quatro filhos com duas esposas (Elizabeth Holloway e Olive Byrne), e todos moravam juntos na mesma casa. Compreensivelmente, Marston acabou sendo afastado da vida acadêmica mais tarde, e chegou a ser preso por uma transação comercial fraudulenta.

Além de adepto do poliamor, Marston era um mentiroso compulsivo e um adepto de práticas sadomasoquistas, o que ajuda a entender não apenas o figurino da Mulher-Maravilha mas também o subtexto de diversas historietas, onde são frequentes frases como “Por Afrodite! Estou cansada de ser amarrada!”. De fato, a protagonista aparecia amarrada, amordaçada ou acorrentada em praticamente todas as suas aventuras.

A leitura demonstra que a Mulher-Maravilha combinava, de uma maneira bastante estranha, feminismo e fetichismo – uma fórmula explosiva, que explica a atração que a personagem exerce até hoje sobre homens e mulheres.

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