Livro expõe drama, leveza e tragédia do amor na obra musical de Vinicius

Vinicius de Moraes (19 de outubro de 1913 – 9 de julho de 1980) não reinventou o amor, como está sentenciado no texto escrito para a contracapa do livro Todo amor, lançado neste mês de junho de 2017 pela editora Companhia das Letras. Contudo, em algumas letras que escreveu para músicas feitas por melodistas do porte de Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994) e Carlos Lyra, o diplomático poeta e compositor carioca fez uma revolução silenciosa na música brasileira.


Vinicius não expôs todas as formas de amar, já que, em essência, a obra do poeta é uma ode (ou uma elegia, dependendo do grau de dramaticidade e tristeza dos versos) à mulher. Ou às mulheres, porque Vinicius, sempre plural, foi das mulheres. No entanto, o poeta expôs na música popular muitas faces do amor. A reprodução de várias letras de Vinicius em Todo amor permite reflexão sobre a escrita musical deste compositor que, de forma bissexta, também se revelou inspirado melodista, como exemplificam a Serenata do adeus (1958) e a valsa Pela luz dos olhos teus (1977).


A partir da emblemática parceria com Jobim, iniciada em 1956, Vinicius injetou coloquialidade nas letras de amor, tornando instantaneamente ultrapassados o empolamento e o rebuscamento que pautaram versos de gerações anteriores de compositores. Como compositor modernista, de carreira musical desenvolvida a partir década de 1930, o poeta nem sempre rimou amor com dor. Mas tampouco foi sempre leve como o som da Bossa Nova, movimento ao qual o cancioneiro de Vinicius é muito associado (ainda que a obra de Tom & Vinicius extrapole o arco desse movimento de 1958).


Músicas como Eu não existo sem você (1958), Eu sei que vou te amar (1959) e Porque tinha de ser (1959), parcerias com Jobim, propagam nos versos um tom determinista que dá certo peso à vivência amorosa ao mesmo tempo em que eleva a experiência romântica ao nível do sublime. Na obra criada com Toquinho a partir da década de 1970, Vinicius curiosamente se permitiu uma leveza maior do que a observada no cancioneiro com Jobim.


Após o juramento de Por toda a minha vida (1959) e a tempestade armada em Insensatez (1961), Vinicius alcançou mais leveza quando focou a mulher com olhar de voyeur, como em Garota de Ipanema (1962) e Ela é carioca (1963).


Acima de tudo, Todo amor – livro que, além das letras de música, também reproduz cartas, crônicas e poemas – mostra que Vinicius de Moraes foi um romântico de fé inabalável na força do amor, sem o qual é preferível que a vida se acabe, como o poeta sentenciou em verso da letra de Consolação (1963), composição feita com Baden Powell (1937 – 2000), parceiro dos afro-sambas.


Com Carlos Lyra, o poeta foi dramático, trágico até em Primavera (1964), mas também machista. Fosse lançada nos passionais dias de hoje, a canção Minha namorada (1964) poderia ser condenada no Tribunal do Facebook pela letra que, mesmo com ternura, endurece ao retratar a mulher como mero objeto a serviço do prazer e da satisfação do ego do homem. Mas talvez Vinicius de Moraes fosse logo absolvido por esse mesmo tribunal porque, na sentença final, os juízes reconheceriam estar diante de um poeta que amou muito as mulheres e o próprio amor.

Todo amor, o livro ora lançado com organização e apresentação de Eucanaã Ferraz, expõe a força e o alcance desse sentimento universal na obra plural de Vinicius de Moraes.


(Crédito da imagem: capa do livro Vinicius – Todo amor)

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