Almério combate ‘câncer diário’ nos tons áridos e afiados de ‘Desempena’


“Por que você vive essa vida de plástico? / Por que você gira essa roda sem eixo? / Por que você cultiva esse câncer diário?”, questiona Almério nos versos incisivos de Por que você, inspirada composição de Juliano de Holanda, produtor de Desempena, segundo álbum deste cantor, compositor e ator pernambucano nascido há 37 anos em Altinho (PE).


Desempena tem cacife para projetar Almério Rodrigo Menezes Feitosa muito além das fronteiras de Caruaru (PE), cidade onde o artista entrou em cena a partir de 2003 com estilo performático e um canto andrógino que faz ecoar o nome de Ney Matogrosso entre outras referências menos óbvias, mas até mais pertinentes.


Precedido em janeiro por single, Queria ter para te dar (Thiago Emanoel Martins), que não sinalizou toda a contundência do álbum, Desempena evoca a poesia árida do compositor cearense Antonio Carlos Belchior (1946 – 2017). A música-título, Desempena (Almério), já abre o disco com um convite para estancar a imobilidade humana que paralisa emoções vitais. Cortante feito faca, Trêmula carne – outra ótima música de Juliano de Holanda – apela para que o interlocutor pare de pregar “a cruz dos infelizes”.


“Esconder o medo / É guardar-se da chuva no frio”, provoca verso de Segredo, bela música de Isabela Moraes também já previamente lançada como single via Natura musical, fonte dos recursos financeiros que viabilizaram a gravação e a luxuosa edição em CD de Desempena.


Musicalmente, os recados são dados em Desempena sem clichês da rítmica nordestina. Ouve-se os toques de pífanos, alfaias, violas e zabumbas ao longo do álbum, mas os instrumentos estão dispostos sem obviedade nos arranjos precisos que abrem janela sonora para o universo pop sem pisar em terrenos modernosos. O trotar percussivo de O chamado (Almério e Valdir Santos) exemplifica bem a musicalidade tão nordestina e, ao mesmo tempo, tão livre das amarras regionais que por vezes aprisionam artistas a nichos.


Uma das vozes referenciais da nação nordestina, Elba Ramalho põe o valente canto torto a fim da mensagem mais positiva passada em Do avesso, outra música de Juliano Holanda, formatada como mix de baião e coco. Em Não nasci para o amor (Thiago Emanoel Martins e Juliano Holanda), a flauta de Philipe Moreira Sales sopra lirismo que contrasta com o anti-lirismo do tema.


No confronto com composições alheias, a produção autoral de Almério – representada por boas músicas como Tattoo de melancia, De olhar pra cima (cuja letra ilumina a ideia de que o sol nasce para todos) e Retiro das flores – soa ligeiramente menos dilacerante sem diluir a unidade de álbum afiado que projeta artista que combate o câncer diário da vida e da música com canto andrógino e poesia árida. (Cotação: * * * *)


(Crédito da imagem: capa do álbum Desempena. Almério em foto de Breno César)

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