Musical ‘Auto do Reino do Sol’ junta sons e signos do mundo de Suassuna


No consagrador espetáculo anterior da Barca dos Corações Partidos, Auê(2016), a trupe teatral – que se autodefine como uma companhia brasileira de movimento e som – transitou por músicas do Brasil, misturando temas animados com doídas serenatas, serestas e modinhas. Em Suassuna – O auto do Reino do Sol, musical recém-estreado no Teatro Riachuelo na cidade do Rio de Janeiro (RJ), onde fica em cartaz de quinta-feira a domingo até 20 de agosto, a Barca se embrenha nos rincões do sertão nordestino, sobretudo o da Paraíba, para expor sons, signos e símbolos do universo mítico do escritor, poeta e dramaturgo Ariano Suassuna (1927 – 2014), nascido há 90 anos em João Pessoa (PB).


Na encenação erguida com vivacidade sob a direção do ator paraibano Luiz Carlos Vasconcelos, a companhia cruza elementos circenses com tragédias sertanejas que rimam amor com dor na luta sangrenta entre famílias rivais. Na trama armada pelo compositor e escritor paraibano Braulio Tavares, autor do texto, tais elementos se integram ao fim, mas soam dispersos na primeira metade do musical.


A despeito de toda a teatralidade da encenação, a trama O auto do Reino do Sol ganha mais corpo, sentido e poder de sedução na segunda metade. Por isso, o espetáculo soa longo. No entanto, descontados os excessos do texto, o saldo é positivo pelo desempenho excepcional do talentoso elenco formado por Adrén Alves, Alfredo Del-Penho, Beto Lemos, Chris Mourão, Eduardo Rios (ofuscante ao reconstruir a figura de Dom Quixote), Fábio Enriquez, Pedro Aune, Rebeca Jamir, Renato Luciano (um clown igualmente radiante ao formar dupla com Eduardo Rios) e Ricca Barros. Com expressivo jogo de corpo e de cena, a trupe exibe destreza e energia, sobretudo quando a ação recai sobre a mambembe companhia circense que segue estrada durante a encenação rumo a Taperoá, cidade erguida pelo poder ficcional de Suassuna.


Por se tratar de musical, a trilha sonora – assinada oficialmente por Chico César com o fluminense Alfredo Del-Penho e o cearense Beto Lemos, mas com recorrentes colaborações de Braulio Tavares nas composições de temas como Aboio de Lucas sobre estrelas, Forrozinho quem-dará, O circo chegou, O povo quer cantar, Repente Chico de Rosa e Solidão – foi criada com ritmos nordestinos como aboio, caboclinho, coco, frevo e maracatu. Esses ritmos traduzem tanto o fulgor lúdico do circo como a dureza das vidas secas dos sertanejos, em contraponto recorrente na narrativa.


As músicas foram feitas para a trama, como manda a lei das trilhas de musicais, mas temas como Ponteio (Braulio Tavares, Chico Cesar, Beto Lemos e Alfredo Del-Penho), Inimigos do sertão (Braulio Tavares, Chico Cesar, Beto Lemos e Alfredo Del-Penho), Canto do Soturno (Chico César e Braulio Tavares) e Morro, Iracema e Lucas (Chico César) podem até resistir fora de cena.


Muitos números musicais são coletivos, mas cabe ressaltar os solos vocais das atrizes Adrén Alves (brilhante ao se alternar na pele da líder circense Sultana – cujas frases de efeito extraem risos da plateia – e da endurecida matriarca sertaneja Dona Eufrásia) e Rebeca Jamir (Iracema, a mocinha da história, par do vaqueiro e aboiador Lucas, interpretado com carisma por Alfredo Del-Penho). Jamir cresce ao solar os temas mais doídos da parte final.


Fiel ao universo de Suassuna, O auto do Reino do Sol se alimenta do contraste entre as cores vivas do circo (realçadas nos figurinos de Kika Lopes e Heloisa Stockler) e os tons pálidos de um sertão soturno, manchado pelo sangue da carne cortada na faca dos desafios e duelos. Se aparados os excessos do texto, o (bom) musical pode crescer na longa estrada da vida teatral e se tornar tão cativante quanto o premiado Auê. (Cotação: * * *)


(Crédito da imagem: elenco do espetáculo Suassuna – O auto do Reino do Sol em foto de Elisa Mendes)

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