Lista de indicados ao 28º Prêmio da Música Brasileira abrange cena atual


A lista de indicados à 28ª edição do Prêmio da Música Brasileira considera, legitima e confirma a força da cena musical contemporânea que se construiu no Brasil, às margens do mainstream, a partir dos anos 2000. Basta conferir as três músicas que concorrem ao troféu da Melhor Canção: compositora que firmou obra autoral com o segundo álbum, Qualquer pessoa além de nós, Carol Naine está no páreo com Dizputa, concorrendo com um ícone da Tropicália (Tom Zé, na disputa com Descaração familiar) e com um bamba do samba carioca (Zeca Pagodinho, indicado por Nunca mais vou jurar, partido alto gravado com Arlindo Cruz e Marcelinho Moreira). A melhor música é a de Naine.

Na categoria Revelação, o júri da premiação idealizada pelo empresário José Maurício Machline abre os ouvidos para BaianaSystem (a banda soteropolitana que vem conquistando o Brasil), Liniker & os Caramelows (cantora trans que também conquistou público Brasil afora) e para Vidal Assis (o indicado mais identificado com as tradições da MPB e do samba). Os álbuns indicados na genérica categoria Canção Popular reiteram a tendência do prêmio de misturar gerações ao nomear Saulo Duarte e a Unidade por Cine ruptura juntamente com Elza Soares (pelo projeto dedicado ao compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues) e com Odair José (pelo roqueiro álbum Gatos & ratos).


Na categoria Pop / rock / reggae / hip hop / funk, segmento igualmente amplo e elástico, a indicação do consagrado Tropix – o quarto álbum de estúdio da cantora e compositora Céu – reitera a sintonia do 28º Prêmio da Música Brasileira com a cena atual. Céu concorre com Luiz Tatit (pelo álbum Palavras e sonhos) e com Tom Zé (pelo disco Canções eróticas de ninar). Já a categoria Projeto especial consagra Delírio de um romance a céu aberto – álbum produzido por Thiago Marques Luiz com canções de Zé Manoel nas vozes de elenco que incluiu Elba Ramalho e Fafá de Belém – com indicação que soa tão justa quanto as nomeações da trilha sonora do filme A luneta do tempo (criada por Alceu Valença) e Irineu de Almeida e o oficleide – 100 anos depois, CD que fez resgate histórico ao inventariar a obra do compositor, trombonista e oficleidista Irineu Gomes de Almeida (1863 – 1914).


No segmento da MPB, a surpresa é a indicação de Batom bacaba, sexto álbum da cantora amapaense Patricia Bastos. O disco se enquadraria mais na categoria pop ou mesmo regional (pelo repertório de tom amazônico), mas o fato é que Bastos – cantora ainda desconhecida do chamado grande público – disputa o troféu de Álbum de MPB com ícone da MPB, Maria Bethânia (favorita pela indicação da gravação ao vivo do show Abraçar e agradecer), e com já consolidado alquimista da música pop brasileira, Lenine, nomeado por conta do registro do show The Bridge, feito com a orquestra holandesa de Martin Fondse.


No quintal do samba, Pedro Miranda deveria ganhar o prêmio de melhor álbum do gênero por conta do irrecotável Samba original. Mas Miranda tem concorrentes de peso e prestígio na área como Martinho da Vila (indicado pelo álbum De bem com a vida) e Zeca Pagodinho (pelo desvirtuado terceiro volume do projeto O quintal do Pagodinho). Já a categoria Regional indica álbuns do artista brasiliense Alberto Salgado (Cabaça d’água), do elétrico pernambucano Alceu Valença (Vivo Revivo!) e do baiano Raimundo Sodré (Os girassóis de Van Gogh). A rigor, Alceu já alcançou dimensão nacional desde a década de 1970 com som de alcance universal.


De todo modo, o fato é que o 28º Prêmio da Música Brasileira contempla na lista de indicados a diversidade que pauta mercado fonográfico cada vez mais segmentado que, não raro, irmana jovens e veteranos artistas nas mesmas dificuldades para se fazer ouvir em um país de dimensões continentais dominado por gêneros massivos como o sertanejo. Todos estarão juntos na cerimônia agendada para 19 de julho no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em festa-show norteada por tributo ao cantor Ney Matogrosso.


(Crédito da imagem: Flyer do 28º Prêmio da Música Brasileira)

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