Ponte para o passado, e a música que correu por fora

Por mais que o #foratemer esteja virando unanimidade, o Brasil prossegue em câmara lenta. Filme de suspense e terror, mesmo que patético em muitos momentos, na linha do gênero “terrir” inaugurado antes mesmo do termo por Zé do Caixão. Daí, insistir que o caminho leve a eleições diretas e gerais.

Enquanto isso, dá para piorar. No Rio, com a decisiva contribuição do prefeito, anunciando o corte em 50% da verba destinada às escolas de samba. Mesmo que esse seja um campo minado, nas mãos de contraventores, trata-se de setor vital para a economia (e identidade cultural) carioca, gerando milhares de empregos diretos e indiretos. Falta de visão estratégica ou mente tapada pelo fundamentalismo religioso do ex-pastor explicam a desastrada medida que penaliza enorme cadeia criativa e produtiva.

Antes de passar para o prato principal dessa coluna sentimusical, faço uma ponte com o cinema, “Anauê!”. Novo longa-metragem do cineasta Zeca Pires, investigando tema que muitos tentam deixar sob o tapete, os tempos do Integralismo e do Nazismo na região dos Vales de Itajaí e Itapocu, em Santa Catarina. Na próxima terça, dia 20, o filme abre a 21º edição do festival FAM (Florianópolis Audiovisual Mercosul).

Pires, que tem dois longas de ficção no currículo, “Procuradas” (2004, codirigido com José Frazão) e “A antropóloga” (2010), entrevistou tanto populares das cidades de colonização alemã no estado quanto historiadores, sociólogos e filósofos. Ele também utilizou imagens e filmes históricos para montar o filme, que é narrado pelo diretor (na voz do ator Édio Nunes), dramatiza trechos de discursos de Getúlio (que flertou com a nazi-fascismo antes de pular para o outro lado no campo de batalha da Segunda Guerra) e de uma entrevista de seu vice, o catarinense Nereu Ramos – que foi presidente da República por dois meses (entre novembro de 1955 e janeiro de 56).

Ainda não vi “Anauê!” (a saudação integralista, nos moldes do Heil Hitler alemão), mas tema e personagens permitem paralelos com o Brasil atual.

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Além dos quatro CDs físicos que sobraram, apenas três álbuns conferidos digitalmente e um solitário entregue pelo carteiro se somaram, em semana para lá de atribulada. Muito dificultada pelo apagão do lap top ainda com um ano e três meses de garantia. Na manhã de quinta-feira, quando começo a adiantar a coluna de sábado, o mac simplesmente se recusou a sair de seu repouso e, desde então, se apresenta mortinho da silva. Enquanto aguardo o prazo de 48 horas úteis da autorizada para o diagnóstico, brigo com a lentidão e alguns bugs do 11 polegadas de K que me permite, a muito custo, postar esse texto.

Semana que, discograficamente, teve como destaque para esse batucador “Terra” (Canto do Urutau / patrocínio ProacSP), do grupo de jazz Pó de Café. Nesse terceiro CD (já em plataformas de streaming como Spotify e Apple Music), eles tiraram o “quarteto” de seu nome. Afinal, desde o anterior, “América” (2015), a formação era de sexteto, com Bruno Barbosa (contrabaixo), Murilo Barbosa (piano), Marcelo Toledo (saxofone) e Duda Lazarini (bateria) reforçados por Rubinho Antunes (trompete e flugelhorn) e Neto Braz (percussão).

Após dois intensos discos com repertório original, que passava por hard bop, samba-jazz e variações do jazz moderno, os músicos da região de Riberão Preto e arredores reviram suas origens. Cinco das nove faixas de “Terra” vêm do universo caipira, incluindo clássicos, tratados com liberdade e invenção. Na abertura, “Rei do gado” (Teddy Vieira) tem andamento ralentado, climático, como que preparando o ouvinte para a inusitada viagem. Já “O menino da porteira” (Teddy Vieira e Luiz Raimundo) é um solo de contrabaixo que, depois, se junta ao tom épico imprimido a “Juriti/Toada de samba” (Caçula e Mariano). “Tristeza do jeca” (Angelino de Oliveira) tem seu tema apresentado pelo trompete de Antunes e em seguida se abre para o solo de saxofone (Toledo) que remete à fase mística de Coltrane. “Rio do lágrimas” (Piraci, Tião Carreiro e Lourival dos Santos) tem percussão e solo de trompete com sotaques afro-caribenhos. Em três das quatro composições inéditas o Pó de Café vira um septeto graças à viola caipira de Ricardo Matsuda – este também o autor de uma delas, “Caipira coffee”, múa que fecha o disco. O contraste entre o som típico das cordas de aço com o de instrumentos de formação jazzística também está presente em “Terra” (Rubinho Antunes) e “Moda menor” (Murilo Barbosa) e é mais um dos charmes de um disco profundo e revelador. Caipira e jazzístico, muito além da monocultura sertaneja que se espalha pelo Brasil contemporâneo.


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Apresentado (li em algum lugar) como o primeiro disco de repertório inédito de João Donato em 15 anos, “Sintetizamor” (Deck) é projeto em dupla com seu filho, Donatinho, cinco décadas mais novo e já um mestre na manipulação dos teclados eletrônicos. Também produtor e arranjador do disco, gravado em seu estúdio no Rio, Synth Love, Donatinho imprimiu a roupagem pop e dançante que prevalece nas dez faixas escritas pela dupla, algumas com diferentes parceiros. Teclados vintage dão o tom, mas em contraponto com o instrumental de diferentes participações, incluindo o trombone de Marlon Sette, a flauta de Ricardo Pontes, as guitarras de Fernando Vidal, Leonardo Vieira e Davi Moraes (este, também coautor de “De toda maneira” e “Interstellar”). Funk e disco music dos anos 1970 predominam, mas com diferentes teores de fusões. Misturada à bossa donatiana em “Ilusão de nós” (letra de João Capdeville) e “Vamos sair à francesa” (esta, com letra de Ronaldo Bastos); com ecos do Earth, Wind & Fire nos vocalises de “Lei do amor” (parceria com Rogê, que também gravou a guitarra nessa faixa); abusando do vocoder em “Luz negra” (parceria com Jonas Sá) e “Surreal” (com Domenico Lancellotti e Julia Bosco); à la Azymuth na quase brega “Clima de paquera”; viajante e espacial em “Hao Chi” (a que fecha e aumenta a bizarrice do projeto com um poema em chinês na voz de Fernanda Sung). Diversificado, bem humorado, para ouvir sem preconceitos.


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Outro conferido por streaming (e sem direito à ficha técnica), “Vem” (Sony) mostra avanços de Mallu Magalhães. Para quem começou com o pop indie teen à la ukelele, seu atual flerte com o samba-pop é bem vindo. Na abertura, Jorge Ben (bem antes do Jor) é escancarada referência em “Você não presta”. Através do disco, Ben volta mais vezes, seja no canto em falsete usado em “Casa pronta” ou no samba-rock “Pelo telefone”. Já “Culpa do amor”, como que confirmando seu título, tem algo de Los Hermanos no formato como ela monta a composição, que caberia bem num disco de Marcelo Camelo. Enquanto o pop sessentista ecoa por canções como “Vai e vem” e “Será que um dia”. Referências lusas também dão as caras, caso de “Linha verde”, que fecha o disco embalada por bandolim, algo como “embandolimnada”. Voz pequena, mas que cumpre bem o papel que lhe cabe, Mallu é lufada de genuína musicalidade.

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Passando para as sobras, “Flowers in the dirt” (Universal) soou muito melhor do que eu imaginava. Percebo que, na época, não parei para ouvi-lo com a atenção devida. Se, agora, o disco extra, com as nove demos gravadas por Paul McCartney e Elvis Costello, é curioso, principalmente para quem acompanha as carreiras dos dois, a nova edição vale mesmo pelo álbum original, que, lançado em 1989, está entre os melhores solos do ex-beatle. Traz a habitual e infalível mescla de rock básico (“Figure of eight”, “Rough ride”) e balada romântica (“Motor of love”, “Distractions”, “That days is done”), nas mãos de Paul, que se desdobra em múltiplos instrumentos, e de um time de especialistas se alternando nas bases, incluindo Hamish Stuart (guitarra e vocais), Robbie McIntosh (guitarra), Nick Hopkins (piano), Trevor Horn (teclados), Chris Witten (bateria) e Elvis Costello (vocais). Pelas boas intenções, também merece ser lembrado o reggae político-ecológico “How many people”, dedicado à memória de Chico Mendes, o seringueiro e ativista ambientalista que tinha sido assassinado em dezembro de 1988. Paul ligado nas mazelas do Brasil.

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Em “Nem tudo pode se ver” (Embolacha), o grupo carioca Picassos Falsos é fiel ao que fez em seus dois primeiros álbuns, em fins dos anos 1980. Se pensarmos numa linha evolutiva do rock que conquistou o mercado no início daquela década, o então quarteto avançava na busca por um sotaque brasileiro, no seu caso carioca. Mas, apesar de alguma repercussão nas rádios, reconhecimento da crítica e de seus pares, a banda não sobreviveu ao desinteresse da indústria da música pelo gênero que então começava a perder terreno no mercado. Corrigindo comentário na semana passada, quando disse que esse disco marcava mais uma volta, desde 2012, Humberto Effe (voz), Gustavo Corsi (guitarra), Romanholli (baixo) e Abílio Rodrigues (bateria) têm se mantido em atividade. Em 2013, eles comemoraram com shows os 25 anos de seu segundo e mais celebrado disco, “Supercarioca”, que ganhou uma versão ao vivo, lançada digitalmente pela Deck, e virou um documentário exibido pelo Canal Brasil.

Produzido por JR Tostoi, “Nem tudo pode se ver” prova que os Picassos têm seu lugar no desinteressante rock brasileiro. São nove canções autorais e a recriação de “Pavão mysteriozo”, o clássico pop-nordestino de Ednardo nos anos 1970. Effe assina sozinho cinco músicas; divide com seus colegas a faixa-título; e ainda conta com as parcerias de Alvin L (em “Misturando”) e Mauro Sta. Cecilia (“Vou à Vila” e “Nunca fui a Paris”). Além do quarteto (que virou trio, com a saída do baterista após as gravações), o disco contou com participações de Fernanda Takai (voz em “Nunca fui a Paris”), Duda Brack (voz em “O que fiz foi gostar”, esta também com a viola caipira de Ricardo Vignini), Humberto Barros (teclados em quatro faixas) e Tostoi (guitarra em “Pavão mysteriozo” e “Mudança” e violão e baixo em “Um pouco mais perto”). Na próxima quinta-feira (22/6), às 20h, o grupo faz o show de lançamento no Teatro Rival.

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Grupo que acompanhou Itamar Assumpção em seus discos mais emblemáticos nos anos 1980, o Isca de Polícia volta com alguns de seus membros originais em “Isca – Volume 1” (Elo Music / Boitatá / Distr. Tratore). Estão, entre outros, o guitarrista Luiz Chagas, o baixista Paulo Lepetit e a cantora Suzana Salles. Gente que trabalhou com Itamar em outros períodos também se juntou à banda, caso da cantora Vange Milliet, autora de duas faixas (“Corpo fechado” e “As chuteiras do Itamar”, esta junto a Lepetit e Ortinho). O repertório é na maioria de Lepetit, também o produtor musical do álbum, que alterna parcerias com Arnaldo Antunes (“Dentro fora” e “Xis”, esta gravada com participação do ex-Titãs), Zeca Baleiro (“É o que temos de melhor”), Carlos Rennó (“Atração pelo Diabo”) e Alice Ruiz (“Eu é uma coisa”). Fechando o disco, “Itamargou” traz uma gravação incidental de seu autor, Tom Zé. Reverenciado em algumas das letras, Itamar Assumpção também está muito presente na estrutura das composições, nos arranjos e nas interpretações da atual Isca, banda que correu à margem do rock dos anos 1980 e sempre esteve à frente de seu tempo. Que venham os próximos volumes.

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Ainda entre os títulos citados no último sábado, o belga Michel Tasky reúne em “Um malandro em Paris” (Tratore) sambas que flertam com o idioma e os costumes franceses. Entre clássicos (como “Tem francesa no morro”, de Assis Valente) e inéditas (incluindo três composições do próprio), cercado de bambas cariocas, o disco tem seus momentos, é divertido e terá novas doses antes de ir para estante.

O mesmo vale para o único CD físico da semana encurtada pelo feriadão, “Chora, violão” (independente), de Nicolas de Souza Barros (violão de 8 cordas). O repertório reúne peças do fim do século XIX e início do século XX, valsa, polca, tango e demais gêneros que serviram de base para o choro. Compostas originalmente para piano, por Ernesto Nazareth, Henrique Alves de Mesquita, Eduardo Souto e Francisco Mignone, as músicas foram transcritas para o violão por Nicolas. Para arquivar em “violão clássico brasileiro”.

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