Papel do BRICS na nova ordem internacional ainda é incerto

Capa do BRICS e o futuro da ordem globalA literatura sobre o BRICS – o grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e, mais recentemente, África do Sul, que se tornou o símbolo das mudanças no poder econômico global – ainda é relativamente escassa, talvez porque a instabilidade da política e da economia internacionais nos últimos anos não permita aos estudiosos o tempo e o distanciamento crítico necessários para uma análise consequente do fenômeno. O risco é grande: previsões ou diagnósticos mais ousados podem ser desmentidos pela realidade antes mesmo de o livro ir para o prelo (se é que ainda existem prelos).

Isso explica os méritos e as fraquezas de “BRICS e o futuro da ordem global”, do cientista político e pesquisador alemão Oliver Stuenkel, professor da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo (Paz & Terra, 350 pgs). Por um lado, é o balanço mais abrangente disponível nas livrarias sobre o BRICS: quando aponta seus faróis para o passado recente, o autor apresenta uma competente contextualização da geopolítica global que ensejou a formação do grupo, abordando temas como a crise da hegemonia norte-americana, o crescimento acelerado dos países asiáticos e o impacto das correntes migratórias sobre a política e a economia europeias.

Foi nesse cenário que investidores e economistas passaram a apostar em um protagonismo crescente dos países emergentes. Vale a pena lembrar que o conceito dos BRICs (então sem o “S” de South Africa) foi formulado pelo economista-chefe da Goldman Sachs, Jim O’Neil, em um ensaio de 2001, “Building better global economic: BRICs”. Segundo O’Neil, essas potências em ascensão poderiam se tornar os pilares de um novo sistema financeiro e de governança global.

Cinco anos depois, em 2006, o grupo foi efetivamente constituído, mas sem um documento formal nem um secretariado fixo – ou seja, não é um bloco econômico nem uma associação comercial, como a União Europeia, mas um agrupamento informal, uma espécie de clube de países emergentes com interesses políticos e econômicos em comum. Brasil, Rússia, Índia e China são todos países de grandes dimensões, ricos em recursos naturais, com mercados internos imensos, e cuja conduta pode de fato influenciar os rumos das relações internacionais. A entrada da África do Sul, na Cúpula de 2011, teve um caráter simbólico, por representar o continente africano.

Por outro lado, para um livro que traz a palavra “futuro” em seu subtítulo, os prognósticos de Stuenkel parecem um pouco previsíveis e opacos, inclusive em relação ao Brasil, com algumas platitudes e um estilo nem sempre fluente. Ainda assim, é uma leitura recomendável, no mínimo por ordenar as informações sobre o BRICS, sua história e seus possíveis desdobramentos nos próximos anos.

Entre as constatações do autor, destacam-se:

– Daqui a dez anos, os BRICS terão um peso econômico maior no planeta do que têm hoje, não em função do Brasil, mas do crescimento da Índia e da China, que em breve se tornará a maior economia do mundo;

– Isso torna visível, a médio prazo, um mundo centrado na Ásia: das quatro maiores economias do planeta, duas serão de países dos BRICS;

– Isso, por sua vez, aumentará o poder político do grupo: se formarem um bloco coeso em relação à questão climática ou à instabilidade financeira global, por exemplo, esses países terão efetivamente voz na solução das crises (o problema é formarem um bloco coeso, tendo interesses tão divergentes);

– Os BRICS estão passando por um processo de institucionalização, simbolizado pela criação do Novo Banco de Desenvolvimento (mas, sobre esse banco, pouco se ouviu falar no noticiário brasileiro, nos últimos anos);

– As primeiras duas grandes viagens do presidente Michel Temer foram para Ásia (China e Índia, em 2016): “Nenhum outro presidente viajou para Ásia logo no início do mandato, e isso simboliza a compreensão de que a Ásia é cada vez mais importante para o futuro do Brasil”, lembrou o autor em entrevista;

– Durante o boom das commodities, o Brasil conseguiu se projetar no cenário internacional, mas seu governo não tomou as medidas necessárias para tornar esse crescimento sustentável, e hoje estamos pagando o preço (óbvio);

– Em 2016, o Brasil foi, das principais dez economias do mundo, a única com crescimento negativo (causas têm consequências, não é?), o que mostra que o cenário externo não explica a crise que levou ao impeachment de Dilma Rousseff (mas tem gente que ainda acredita nisso);

– O principal desafio dos Estados Unidos será lidar com uma nova realidade multipolar, na qual não terão os mesmos privilégios que tiveram ao longo das últimas décadas.

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