CD cigano irmana Yamandu e Penezzi entre a eletricidade e a delicadeza


O toque cigano e latino dos dois violões ouvidos no álbum instrumental Quebranto (Biscoito Fino) já está bem traduzido na imagem da obra do artista gráfico paulista Stephan Doitschinoff exposta na capa do primeiro álbum gravado pelo violonista gaúcho Yamandu Costa com o músico paulista Alessandro Penezzi, às do violão que também toca flauta e bandolim.


Quebranto se embrenha pelos interiores de um Brasil fronteiriço, traduzido tanto pelo sentimento embutido no toque de Capitão do mato (Yamandu Costa e Alessandro Penezzi) quanto no suingue em que cai Chico balanceado (Yamandu Costa e Alessandro Penezzi), temas compostos pelos dois virtuoses que abrem o disco gravado no estúdio 3×7 por Vinicius Araújo. Outra composição de autoria da dupla, Amigo bonilha (Yamandu Costa e Alessandro Penezzi) evidencia o toque vivaz, quase frenético, dos violões em Quebranto, ainda que haja espaço no disco tanto para o lirismo de É chorando que se aprende (Alessandro Penezzi) como para a inquietude sacolejante de Saracoteco (Yamandu Costa).


A interação e a afinação entre os dois violonistas é total. Admirador do toque de Penezzi, Yamandu conheceu o colega há cerca de 15 anos. De lá para cá, Yamandu se firmou como um dos maiores nomes do violão brasileiro de todos os tempos. Penezzi é menos conhecido, embora também seja reverenciado no meio musical. Contudo, não há em Quebranto a supremacia de um músico em relação ao outro. Ambos estão posicionados no mesmo (alto) nível.


Como evidenciam a audição de temas como Dayanna (Alessandro Penezzi), o disco exprime devoção à escola do violão brasileiro, com dose particular de latinidade. Tanto que, sintomaticamente, o repertório do álbum inclui temas em que os violonistas externam gratidão aos respectivos professores. Valsa seresta nº 1 é delicada composição de autoria de Sergio Napoleão Belluco, professor responsável pela iniciação musical de vários violonistas em Piracicaba (SP), cidade natal de Penezzi.


Meus gurizinhos é parceria de Yamandu com Lucio Yanel, mestre do violonista gaúcho. Música de Penezzi, batizada por Yamandu e escolhida para dar nome ao disco, Quebranto é tocada com a corrente de eletricidade que caracteriza o toque do guri nascido em Passo Fundo (RS) há 37 anos.


Bolero negro e o sincopado Samba pro Rafa, duas composições de Yamandu, confirmam a fina sintonia entre os músicos em Quebranto, a ponto de, sem as informações da ficha técnica do disco, ser bem difícil identificar o que é de Penezzi e o que de Yamandu neste álbum que irmana os dois ases do violão entre a eletricidade e a delicadeza dos 13 temas. (Cotação: * * * * 1/2)


(Crédito da imagem: capa do álbum Quebranto, de Yamandu Costa & Alessandro Penezzi)

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